Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Apresentação oral dos projectos digitais

Local: Sala de Seminários do Instituto de Estudos Ingleses (6º piso)
Data: 23 de Janeiro de 2009, sexta-feira, entre as 14h00 e as 18h00

Andrea Daniela da Silva Vale, 14h00
Camilo Clemente Soldado, 14h20
Carolina José Abreu de Freitas, 14h40
Cristiana Raquel Almeida Domingues, 15h00
Diogo Agante da Silva, 15h20
Emílio José Lopes Fuentes, 15h40
Fábio André Valente dos Santos, 16h00
João André de Almeida Ruela Ribeiro, 16h20
João Pedro Pinto Gaspar, 16h40
Maria Eduarda Oliveira Eloy, 17h00
Sara Cristina Tomásio Cruz, 17h20

Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

A mais recente matéria-prima do mundo actual

No dia em que me inscrevi na faculdade e fui informado de que teria de escolher mais uma disciplina, dentro de um leque de seis, como minha opção transversal, não me preocupei e escolhi Literatura e Media na Era Digital pelo simples facto de a palavra digital estar relacionada com a era em que vivemos, a era dos computadores e de esse ser um meio do qual uso e abuso bastante.
No entanto, e neste preciso momento em que estou a escrever o meu último post para o blog da disciplina, chego à conclusão que valeu a pena.
Ao longo deste semestre que agora acabou, tive a possibilidade de ver as mais variadas obras digitais, algumas delas bastante estranhas e confusas, admito...mas muitas delas bastante interessantes, apelativas e dinâmicas. Destaco algumas obras como Strings e Cidadecitycité não só pela forma como foram feitas, mas também pela mensagem que pretendem transmitir.
Este novo meio (digital) é uma nova porta que se abriu...um novo mundo a descobrir...e pelo que já se viu, considero que o caminho a seguir é o da inovação e aposta nesta nova matéria-prima.
Relativamente ao futuro, penso que esta nova forma literária tem pernas para andar, uma vez que, actualmente, eu e outros jovens adultos da minha idade somos designados de geração dos computadores ou geração digital.

Cidade = Aparato/Confusão/Correria

A obra digital Cidadecitycité, de Augusto de Campos, demonstra algo que é muito comum no nosso dia-a-dia caso vivamos numa cidade – a confusão.
Na sociedade em que vivemos e principalmente nas cidades, apercebemo-nos que as pessoas vivem numa constante correria, um género de luta contra o tempo, sem se aperceberem do que se passa à sua volta. E esta obra digital é bem exemplo disso, uma vez que o autor coloca, ao longo de uma linha recta imaginária, um determinado número de letras que estão em constante movimento, fazendo lembrar uma fila de trânsito criada pelo número excessivo de carros. À medida que as letras se vão movimentando ouve-se uma voz de fundo que fala de uma forma muito acelerada, dificultando, deste modo, a sua compreensão.
Portanto, o principal objectivo do autor é dar a entender, através de uma simples obra digital, no que se tornou o nosso quotidiano, nomeadamente nas cidades.

Bomba – Augusto de Campos

O poema-bomba, de Augusto de Campos é uma obra digital que comporta som, imagem e texto. O autor pretende passar a ideia do que acontece quando algo explode, daí que inicialmente esteja tudo calmo, as letras estão juntas, contudo, e após a explosão, as letras começam a ser projectadas em todas as direcções, dando a sensação de confusão e aparato.
Para além do texto (as letras) e dos movimentos do próprio texto, a autora recorre ao som, que por sua vez é o ruído, o estrondo da explosão.
Logo, podemos concluir que Augusto de Campos recorre ao meio digital não só como uma forma de escapar às formas mais tradicionais mas também porque pretende dar a conhecer as vantagens que este novo meio tem para oferecer.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

O pedido de ajuda de Augusto de Campos

sos não é apenas um poema electrónico de Augusto de Campos. É um apelo, em nome de todos nós. Sobre um fundo negro (como "a noite que anoitece") aparecem letras amarelas ao som de um ruído que rapidamente associamos aos filmes de ficção científica passados no espaço. As letras agrupam-se formando um círculo que vai rodando e constituindo frases lidas por uma voz séria, lembrando um robot.

Frases como "Que faremos após", "sem sol sem mãe sem pai", "vagaremos sem voz" giram à volta de um núcleo que, no final do poema, culmina com um "vagaroso SOS". Tudo neste poema aponta para a solidão da sociedade contemporânea, cada vez mais só, cada vez precisando de mais ajuda, mas sem voz que a possa pedir. Augusto de Campos representa a Humanidade como um grupo de crianças "sem mãe, sem pai" que se sentem sozinhas numa noite escura, sem terem como pedir ajuda.

Por mais que se pudesse escrever sobre a solidão que presenciamos todos os dias e que é um flagelo que nos persegue, Augusto de Campos consegue em sos dizer tudo o que há para ser dito...

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Afinal o que é a Poesia Digital??

As sucessivas e intensas pesquisas nos meios de comunicação, realizadas nas últimas décadas, têm permitido o surgimento de novas obras hipermédia, marcadas pela sua imprevisibilidade, concedendo-lhes uma subjectividade e liberdade de criação. De certa forma, estas novas características dão uma nova forma de criação da poesia contemporânea afectando, directamente, a própria literatura e a forma como esta se estrutura.
A poesia digital obrigou à superação de três elementos que dão sustentabilidade à poesia tradicional - autor-texto-leitor - sendo substituídos por um outro grupo associado na construção destes textos poéticos, nomeadamente, programador-poeta-máquina-texto-leitor.
Podemos considerar que o ciberespaço define as experiências sociais e cognitivas actuais, numa sociedade onde existe uma constante justaposição entre o real e o virtual, permitindo ao Homem, a vivência de um novo Mundo transponível ao espaço físico.
Toda esta dimensão particular, oferecida pela poesia digital, confere-lhe uma vertente, deveras, atractiva e o nascimento de novas estruturas espaciais com o rasto de espaços análogos que se cruzam, se complementam e, por vezes, se opõem.
O caso da interactividade é um outro parâmetro que a poesia concreta oferece ao seu público, integrando um número infindável de sequências do qual o leitor tem liberdade de optar, exigindo a sua permanente participação.
Assim, podemos considerar que o meio da tecnologia poética permite uma abertura de horizontes e aprofundados conhecimentos, verdadeiramente, interessantes, contribuindo, eficazmente, para o desenvolvimento da criatividade humana, numa realidade social onde se dá demasiada importância ao mundo das tecnologias, atravessando todas as idades e mentalidades.
Para terminar, na minha opinião, o desenvolvimento de todas estas obras têm como verdadeiras inspirações, grandes obras literárias, o que possibilita um conhecimento generalizado já que o meio digital é mais atractivo que o meio convencional, convencendo um maior número de indivíduos a aderir a esta mesma leitura. Contribui, de certa forma, para um fortalecimento da literatura e para uma maior aproximação desta com a própria sociedade que, naturalmente, é o alvo pretendido.
Todos estes novos conhecimentos relativos a este tema só foram possíveis graças às aulas de Literatura e Media na Era Digital que, na minha perspectiva, nos possibilitou uma nova percepção relativamente à própria essência da Literatura que, à semelhança do Mundo em que vivemos, atravessa uma permanente evolução e transformação.

99 maneiras diferentes de olhar o mesmo mundo

Os Exercícios de Estilo de Raymond Queneau demonstram de modo surpreendente que é possível (mesmo que tangencialmente) relacionar poemas japoneses, com Matemática, “helenismos”, a língua dos Pês, “francesismos”, “inglesismos” e possivelmente tudo o mais que possamos imaginar. A premissa é a mais simples possível: descrever um único acontecimento no maior número possível de maneiras.

Se há algumas descrições que são acessíveis aos leitores, outras requerem algumas ferramentas de interpretação e/ou uma pitada de imaginação (por exemplo, o texto Translação: “No Y, num horizonte de grande mozés, uma tipolitografia dos seus trinta e dois anoféles, chapuz de femeeiro com um cordial a substituir a fitobiologia, pespego comprido como se lho tivessem esticado”). No entanto, há sempre algo que se aprende em cada texto, quer a nível de algum pormenor que permita imaginar uma parte do acontecimento, ou em termos de vocabulário, ou simplesmente em relação ao modo como o autor (e os tradutores) foram capazes de reproduzir determinado universo temático/ linguístico.

Lendo vários dos textos é posssível encaixar o puzzle do acontecimento (ou conjunto de acontecimentos circunstanciais) que é retratado, como se se estivesse a recolher depoimentos de testemunhas diferentes e com dialectos distintos (em suma, habitantes de Babel). O que inicialmente parece problemático rapidamente se torna interessante e estimulante e a cada leitura aprendemos uma nova possiblidade de moldar a língua.

Finalmente, este conjunto de textos deita por terra a noção de que uma imagem vale mais do que mil palavras. Assistir ao conjunto de ocorrências descritas seria porventura muito menos interessante que ler acerca delas descritas de várias maneiras originais. Além disso, uma imagem revelaria apenas uma visão e nunca permitiria o exercício mental que este conjunto de textos produz. Podemos observar o Mundo com dois olhos mas pensá-lo em 99 linguagens diferentes consegue dar-lhe cores que o cérebro nunca conseguiria interpretar (à primeira vista).

A escrita como arte

Bartolomé Ferrando demonstra através das escrituras superpuestas a beleza oculta da caligrafia. Numa das suas obras, sob um fundo cinzento sobressaem os contornos marcados pela tinta dourada, como um enlace entre prata e ouro.

Vislumbram-se palavras no emaranhado dos veios de tinta, mas é necessária alguma preserverança e múltiplos artifícios do olhar para encontrar o poema escondido à vista desarmada. As letras interligam-se e, como o nome do conjunto de obras indica, a escrita sobrepõe-se, quase como se escrevêssemos uma frase sem qualquer espaço entre as palavras.

Sangre aerea arterias incoloras sobre un libro de paginas de luz

Parece uma frase enigmática. Talvez seja uma metáfora para uma leitura pulsante, o livro como motor da vida, uma escrita divina. A estória que ganha corpo e alma através de cada linha escrita: a tinta corre e forma as letras, palavras, frases, linhas... como o sangue flui pelas arterias. Em poucas palavras a escrita consegue materializar-se nalgo sobrenatural e mágico, mesmo que o léxico inclua termos mais carnais e, portanto, associados ao mundo do real.

São múltiplos os sentidos que se podem procurar (e percorrer) enquanto se observa esta obra de Bartolomé Ferrando e várias as questões que podem surgir: porquê o uso específico das duas cores associadas a metais nobres, qual o significado (se é que o tem) daquela pincelada mínima a cinza/prateado no fundo da página, o que será que o autor quis realmente dizer, haverá outra palavra oculta que dê um contexto completamente diferente à frase?

Contudo, o mais admirável é o facto de Bartolomé Ferrando conseguir transformar de modo tão simples (e simultaneamente complexo) a contemplação de uma pintura no acto de leitura e levar o “leitor” (em mais do que um sentido) a ler como se estivesse a observar um quadro. As duas artes fundiram-se harmoniosamente provando que a caligrafia não serve só para revelar a personalidade do escritor ou para embelezar uma página: é também um mundo secreto, um código com significados ocultos que pode surpreender o mais desprevenido dos leitores.

"Húmus Poema Contínuo" de Rui Torres

http://www.telepoesis.net/humus/humus_index.html

O poema hipermédia de Rui Torres - Húmus Poema Contínuo - tem como base de criação, os texto elaborados por Herberto Hélder, poeta português e Raúl Brandão, jornalista e, também, escritor português.
Húmus de Raul Brandão foi documentado durante a primeira guerra mundial e a sua primeira publicação foi no ano da Revolução Russa. Esta obra tem suscitado diversificadas opiniões por parte da crítica literária, interessando salientar o seu carácter de "antecipação".
Tal como no poema reescrito por Rui Torres, Raul Brandão define-se pela reedição e reelaboração da sua própria escrita, criando uma narrativa bastante instável e fragmentária.
Por sua vez, Herberto Hélder também se caracteriza pela sua reinvenção literária e pela sua grande capacidade de criatividade e talento para a escrita. Na década de 60, o poeta criou um conjunto de exercícios hipertextuais, fazendo parte de um restrito conjunto de impulsionadores da literatura hipertextual.
Como o próprio título sugere, "Húmus" exibe a transformação, a existência de variadas possibilidades do ser humano conceber as suas próprias experiências que, naturalmente, se transformam em sequência do Mundo em que vive e da sua percepção acerca deste mesmo Mundo.
Numa primeira abordagem a esta obra digital, surgem-nos dez conjuntos repartidos de pequenos excertos poéticos que, conforme o clique do espectador, vão-se modificando e formando novos significados. Simultaneamente, surge-nos o número de possibilidades possíveis na criação destes poemas, somente com aquele conjunto de caracteres. Existe, de facto, uma enormidade de diferentes tipos de interpretação, directamente acessíveis ao espectador.
Esta carcterística, presente na obra, demonstra, na íntegra, toda a capacidade interactiva e inovadora que esta nova arte de conceber a literatura mundial oferece a uma sociedade que se apresenta, profundamente, unida às novas tecnologias e às funcionalidades que estas oferecem.
Nesta poesia aparecem, constantemente, símbolos, nomeadamente, a água, o ouro, a morte, o silêncio, a ressurreição, o tempo, o sonho, entre outros.
O silêncio surge como um elemento essencial, tendo uma dupla intenção de morte e de renascimento, revelando-se como um componente activo da linguagem. Este próprio silêncio denota-se na inexistência de qualquer tipo de som aquando da apresentação deste poema digital. Também, a imagem de primavera trás consigo o símbolo da fecundação, do nascimento e da transformação. A água é o símbolo da pureza, da vida e, de certa forma, um meio de sobervivência e transparência.
Analisando estes conceitos, podemos examinar, directamente, o próprio conteúdo dos versos onde são transmitidas mensagens puramente humanas e profundamente sensíveis e emotivas. A própria composição de cores, imperada pelo branco (a vida) e preto (a morte), demosntram esses mesmos extremos que , por vezes, podemos mergulhar em determinados momentos da nossa vida.
O texto revela um carácter intenso e bastante sensorial, transportando o leitor para um novo Mundo, podendo considerar-se como um ponto de partida para a reflexão da própria vida e do seu verdadeiro significado. Existe um sentimento de libertação e transformação que deriva da dinâmica vital do sujeito. Estar vivo é estar em transformação constante, e essa transformação implica uma reescrita. No fundo "Húmus" completa-se a partir do passado e do presente, da tradição e da inovação, do silêncio e da vida.
Na minha perspectiva, este poema retrat, de uma forma muito subtil e inteligente, a existência humana que se baseia em diversos símbolos que guiam a nossa vida e a forma como encaramos as nossa experiências. É um projecto bastante completo que conjugou, perfeitamente, o conteúdo original dos escritores Herberto Hélder e Raul Brandão com as novas concepções da escrita digital. Esta nova forma de apresentação, na minha opinião, permite uma maior aproximação do leitor com o conteúdo inerente à mensagem, podendo considerarmos que, possivelmente, terá um maior efeito no leitor em questão.

Clair de Lune&Malinowsky

Esta obra digital surge como uma componente motivadora de novas compreensões relativas ao próprio conceito da música.
Existe um forte envolvimento do som com a imagem gráfica em que as notas do piano implicam, de imediato, uma constante modificação de cores, possibilitando, ao leitor, uma forte e intensa aroximação com poema em questão.
É, precisamente, esta interactividade e dinâmica que possibilitam ao espectador, o conhecimento deste novo caminho de criar e compreender a nova poesia - a poesia digital
O poema suscita uma envolvência profunda e contínua do leitor com a música transpotando-nos para um "Mundo" tranquilo, obstante a qualquer tipo de conflitos.

"Deseo, Desejo, Desire" (aulas anteriores)

Ana Maria Uribe concebeu esta obra digital - "Deseo, Desejo, Desire", sendo visto como uma espécie de compilação de três anipoemas eróticos que, na sua essência, abordam a questão do desejo, surgindo, em três diferentes línguas.
A autora imprimiu à sua obra uma harmoniosa relação entre o som e o movimento concedendo uma dinâmica e originalidade à mesma.
O movimento que as letras manifestam e as próprias cores (cores vivas e fortes), remetem-nos, precisamente, para o erotismo envolvente ao longo desta obra. Sugere-nos a atracção física, a proximidade entre os corpos...
Na minha opinião, a concepção deste poema construi um desfecho muito bem conseguido em que a autora conciliou, perfeitamente, o som e a forma como as letras se apresentam ao leitor, atingindo o seu principal objectivo: transparecer o tema central da obra, o desejo.
O surgimento desta palavra em diferentes línguas transmite a universalidade do conceito que se apresenta como elemento presente na existência humana.

Hegirascope

Nesta obra de hiperficção Hegirascope publicada em 1995 por Stuart Moulthrop, os fragmentos textuais passam como num ininterrupto slide show, as páginas encadeiam-se de modo automático após ter decorrido um certo período de tempo (normalmente de 20 a 30 segundos), para além de os nós de texto conterem os habituais links. Em Hegirascope se adiciona uma figura temporal que pode ser vista, como uma alegoria da ausência de influência do leitor sobre o texto .Esta obra de Moulthrop não permite essa leitura contemplativa. O efeito acrescentado do ritmo temporal transforma Hegirascope numa paródia do hipertexto, numa excessiva fragmentação Hegirascope obriga a reflectir sobre alguns pontos. Por um lado, a actividade que obras como esta propõem aproxima-se mais do visionamento de um espectáculo que da leitura de um livro, em virtude não tanto da importância concedida ao visual mas da falta de controlo do leitor sobre o passar da página.
Contudo o autor de Hegirascope ,retém o controlo total sobre o conteúdo da obra mesmo após a publicação do texto,pode em qualquer ponto mudar ou acrescentar partes ao texto sem o conhecimento do leitor e é o único a ter a todo o momento uma compreensão integral da composição do texto.

...BOM ANO NOVO DE 2009...:)

Site de Arnaldo Antunes

Quanto acedemos ao síte,a primeira pagina sugere-nos um índice que nos confunde com estruturas bibliográficas em que há muitos elementos que são comuns á pagina como os seus métodos .Cada ligação que acedemos corresponde a uma ,como lógica da estruturação dos ficheiros que estes programas de sítio estabelecem .Na lógica de página este ficheiros Web na sua representação visual são uma remediação da forma de página ,que tem características que nós conhecemos da pagina de um livro.
Neste site vemos a representação discográfica do autor ,das obras representadas pelas capas e todos os conteúdos referentes as discografia do autor.
A forma gráfica tem o formato de um labirinto onde existem vários caminhos que reflectem como particularidade de um ficheiro no espaço digital.Neste site de Arnaldo Antunes existe portanto um certo número de ligações numa estrutura hierárquica em que não podemos passar por alguns ficheiros sem passar por outros.
Em suma cada leitor que vai entrar neste site vai seguir um percurso que são percursos que estão determinados não só pela hierarquia mas por ele próprio,existem muitas associações que estão construídas de escolhas que qualquer leitor deste site pode fazer um percurso diferente.

“eis os amantes”de Augusto de Campos

O poema “eis os amantes”de Augusto de Campos faz parte da série de poemas intitulada poetamenos, inicialmente publicada em 1953.
Toda história deste poema é estruturada na relação entre as cores primárias e as cores secundárias.
Ao longo dos seis poemas nos deparamos com um tema comum: a ausência da amada, a distância física e todas as sensações oriundas dessa separação. O próprio nome poetamenos já lança ao leitor os indícios dessa incompletude. Esse sentimento apresenta-se nos poemas pelo uso da cor. Entre as cores primárias (cores puras) e as secundárias (formadas a partir de duas cores primárias) constatam-se as relações de ausência, contraste e complementaridade.
O poema é formado por duas cores: o azul e o laranja (cor complementar). Essas cores representam no poema a figura do poeta e da amada. Eis os amantes possui eixo de força central, todo poema está alinhado a partir do centro da página. O tema revela a dialéctica que se expressa nas palavras que se fundem ou se separam.
A palavra é o corpo do outro, “cimaeu baixela” e o poema encena, espacial e cromaticamente, a fusão dos amantes. O poema é estruturado através do método de criação de “palavras-valises”(palavra que faz a ligação entre duas palavras).Esse procedimento, aliado à utilização das cores complementares, dá a sensação de fusão entre as palavras, assemelhando-se ao acto sexual entre os amantes, como o próprio nome do poema já diz.

Enigma n

Este poema de Jim Andrews intitulado “Enigma n” é um poema que nos remete para a problemática do sentido,que é uma palavra escrita,de acordo com esta convenção de código escrito.Esta palavra é composta por letras e sons que estão combinados numa certa sequencia que nos remete para uma constante de possibilidades de formar sentido.As letras recombinam-se na ordem posicional para gerar palavras de sentido mas pode também oscilar numa forma virtualmente aleatória e gerar arbitrariamente um conjunto de padrões.
Estes padrões que estão a ser gerados não estão pré definidos ,nós é que clicamos nestes padrões.No momento que assumo clicar ,o texto assume essa configuração.O que este texto está a representar é a intervenção do leitor nesse mesmo texto,que está programado para que o leitor intervenha no seu campo textual e veja uma consequência da sua intervenção.
A partir da palavra “meaning” podemos gerar um número infinito desses padrões.Nos temos o sentido inicial “meaning”entretanto há um conjunto de variações com a alteração das cores mas se gerar um padrão de movimento o texto ocorre.
Em suma,esta forma nos permite representar de uma forma virtual a dimensão caótica da significação.

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam

O conto jardim de caminhos que se bifurcam de Jorge Luis Borges, é o título do livro labirinto de Ts'ui Pên. Neste livro o autor conta a história de um asiático em plena guerra, que precisa de informar algo. Não se sabe de que lado ele está. Cada passo, cada acção é calculada, para que não haja erro. Em um guia, encontra a resposta. De comboio, chega até a casa.
Perante a focalização deste conto descobre-se que o protagonista descende de uma linhagem real e sagrada da Ásia, especialmente de um integrante, que foi o autor de uma novela caótica perante a qual o autor sugere a imagem da bifurcação no tempo, e não no espaço".Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta para uma e elimina as outras; mas Ts'ui Pen, opta simultaneamente para todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam.
Fang, digamos, tem um segredo, um desconhecido chama à sua porta; Fang decide matá-lo. Naturalmente, há vários desenlaces possíveis: Fang pode matar o intruso, o intruso pode matar
Fang, ambos podem salvar-se, ambos podem morrer, etc. Na obra de Ts'ui Pen, todos os desfechos ocorrem; cada um é o ponto de partida de outras bifurcações.
Infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos.
Essa eloquência de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.

"Tensão" de Augusto de Campos

Quando tentamos interpretar este poema concreto “Tensão” de Augusto de Campos ,a nossa primeira expectativa de leitura é que estamos pré-condicionados a encontrar sentido nos textos ao formar palavras,ou seja pré-programados de ler de certa maneira as palavras,lendo da esquerda para a direita,de cima para baixo,o que nos obriga a tomar decisões que não são de fácil alternativa .
Tensão é um dos poemas de maior densidade sonora e estrutural. O poema apresenta uma forma espelhada, a partir de um eixo central: “ten / são”. O que caracteriza o poema é a quadrícula ,a possibilidade da leitura geométrica e a exploração das intersecções sonoras.
Com um uso mínimo de palavras e letras, o poema possibilita a existência de diversos sentidos. Palavras com o mesmo número de letras desdobram-se, formando pequenos blocos quadrangulares, que, juntos, estruturam um bloco maior. A tensão age no próprio poema, ou seja, ela é o poema.
A tensão de que o texto nos fala também é a tensão entre o som e o sentido,a escrita e a leitura onde os percursos de leitura tem de ser construídos no acto de ler o texto,e também onde os percursos de leitura tem de ser construídos pelo acto de ler o texto onde está presente a correlação entre a escrita e a leitura.
O que este poema nos mostra é que o sentido é construído através do modo de ler o texto,quando leio o texto de uma certa maneira eu construo um certo sentido.

A Bíblia de Gutemberg

A Bíblia de Gutemberg ,foi de facto a bíblia oficial da igreja católica e toda uma tradição de produção de bíblias que provieram da idade media.Quando olhamos para esta bíblia encontramos certas características que são dos manuscritos ,como é o exemplo da epístola no primeiro capítulo ,as capitulares ,as colunas de texto lineares que encontramos por página ,tal como o próprio padrão de letras standard que é característico da imprensa.
Com a chegada da era digital e do hipertexto ,podemos ver representada esta obra trespassando da forma material do livro para a forma digital.Quando utilizamos o rato e viramos uma página da própria bíblia ,num acto simulado e virtual ,esta ilusão do material do objecto numa forma gráfica ,nos apresenta um conceito criado por Bolter e Grusin,designado como remediação,como sendo um processo de mudanças em que ocorrem num meio ou meios(mídia)diante do aparecimento de uma tecnologia que chega mesmo a competir e a completar tecnologias anteriores.
Contudo este conceito de remediação não se refere simplesmente a uma apropriação de especificidades de um meio por outro meios mas também à continua e permanente reorganização dos vários meios ,que vão se modificando sem que qualquer um deles necessariamente desapareça perante a visualização que vemos hoje em qualquer computador.

Amor de Clarice – Rui Torres

Amor de Clarice, de Rui Torres, é uma obra digital baseada no conto Amor da escritora brasileira Clarice Lispector e resulta de uma combinação entre som, texto, imagem e movimento.
O leitor tem a possibilidade de interagir directamente com a obra, uma vez que é ele próprio que decide onde vai começar e onde vai acabar. Para tal, tem ao seu dispor a possibilidade de seleccionar as partes da obra que deseja ler ou pode clicar sobre a parte que mais lhe interessa e ouvi-la.
Deste modo, o leitor tem a possibilidade de alterar o sentido da obra sempre que o entender, bastando, para isso, um “click”.

O piano digital

A obra digital Clair de Lune, de Stephen Malinowski pode ser definida como um piano digital. O autor recorre a um conjunto de barras coloridas que nos fazem lembrar as teclas de um piano e que se vão iluminando à medida que a música decorre. Sendo que a cada cor corresponde a uma nota musical.
Ao longo da música apercebemo-nos que há várias notas que se vão repetindo e consequentemente sobrepondo.
A interacção entre o som, a imagem, e o próprio movimento dá-nos a ideia de que está mesmo alguém a tocar piano, pois vemos as teclas a serem pressionadas. Tal não é possível quando estamos, simplesmente, a ouvir a música, uma vez que a única propriedade que temos ao nosso dispor é o som.

Deseo, Desejo, Desire

Deseo, Desejo, Desire, de Ana Maria Uribe, é uma obra digital constituída por três anipoemas acerca do desejo. Esta obra digital tem como base a palavra desejo em três línguas distintas: “deseo”, “desejo” e “desire”. Em todos os anipoemas a autora dá vida às letras (movimentam-se) que constituem a palavra como forma de representar o desejo. Outra forma encontrada pela autora para dar a entender ao leitor o significado dos anipoemas é o som. O movimento das letras é acompanhado por som, o que possibilita ao leitor compreender melhor este tipo de poesia.
Tal na obra digital El circo, Ana Maria Uribe volta a conciliar som, imagem e movimento de modo a criar uma obra bastante interactiva e dinâmica que desperte a atenção do leitor.

Strings – yes, no, maybe…

Strings é uma obra hipermédia que retrata uma discussão entre duas pessoas, possivelmente um casal.
Inicialmente, o leitor depara-se com uma discussão acesa em que nem um nem outra estão dispostos a ceder – “ yes or no”. No entanto e com o decorrer da discussão, o “no” começa a ceder e deparamo-nos com o “maybe”. Esta cedência vai-se confirmar quando o “no” acaba por concordar com o “yes” e nessa momento dá-se a reconciliação do casal. Se inicialmente a linha se dividia em duas partes distintas, agora forma um todo, representando, deste modo, a união do casal.
Em suma, Strings é uma obra cujo principal objectivo é dar a conhecer ao leitor o poder da argumentação. Ou seja, grande parte dos dilemas com que vamos sendo confrontados ao longo da vida pode ser resolvida através da exposição de argumentos e pontos de vista bem consolidados.

O Circo

A obra “El circo: anipoema por entregas” de Ana Maria Uribe trata-se de um conjunto de anipoemas que permitem ao leitor ter a ideia de que se encontra num circo. A base de toda esta obra é o alfabeto, no entanto, a autora dá vida às próprias letras, dota-as do privilégio de se puderem movimentar. Daí que nos anipoemas como “Los animales” e “Columpio” o leitor tenha a ideia de que esta diante de um desfile de animais de circo e de um trapezista a realizar o seu número, respectivamente.
Logo, Ana Maria Uribe recorre as formas oferecidas pelo meio digital, nomeadamente o som, o movimento e a imagem para dar a conhecer ao leitor o que é o circo.

Strings (aulas anteriores)

"Strings" é uma obra hipermédia que retrata como, por vezes, podemos moldar as nossas relações interpessoais, marcadas pela oposição, pela concordância e pelas inúmeras cedências com que lidamos ao londo da nossa vida.
Numa primeira abordagem a esta obra, é-nos sugerida uma discussao em que dois campos, completamente diferentes, que se opõem, seguindo uma mesma linha que surge como ponto orientador e foco de ligação entre ambos.
Numa seguinte fase, existe uma éspecie de coerência, preparando-se como um momento antecedente à união e ao entendimento de ambas as partes.
É precisamente na terceira e ultima parte que podemos constatar o momento áureo desta mesma reconciliação, onde os dois lados se juntam formando um so corpo.
Todo este processo de entendimento foi acompanhado pela capacidade de argumentação, retratando, plenamente, a forma como devemos guiar a nossa caminhada vivencial, procurando, sempre, ultrapassar todas as adversidades da melhor forma, no fundo, de um modo "argumentativo".

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Ana Maria Uribe – «Deseo, Desejo, Desir»

Esta obra consiste em três anipoemas eróticos, no meu ponto de vista, esta obra representa maioritariamente as artes da sedução, sendo representado por letras que formam palavras de significados iguais. Cada anipoema representa uma palavra escrita em diferentes línguas – Deseo, Desejo, Desir.

«Strings»

Mais uma vez vemos retratado o universo das relações amorosas. Strings, o que ao inicio é uma discussão de divisão entre o sim e o não na mesma linha temática, acaba por ter outros contornos com a concordância de uma das parte e por fim o tão esperado consenso e reconsiliaçao. É uma obra que nos mostra a temática da argumentação.

«My body – A wunderKammer»de Shelley Jackson

Na obra «My Body – A wunderKammer» de Shelley Jackson podemos observar que o corpo da autora surge mais do que em forma de desenho – em forma de índice. Através das várias partes do corpo podemos navegar pela história da descoberta dos seus pontos fracos, e a evolução do seu corpo.
Tal como um livro, em que nós vamos ao índice para ler a parte que quisermos, nesta obra podemos ir ao “índice” representado pela ilustração de um corpo de mulher (supostamente o da autora) no qual podemos clicar nas várias partes do corpo de modo a lermos e sabermos a história do corpo de Shelly Jackson.

Augusto Campos – «Coraçaocabeça»

A dicotomia – cabeça – coração – como que uma reflexão sobre a forma como cada um deles pode comandar a nossa vida.
O poema é-nos apresentado num fundo vermelho escuro, com letras amarelas que à primeira vista formam palavras sem qualquer significado dado que as duas frases lá presentes mudam de uma para outra numa fracção de segundos.
De inicio começamos por não perceber a mensagem do poema Coraçãocabeça, mas, olhando atentamente, acabamos por descobrir que as mensagens patentes nesta composição poética interactiva são - Minha cabeça começa em meu coração; e - Meu coração não cabe em minha cabeça, de certo modo o predomínio do coração quanto à cabeça, o predomínio das emoções aos sentidos, mas ao mesmo tempo, o completar de um com o outro - cabeça e coração interligados.

Augusto Campos – «Tensão»

Tensão – um poema cujas palavras acabam no vocábulo «m» dando extrema exclusividade à palavra – tensão – a representação desta palavra é feita através de todas as outras, ao descodificar o poema descobrimos que todo ele representa o vasto campo da tenção através dos sons emitidos pelas palavras e da falta de coerência, descodificação essa que também pode ser feita através da versão audível apresentada pelo autor.
Tal como muitos outros poemas concretos, este começa e acaba onde o leitor quiser visto que o leitor pode começar por ler na vertical na horizontal ou mesmo de baixo para cima, as opções de leitura são muito vastas.

Augusto Campos – «Eis os amantes»

A história de dois amantes, ligados apenas pelo relacionamento físico, tal pode ser representado não só pela própria história do poema, como também pela própria disposição de cores e letras desta composição poética.
A facto das palavras de cor diferente se apresentarem aglutinadas transparece de certa forma a grande vontade dos amantes estarem juntos, a importância do contacto físico – «os corpos»; «gemeoutrem»; «cimaeu»; «baixela».

«Enigma N»

Este poema surge apenas com uma palavra «meaning» (significado) podendo o leitor interagir com a palavra descobrindo ele mesmo a formação do significado, passando por uma mistura de letras, como que o pensamento humano, a falta de coerência.
No contexto da poesia concreta, Enigma N enquadra-se perfeitamente, todo este poema remete para a instabilidade no momento da formação do sentido.
É como que a “forma de formar” o significado das coisas, forma essa guiada pelas opções de clique feitas pelo leitor.

Bíblia de Gutenberg

Mais um bom exemplo de remediação é a Bíblia de Guntenberg.
Como que uma nova versão da “antiga” bíblia de Gutenberg, a versão digital contem os mesmos componentes e informação, as partes desta bíblia podem ser vistas on line bastando apenas um simples clik para ler as mesmas palavras da bíblia original, não fosse esta uma reprodução em forma de fotos de modo ao leitor ter a impressão da magnitude física da bíblia.
Na primeira página podemos ver uma espécie de índice que nos permite navegar directamente nas páginas desejadas. Assim sendo, com esta remediação, podemos ter acesso a um documento que até a altura era interdito a muita gente.

«Amor» de Clarice Lispector - Rui Torres

Com a remediação de Rui Torres podemos entrar na obra de uma forma mais interactiva. A combinação – música + voz + imagem + texto – resulta numa remediação perfeita da obra «Amor» de Clarice Lispector. Assim, podemos ver a obra de outro ponto de vista, como se fosse uma obra completamente diferente, com a qual o leitor inter-age escolhendo a ordem das frases e clicando nos diversos links.

«Amor» de Clarice Lispector

«Amor» de Clarice Lispector conta-nos a história de Ana, uma mulher que vive uma vida rotineira mas não tem desagrado na vida que leva.
Esta obra mostra o papel da mulher rebaixado a um simples “instrumento doméstico”.
Vivendo no mundo que deseja, Ana dedica-se aos filhos e marido, deixou a sua juventude em troca dessa rotina, e apesar de Ana acabar por cair no “mundo da revolta”, tal emoção acaba por ser reprimida, sendo que Ana acaba como a tradicional mulher que nasce e vive em torno da família e do bem estar da família
.

Strings

Na obra Strings, de Dan Waber, é utilizado um fio que vai formando palavras.

Primeiramente, o leitor depara-se com uma discussão que, com a continuação da leitura, se concluiu que é entre uma casal. O Yes (sim) e o No (não) estão muito bem definidos na primeira lexia intitulada argument. Não só a contrariedade de opiniões nos remete para a existência de uma discussão, mas também o movimento das palavras, como se cada lado estivesse a “puxar” as palavras para si, representando deste modo a luta e defesa da opinião de cada um. A discussão continua em argument2, agora mais calma. As opiniões aparecem agora como que a “flutuar”, surgindo uma nova palavra: Maybe (talvez); sugerindo já uma concordância entre os dois sujeitos. Segue-se flirt, que significa namorico, em que a palavra No se transforma noutra. Fica a dúvida se se torna em Yes ou Maybe, mas fica a certeza de que se trata de uma dessas, por outras palavras, representa o começo de algo. Flirt (cntd), é onde se confirma o início do namorico. A palavra Yes surge bem nítida, realizando variados movimentos com variadas intensidades, como se de uma dança se tratasse, transparecendo a alegria que esta palavra pode trazer. A alegria continua, agora representada pelo riso (haha) de cada um dos elementos do casal, que acaba por se tornar numa só. Youandme é a lexia que se segue, com a palavra You (tu) surgindo no centro, deslocando-se calma e horizontalmente pelo ecrã. A palavra Me (eu) surge mais agitada, rodeando o You, mostrando deste modo a importância que o You tem para o Me. Posteriormente temos arms, que pode ter duplo significado: “Your arms own me” ou “Your arms around me.” O movimento circular da linha tanto pode indicar a letra inicial da palavra “own” como pode representar o acto de rodear alguém com os braços, isto é, abraçar alguém.

Por último, temos poidog que transmite uma mensagem bem definida: “Words are like strings that pull out of my mouth.” – As palavras são como fios que saem da minha boca. Esta mensagem justifica a utilização de um cordel para formar palavras nesta obra.

What If The Word Will Not Be Still

É isto que o autor, Stuart Moulthrop na obra Hegirascope, pretende mostrar ao leitor: e se a palavra não estivesse sossegada ou quieta?

O problema desta obra hipermedia é a pré-temporização de cada lexia. O leitor depara-se com alguns avisos iniciais, os quais são de leitura obrigatória. Trata-se de uma espécie de introdução ou talvez até uma preparação para a leitura da narrativa que se segue. Por fim, o leitor é questionado “Where have you been in the Net today?” Após esta pergunta, o leitor entra numa “zona” diferente. Aqui são repetidas algumas das frases iniciais, mas a temporização é diferente e existem quatro ligações a rodear o texto. Aqui o leitor pode optar por seguir o caminho que quiser. Ao escolher uma dessas quatro ligações entra num outro espaço, em que o tempo e a cor de fundo se modificam. Continuam a aparecer quatro ligações, obviamente diferentes das que se encontravam na lexia anterior. Essas ligações são intituladas com expressões presentes no texto que rodeiam. Em algumas lexias o tempo para a sua leitura é mínimo o que consequentemente prejudica a interpretação.

As narrativas expostas desta forma são difíceis de apreender devido ao número elevado de ligações. A possibilidade de fazer sentido é muito relativa, pois depende das ligações que cada leitor faz.

Trata-se de uma obra semi-determinada, o autor determinou previamente alguns aspectos, como o tempo de cada lexia e as várias ligações disponíveis em cada uma delas; mas o leitor é quem, dependendo das opções dadas pelo autor, escolhe a sequência da narrativa.

A Escrita Sobreposta

Tal como o próprio nome indica, a escrita sobreposta é um tipo de escrita em que as palavras estão parcialmente sobrepostas. Bartolomé Ferrando, escritor espanhol, produziu um conjunto de obras baseadas nesta mesma escrita. Uma delas é a seguinte:

Não é fácil entender o que aqui está escrito. O leitor é obrigado a reflectir sobre a escrita, pois trata-se de um código diferente do normativo. Prossegue-se a descodificação em que são compreendidos os signos de acordo com determinado código. Após distinguir as palavras, o leitor necessita de criar um percurso entre os signos que leva à interpretação e à produção de um sentido para o texto. No final obtém-se a seguinte frase: "lo que tu piensas roza los huecos de sus palabras hechas viento". As restantes obras remetem igualmente para as palavras e para o acto da escrita.
O objectivo do autor é chamar a atenção do leitor para a natureza da escrita. As suas obras pretendem representar a escrita e o seu modo de funcionamento.

Hegirascope - Stuart Moulthropp

Stuart Moulthropp é o autor da hiper obra "Hegirascope". Aqui, o leitor interpreta a obra apresentada de forma indídual, ainda que, essa interpretação seja dependente da obra em si.
Dependente porquê? Porque o leitor pode intervir na sequência dada a obra, ou, simplesmente, deixar-se levar pelo formato original desta. A intervenção do leitor, deve-se às hiperligações apresentadas, com um conjunto de novos textos principais, levando o leitor para uma outra conjuntura da história. Os textos apresentados, vão aparecendo numa sequência temporal pré-definida. Essa sequência, pode ser de ritmo, ora rápido ora lento. Ao mesmo tempo que novos textos surgem, também novas cores de fundo brotam.
A forma como o leitor intervem na obra, permite-lhe interpretar esta de forma diversa. Dependendo, claro, das hiperligações que opte.

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

Releitura dos Poemas encontrados de António Aragão




Uma vista de olhos por um jornal e encontramos títulos alarmantes, más notícias, previsões desanimadoras ou artigos preocupantes. Dá vontade de cortar o jornal e espalhar o que resta! Pois António Aragão cedeu a esse impulso e criou Poemas Encontrados: um conjunto de recortes de jornais juntos aleatoriamente formando frases que nada têm a ver com os tradicionais títulos e notícias jornalísticas.




Mais tarde, graças ao milagre multimédia, o grupo de Poesia Experimental Portuguesa (PO-EX) reescreveu estes Poemas Encontrados. Com um simples clique pode-se fazer um "recorte" dos principais títulos das edições on-line de jornais como o Público, o Expresso (Portugal), o New York Times (E.U.A.), o Folha de São Paulo, o Google News (Brasil) e o La Vanguardia (Espanha), e estes agrupam-se automaticamente formando frases aleatórias.




É uma maneira extremamente original de ler um jornal, não se primando pela informação, mas privilegiando uma leitura muito mais interessante e abstracta, sem dúvida. O leitor é tentado a construir as suas próprias notícias através das palavras chave que aparecem. E, quando é confrontado com os verdadeiros artigos, surpreende-se a si próprio com a sua imaginação, apercebendo-se de como é fácil edificar uma nova realidade...

Literatura Digital e Hipertextual

A Literatura Digital viu-se em grande desenvolvimento a partir dos finais do séc. XX e inícios do séc. XXI, devido à forte digitalização do mundo em que vivemos, onde os suportes digitais suplantaram os suportes tradicionais, onde a tecnologia pauta o ritmo das nossas vidas e o desenvolvimento da sociedade.
Apenas tive conhecimento deste tipo de arte ao frequentar a cadeira de Literatura e Media na Era Digital, deparando-me com formas de escrever e de apresentar a escrita completamente diferentes das experiências que tinha tido até então. Foi um tipo de literatura que me fascinou imediatamente pela interactividade que desenvolve com o leitor e pelo exercício do nosso intelectual, apelando bastante ao nosso sentido cognitivo.
"Mar de Sophia", "My Body, a wonderkammer", "Deseo, Desejo, Desire", "Enigma n" e "Strings" foram, certamente, os anipoemas que mais me agarraram a este conceito de arte, obrigando-me a pensar, a reflectir. São exemplos de uma literatura digital que apesar de sublime, se consegue desvendar o seu segredo, a sua mensagem. Apesar de a mensagem subliminar estar quase sempre presente neste tipo de Literatura, o que mais me interessou foi, sem dúvida, a ligação que os artistas digitais conseguem criar com o leitor, tornando-o interveniente na sua obra. Creio que se trata de uma vertente da Literatura que se poderá desenvolver e expandir. Contudo, será difícil a sua aceitação e suplantação à Literatura convencional. A sociedade moderna, infelizmente, tende para um consumo rápido, de fácil compreensão e comercial, uma "fast-art", cultura criada para as massas e a pensar nas massas...
Apesar de ter gostado de algumas obras digitais, penso que muitas delas são demasiado eruditas e intelectuais, tornando-se tremendamente confusas, emaranhadas em pensamentos "pseudo-artísticos", onde por vezes a arte nem é evidenciada e sim, a digitalização e as hiperligações... Muitos artistas digitais transformam as suas obras em algo tão complexo, que acabam por retirar todo o interesse que a sua criação poderia ter. A evidenciada necessidade de alguns desses autores de se mostrarem complexos e complicados intelectuais desfaz as suas obras e torna-as numa arte demasiado digital, demasiado codificada, demasiado escondida...
Um tipo de Literatura que poderá continuar a ser deixada a um canto, se muitos dos seus artistas persistirem num elitismo desnecessário e sem cabimento...

Mar de Sophia - Mar de Palavras

Assombroso! O anipoema elaborado por Rui Torres é feito com uma rara mestria, conseguindo destacar-se, a meu ver, de muitos outros artistas digitais. A união é perfeita, os poemas, elaborados aleatoriamente, estão repletos de uma beleza com a marca de Sophia de Mello Breyner Andersen, a voz profunda do narrador dá alma à poesia e o visual está também muito bem tratado.
Como é possível, através de uma base de dados de poemas de Sophia de Mello Breyner, criar novos poemas com os traços da famosa escritora portuguesa? Como é possível, através de uma escolha basicamente aleatória, onde apenas comandos de computador entram, criar algo tão naturalmente poético? Como é possível que a interferência do computador, da digitalização, crie obras que aos olhos de um leigo, são perfeitamente "humanas"?
É toda essa perplexidade com que o leitor se depara, que transforma este anipoema, numa obra, para mim, única, onde Rui Torres encarna a pele de um génio, demonstrando que através de um computador, de uma base de dados, algum Flash, uns poemas de Sophia de Mello Breyner, uma escolha relativamente aleatória das palavras e a inclusão de umas vozes consegue criar poemas "novos", recheados de qualidade e erudição, balançando num mar de palavras...
Depois de uma bela adaptação de "Amor de Clarice", Rui Torres demonstra com o "Mar de Sophia" que o computador, pode afinal de contas, ser um "poeta"....

Strings de Dan Waber

Dan Waber apresenta-nos um anipoema assombroso: "Strings". As palavras são cúmplices da animação, levando a anipoesia para um campo superior, havendo uma ligação inquebrável entre a digitalização e a literatura...
O anipoema começa com uma transformação constante do "yes" em "no", mostra a ténue linha entre uma afirmação e uma negação, a verdade é subjectiva e pode ser alterada facilmente... De seguida o "maybe" torna-se interveniente aparecendo tímido, como se tivesse medo em afirmar-se, é uma incerteza. A transformação visível na seguinte fase do anipoema é ainda mais interessante. Há uma miscelânea entre o "yes" "no" e o "maybe", como se nenhum fosse certo, como se todos os argumentos se tivessem fundido... De seguida há um "yes" saltitante e alegre. Terá ganho o argumento ou será uma forma de demonstrar a satisfação de uma relação que teve os seus frutos? É mostrado ao leitor duas visões, duas perspectivas heterogéneas. A satisfação é observável e ainda mais convincente na seguinte fase do "Strings". A gargalhada, o riso demonstra a felicidade do argumento vencedor, ou da relação promissora e afortunada...
A seguir o leitor observa que todo o anipoema se insere numa relação amorosa... O "you" caminha calmamente, sendo abordado inúmeras vezes pelo "me" que tende a aproximar-se, a fazer a sua investida. Surge então a frase "your arms around me", é um sinal de que a investida foi feliz, há uma união. Concluo então, que toda a animação tem a ver com as relações amorosas, repletas de incertezas, de argumentos, de contrariedades, de oposições...
O anipoema acaba com uma frase devaneadora: "words are like strings that pull out of my mouth". Com este anipoema Dan Waber demonstra uma forma de escrever bastante peculiar, como se todas as palavras saíssem de uma única linha. E essa linha é a nossa boca...

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Mar de Sophia, de Rui Torres

A constituição do poema "Mar de Sophia", de Rui Torres baseia-se na compilação de vários poemas digitais apresentados em formato hipermédia, como textos animados gerados a partir do léxico da escritora e poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, reconstituindo a sia obra e atribuindo-lhe, naturalmente, características renovadas.
Numa primeira abordagem ao poema de Rui Torres é-nos apresentado três caminhos a seguir: «Enquadramento», «Retrato de uma Princesa» e «Poema #2». «Enquadramento» surge como um momento de apresentação deste poema e a forma como este é estruturado. Os dois poemas surgem como uma espécie de homenagem à escritora portuguesa.
Esta obra foi concebida através do programa Actionscript, tendo como colaboradores de Rui Torres, Nuno Ferreira na Programação, Nuno Cardoso na Voz e Luís Aly no som.
Neste poema é, igualmente, permitido a recriação dos poemas por parte do leitor, num eixo combinatório de linguagem, adaptando esse mesmos poemas ao seu gosto pessoal.
Naturalmente, as concepções combinatórias que o leitor vai formulando ao longo da sua leitura vão variar de pessoa para pessoa.
Analisando atentamente o poema podemos verificar a presença de várias palavras que surgem repetidamente, nomeadamente, "mar", "tempo", "noite", "luz", "dia", entre outras.
A acompanhar a parte escrita está o som. Enquanto estabelecemos o exercíco de compreensão desta obra digital, são nos transmitidos sons variados e que se intercalam, rapidamente, entre si, dando uma maior profundidade ao texto e, por vezes, cedendo-lhe um carácter mais enigmático e interessante. Percebe-se, várias vezes, o barulho das ondas a anularem-se junto à areia, aproximando o leitor do contexto onde se desenrola toda a acção da história - o mar.
A nível literário, podemos dizer que estes poemas têm como linha orientadora a norma, sendo capazes de seleccionar, aleatoriamente, palavras das listas que formam os campos significativos e lexicais presentes no texto da escritora.
Para terminar, na minha opinião, este poema demonstra-se como uma obra bastante conseguida onde o autor, apesar de introduzir as naturais alterações a que um texto está convencional está sujeito aquando da sua passagem para o meio digital, não deixou de manter a mensagem principal que Sophia de Mello Breyner concebeu na obra original.
Em suma, Rui Torres respeitou a verdadeira essência desta obra, tornando-a num projecto atractivo, onde desperta a atenção e curiosidade da comunidade tecnológica, concedendo à literatura portuguesa e às suas obras, um cariz inovador que apresenta características muito versáteis.

Amor de Clarice (aulas anteriores)

O texto hipermédia de Rui Torres tem como fonte de inspiração o conto de Clarice Lispector, "Amor". O poema original surgiu nos anos 60 e tem como principal tema a abordar, os conflitos psicológicos e as crises existênciais que, por vezes, nos deparamos ao longo da nossa vida. De certa forma, a autora procurou traduzir com dramatismo e uma riqueza metamorfósica, a crueldade do Mundo em que vivemos, onde imperam vários sentimentos que atormentam o ser humano diariamente. No fundo, podemos considerar "Amor" como um espelho e um foco de reflexão acerca do Mundo em que todos nós vivemos.
Este poema conta-nos a história de uma mulher profundamente abatida pela vida que levava marcada,essencialmente, pelo seu carácter rotineiro e inútil. Um dia, Ana resolveu trocar essa angústia que vivia por um estado de conformação com a vida que levava, uma vida de adulta que ela própria tinha obrigação de suportar, considerando que podia sobreviver sem qualquer tipo de felicidade.
Acompanhada pelas suas tarefas domésticas e pelo cuidado que dedicava aos seus filhos, Ana não esperava mais nada da vida, considerando-a preenchida, sendo uma espécie de compilação entre a tranquilidade e a estabilidade.
No entanto, um dia depara-se como um cego na rua a mascar uma chiclete. Esse momento revela-se como um foco desencadeador de uma incessante vontade de viver e atribuir algum sentido à sua vida. Era o amor que ali renasceria. Podemos concluir, então, que Ana ao conter os seus impulsos abdicou de grandes paixões para alcançar o que denominava "vida verdadeira".
Numa abordagem digital da mesma obra, Rui Torres transmite perfeitamente esta mesma ideia de sofrimento e infelicidade.
O poema está dividido em duas séries com vinte e seis partes cada. Existe, também, uma enorme liberdade concedida ao leitor, já que pode arrastar e formar variadíssimos conjuntos de versos mudando, no fundo, a própria concepção do poema em questão.
As grandes letras vermelhas transmitem todos os sentimentos, todas as incertezas emocionais e toda a tranquilidade indesejada, vividos pela personagem, explicados pelo rompimento de dias verdadeiramente monótonos que levava, tendo como principal característica, a existência de uma imaginária felicidade e uma disposição para concordar com tudo aquilo que a vida lhe foi oferecendo.
Analisando este poema, podemos verificar que o tema abordado nunca será ultrapassado, existindo muitas "Anas" no Mundo em que vivemos. Por vezes, este facto pode explicar-se pela forma como a sociedade molda as suas mentalidades baseadas na aparência e no desejo de aproximação da perfeição e de uma imagem que agrade aos "espectadores".
O próprio som que acompanha a escrita transmite um sentimento de tranquilidade e, ao mesmo tempo, de angústia. A existência de inúmeras possibilidades na formação do léxico de Clarice Lispector no meio digital, pode considerar-se, na minha perspectiva, como uma presença de variadíssimas possibilidades de caminhos a percorrer ao longo da nossa vida. Isto não quer dizer que optamos sempre pelo melhor caminho mas são estas situações que nos ajudam a voltar a optar, deixando, em nós, marcas de amadurecimento.
Esta nova concepção da obra de Clarice Lispector, na minha opinião, está algo fora do normal, porque Rui Torres conseguiu, na íntegra, transvasar todo o sentimento adquirido pela personagem, na obra original, para suporte digital, tornando-o muito interessante e, sem dúvida muito mais interactiv. Possibilita uma participação activa e interessada do leitor que, à medida que vai aprofundando o seu conhecimento acerca deste projecto, os sentimentos de aproximação e identificação, vão ganhar, cada vez mais, sentido.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Stephen Malinowski - O Retrato da Música

Stephen Malinowski apresenta-nos duas formas diferentes de representar a música. Em vez de uma pauta sóbria e crua, sem movimento, sem vida, Malinowski mostra que a música é muito mais que uns bemóis ou sustenidos embutidos numas tantas linhas pretas sobre um fundo branco...
Clair de Lune, música de Chopin "pintada" por Malinowski, é uma representação colorida e viva da obra do pianista polaco. Cada traço vindo de um pincel digital, habilmente manuseado por Malinowski, representa um momento da música, o seu tempo, a sua duração, o seu tom, transforma as notas em símbolos de cores e de tamanhos diferentes, mostrando toda a heterogenidade das notas e da própria música. Uma representação bastante artística da música, da sua vida, dos seus momentos, das suas pausas, das suas notas...
Nocturne (opus 27, nº2), também uma música de Chopin, é, na minha opinião, mais bem representada por Malinowski. Há ainda mais vida nesta representação da música do artista polaco. O movimento é notório, com as linhas a saltarem, a esticarem, a darem uma vida e uma dinâmica não vista em Clair de Lune.
O retrato da música, a pintura que Malinowski lhe faz é absolutamente genial, mostrando uma cumplicidade enorme entre o seu trabalho digital e as músicas. A ligação da imagem, do visual, com a música, o audível é algo muito bem conseguido, transformando essa ligação, demonstrando que o visual de uma música pode ser muito mais que uma simples pauta de pretos e brancos...

Sábado, Dezembro 20, 2008

Sobre LMED

Dedicado às minhas alunas e aos meus alunos

Ana Mónica, captura de ecrã de «cortado em flores» (Maio 2006).

A disciplina Literatura e Média na Era Digital foi criada em 2005-2006 com o objectivo de dar a conhecer e reflectir sobre a produção de literatura no meio digital. Temos procurado observar quer a recodificação electrónica de objectos oriundos do meio impresso, quer objectos originariamente electrónicos, isto é, produzidos com recurso às materialidades intermédia e hipermédia de aplicações informáticas e de plataformas específicas. Muitas obras digitais constituem extensões de formas da arte processual ao interrogarem a materialidade particular das suas formas linguísticas e técnicas de mediação.


Luísa Cantante, captura de ecrã de «The Raven» (Maio 2006).

A reflexão sobre processos e tecnologias de mediação tem sido feita a partir da análise de um conjunto de obras electrónicas seleccionadas, em vários géneros, que incluem poesia cinética e hipermédia, hiperficção e ficção interactiva, performance e teatro digital, geração automática de texto, literatura de código («codework»), etc. Procurámos clarificar os diferentes modos e graus de intervenção dos leitores nas obras semi-determinadas, em objectos digitais e pré-digitais, tentando compreender o alcance do conceito de literatura ergódica proposto por Espen Aarseth. Procurámos ainda compreender a ecologia das tecnologias de mediação, nas suas relações sincrónicas e diacrónicas, através do conceito de remediação proposto por Jay David Bolter e Richard Grusin.


Vera Ribeiro Jorge, captura de ecrã de «Flying: Enjoy (the) Stealing Silence» (Junho 2006).

Deste modo foi possível pôr em causa certas dicotomias entre o impresso e o digital e clarificar as complexas operações de codificação realizadas através da espacialização da escrita. A recriação digital de formas visuais (como as que caracterizam os poemas constelados) revela, por vezes, a pluridimensionalidade da inscrição que ocorre na página impressa. A recriação de poemas experimentais realizada pelos autores do arquivo PO-EX, ou a reescrita digital dos seus próprios poemas concretos realizada por Augusto de Campos constituem exemplos da dialéctica entre o código impresso e o código electrónico nas operações de escrita e de leitura. Por isso o computador tem sido conceptualizado como uma tecnologia de inscrição que alarga e reconfigura o espaço da escrita, prosseguindo o processo de abstracção e replicação permutativa que é inerente ao código alfabético.


Bruno Santos, captura de ecrã de «Pormenor da Casa» (Maio 2007).

Aquela reflexão sobre as possibilidades do meio digital prolongou-se na dimensão pedagógica do trabalho de comunicação em contexto escolar. A escrita directamente motivada pelas obras vistas e analisadas tornou-se num dos instrumentos de aprendizagem centrais da disciplina. A complexidade de algumas obras e conceitos pôde ser tentativamente explorada por cada participante na disciplina, beneficiando da reflexão dos restantes. Torna-se assim possível ver melhor o que somos capazes de pensar e de escrever. Ao dar testemunho da ligação da cognição às representações de que dispomos para conhecer torna-se mais claro o acto de transformar as representações no esforço para conhecermos.


Márcia Rocha, captura de ecrã de «Visão e Poesia» (Maio 2007).

A socialização da escrita e da publicação que o blogue constitui torna possível aumentar o grau de apropriação das múltiplas linguagens com que a cultura digital nos interpela. Aumentar a consciência da escrita e das representações enquanto mediadoras dos actos cognitivos poderia ser, porventura, a justificação pedagógica para a prática que esta experiência de escrita representa. Trata-se, no fundo, de tentar responder às perguntas fundamentais num contexto de aprendizagem: como comunicar melhor? como aumentar, para cada indivíduo, a autoconsciência do acto de construção do seu próprio conhecimento?


Camilo Soldado, captura de ecrã de «Disorder» (Dezembro 2008).

A realização de um projecto de uma obra digital procura ligar o acto de pensar e o acto de fazer como formas adicionais de desenvolver a literacia digital, isto é, a capacidade de ler, escrever e pensar com os instrumentos digitais. Enquanto prática de aprendizagem representa também a valorização da dimensão performativa do conhecimento. E é esse grau de envolvimento no próprio acto cognitivo que torna possível intensificar a consciência dos processos materais de produção de sentido.


Pedro Pinto, captura de ecrã de «Quando os pássaros morrem» (Dezembro 2008).

Nos últimos três anos, Literatura e Média na Era Digital tomou forma não apenas como um corpo de conteúdos, mas também como um conjunto de métodos de ensino e de aprendizagem que são parte do seu próprio conteúdo. É nessa consciência da sua mediação disciplinar - enquanto mediação simultaneamente teórica e escolar - que a mediação digital e literária se tornou pensável, escrevível e legível. Nesta tentativa particular de ampliar para o espaço electrónico o espaço das interacções no espaço da aula está a tentativa de responder a outra questão: é possível ensinar de outro modo? aprender de outro modo?

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

Lexia to Perplexia

Como é que nos projectamos na máquina? Esta é uma das perguntas que se impõem na obra Lexia to Perplexia. Actualmente, uma grande porção das interacções sociais são mediadas por computador, logo, ele torna-se um elemento fulcral para a sociedade. A máquina está presente em quase todas as escolas, repartições públicas, escritórios, casas particulares, ou seja, tornou -se uma tecnologia omnipresente. O desenvolvimento científico e tecnológico trouxe consigo o advento da máquina, sendo que, o computador é considerado o engenho mais complexo.

Lexia to Perplexia é uma das mais famosas obras de codework; representa uma reflexão sobre a maquinização do ser humano/ humanização da máquina. Talan Memmott criou uma série de trocadilhos, com o intuito de demonstar a dimensão narcisica do homem na sua relação com a máquina.

Domingo, Dezembro 14, 2008

A obra digitaL...

Ao longo do semestre, analisámos diversas obras de natureza digital; aprendemos conceitos, tais como: Literatura ergódica, remediação, poesia concreta, cibertexto, hipertexto, semiótica, hermenêutica, entre outros. A exploração das obras permitiu-nos conhecer uma realidade, cada vez mais expressiva, contudo, ainda muito desconhecida.
O computador como tecnologia de escrita, permite criar aquilo a que chamamos: literacia digital. A escrita digital tem uma materialidade completamente diferente da escrita convencional, contudo, ambas são igualmente importantes.
As obras hipermédia elevam o olhar crítico do leitor, ou seja, é necessário um maior esforço de compreensão. Logo, o leitor vai cada vez mais fundo, a cada obra consegue um pouco mais.... O homem tem tendência para desistir, por isso é que, muitos de nós não admiramos esta forma de arte.

Sábado, Dezembro 13, 2008

Clair de Lune & Malinowski




Stephen Malinowski, através da música clássica de Debussy tocada em piano - Clair de Lune - criou uma dinâmica obra gráfico/sonora.
No decorrer desta suave melodia, é apresentado um gráfico de barras com as mais variadas cores. As cores funcionam como um código para as notas do piano. Cada cor que aparece, corresponde a uma nota do piano implicada na sonoridade. Ao longo da melodia, as notas vão-se repetindo e, por sua vez, sobrepondo-se. Toda esta dinâmica musical, transforma-se num extenso enredo, que ganha proporções diversas. Proporções tais, que correspondem a cada parte da música em si.


Malinowski é autor de outras obras semelhantes, entre as quais Nocturno do pianista polaco Chopin. Ambas as músicas trasmitem uma sensação de serenidade, assim como a de uma ambiente romântico.

Natureza diferencial da escrita

A escrita possui uma natureza diferencial na medida em que contém um conjunto de elementos fónicos que permitem gerar combinações múltiplas, que variam de língua para língua, que posteriormente geram palavras. Esta natureza diferencial evidencia-se no processo de distinção: a caligrafia. Estas caligrafias ganham sentido através das diferenças que existem entre elas: umas letras são mais redondas que outras, algumas mais bicudas ou maiores, entre outros.
Também a relação entre fonemas e grafemas não é de equivalência: os mesmos grafemas podem representar sons diferentes e os mesmos fonemas podem ser representados por grafemas diferentes. A língua baseia-se então numa estrutura limitada de sons e posteriormente numa reorganização de palavras. Essa reorganização não tem um valor intrínseco, é de razão histórica e convencional.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Strings

A poesia visual de Dan Waber introduz-nos uma discussão em argument. Não sabemos o que a motivou, nem a identidade dos personagens. Observamos apenas o desacordo (Yes/ No) através de um fio (string). Cada interlocutor "puxa" a corda para o seu lado, como no jogo de crianças ou como uma partida de ténis. Não sabemos quem tem razão e à primeira vista parece que são capazes de discutir eternamente.
Sucede-se argument2, no qual um inicialmente tímido Maybe (talvez) se vai sobrepondo aos argumentos de um e de outro, até possuir o protagonismo absoluto. O sim (yes) e o não (no) já não são produto do mesmo fio, mas independentes entre si. As ideias flutuam como se nenhum dos dois saiba já quem tem razão.
Quando os interlocutores começam a flirtar um com o outro, na sequência seguinte, supõe-se uma ligação amorosa entre os dois. Em flirt, um novo fio/ string reúne todas as opiniões: o sim, o não e o talvez, numa amálgama de pseudo-letras oscilantes. As opiniões anteriormente contraditórias fundem-se e transformam-se umas nas outras, como se nenhum pretendesse ter razão absoluta. Os amantes (?) cedem progressivamente um ao outro e negoceiam tréguas.
O flirt continua e é visível um yes esfuziante, que rodopia, parece saltar e correr de um lado para o outro do ecrã. Aparenta haver finalmente consenso e felicidade. A expressão seguinte (haha) confirma-o, através de um fio de risos. Haha surge de um dos lados para se desfazer e, de imediato, ser ampliado no lado oposto e assim progressivamente até atingir o clímax ao ocupar todo o fio. No fim, restam um aha e um heh simultâneos em diferentes partes do fio, mas mais próximos do que os haha iniciais. Parece ter havido uma celebração mais íntima, feitas as pazes...
you and me mostra um you (tu) que ocupa o centro do ecrã e que se movimenta lateralmente, enquanto um me (eu) orbita e saltita em seu redor. O "eu" devota a sua atenção e procura simultaneamente atraír o "tu". Este "tu" parece um pouco hesitante. Avança a passos pequenos como se estivesse a avaliar o piso por onde caminha. Apesar de terem resolvido os problemas iniciais, podem existir dúvidas e questões que ainda ficam por resolver e este "tu" está a ser extremamente cauteloso.
Mas arms revela que existe carinho entre os personagens desta poesia em fios. Num abraço simbolizado por "your arms" (os teus braços) e um círculo imperfeito, mas que pode funcionar como elo de ligação, os dois amantes unem-se.
O poema termina em poidog com a frase (formada por vários fios, palavra a palavra): "Words are like strings that I pull out of my mouth" (As palavras são como fios que puxo para fora da minha boca). As palavras provocam, mas as palavras curam. O seu sentido e função é múltiplo e a percepção de cada uma delas pode variar conforme o contexto e as experiências de quem as ouve. Assim se podem criar as discussões e assim se podem resolver as mesmas.
De um modo divertido e simples, este poema aborda a complexidade da linguagem e do sentido. A interpretação é vista como algo inerentemente associado a ambos os conceitos anteriores e indissociável dos mesmos. Assim, os pequenos episódios que compõem esta história surgem como exemplos do processo de comunicação e do estabelecimento de ligações afectivas entre seres humanos.

Uma narrativa em Azul

Em Twelve Blue, de Michael Joyce, estamos perante uma obra de literatura ergódica. A partir de uma estrutura semi-determinada pelas hiperligações disponíveis, o leitor escolhe o seu percurso de leitura. Cada capítulo (composto por algumas lexias) inclui um pequeno fragmento da narrativa. A premissa inicial é a de um conto em oito barras, as mesmas em que vamos clicando de modo a aceder ao fragmento narrativo seguinte.

Dentro do texto, o narrador desta história fala-nos de vários personagens cujas vidas se entrelaçam e que se influenciam mutuamente, numa narrativa de tom triste (blue, para utilizar a expressão de língua inglesa) mas que poderia ser real. Por vezes enquadra momentos que podem ser considerados reflexivos e uma ou outra imagem por entre os capítulos. No entanto, o que permanece gravado na memória é sempre o azul que emoldura fundo de página e que confere o tom à história.

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008

Ver música

Stephen Malinowski associou a melodia Clair de Lune, de Debussy, a uma representação gráfica das notas que a compõem. O resultado é uma excelente combinação de música e cor, em que, literalmente, "vemos" as notas e a sua execução. O código musical está, neste trabalho, representado pelas barras coloridas que mudam de cor quando está a ser tocada a nota respectiva. Estas barras lembram o pianista que está a interpretar a música, criando um efeito interessante. As próprias pausas foram levadas em contas por Malinowski, que fez algo similar com Nocturne de Chopin.

Esta obra demonstra como dois códigos diferentes, como a notação musical e a cor, podem ser traduzidos, sem que esse processo desvirtue a música ou a imagem. Stephen Malinowski prima pela criatividade e, sobretudo, pela harmonia nestes trabalhos, numa agradável homenagem à música clássica e a dois dos seus grandes vultos.

Strings, Dan Waber

Strings, de Dan Waber, é uma obra que, de certa forma, retrata os diferentes momentos pelos quais um casal passa durante a sua relação. Inicialmente deparamo-nos com um conjunto de opções intituladas “argument”, “argument2”, “flirt”, “flirt (cntd)”, “haha”, “youandme”, “arms” e “poidog”. Cada uma destas opções transporta o leitor para um momento diferente dessa mesma relação: na primeira, “argument”, estamos perante uma discussão em que nenhuma das partes cede, daí as palavras “yes” (sim) e “no” (não); num segundo momento, “argument2”, parece já haver algum entendimento na medida em que aparece um “maybe” (talvez); de seguida temos “flirt” em que existe uma certa confusão de ideias, pois “yes”, “maybe” e “no” fundem-se quase que numa palavra só; num quarto momento, “flirt (cntd)”, deparamo-nos com uma vitória do “yes”, o que evidencia que o casal se juntou de novo, reatou a sua relação; num quinto momento temos “haha” que representa a alegria em que o casal ficou após reatarem; de seguida temos “youandme” e “arms” que representa a união do casal, a comunhão perfeita que existe entre eles; para finalizar surge “poidog” em que a corda forma a frase words are like strings that pull out of my mouth, que sugere que tudo aquilo que dizemos está interligado com algo que já foi dito antes, talvez num outro contexto.
A partir desta análise podemos concluir que Strings, de Dan Waber é uma obra que faz uma reflexão sobre o processo de significação e a natureza da própria escrita, pois todas as palavras que a constituem provêm da mesma linha, da mesma corda, mas no entanto todas elas têm significados diferentes; corda, essa, que, no contexto da relação do casal, não se vê mas sente-se.

Strings - Dan Weber

Dan Weber, em strings, retrata, em primeiro plano, uma discussão, tendo um lado afirmativo (yes) e o negativo (no). A discussão passa-se numa linha contínua, visto que o debate é sobre o mesmo assunto.
Em segundo plano, surge, porém, o talvez (maybe), que torna o assunto em discussão mais leve, sem aquela tensão inicial, podendo agora chegarem a um consenso.
Em terceiro plano, vemos um “fraco” que o “no” agora tem com relação ao “yes”, ele agora parece estar sendo convencido pela opinião contrária e já pensa na possibilidade do talvez.
Em um outro plano, a opinião positiva vem agora como quem hipnotiza seu adversário, apontando questões que possam mudar a opinião deste. Parece que chegam a um senso comum e agora, o “vencedor”, “yes”, parece gozar de sua vitória com gargalhadas e mais gargalhadas (hahaha).
A obra continua com o surgimento de novas oposições, mas que agora vem com a intenção de um acordo maior; “youandme” aparecem entrelaçados como se tivessem, finalmente, chegado a um senso comum e terminado a discussão em paz, ou não, visto que “arms”chegou a aparecer nas mãos de ambos.

Hegirascope, um labirinto caleidoscópico

Ao iniciar Hegirascope, a cor viva do fundo da página é o primeiro elemento a sobressair. Enquadra palavras que aparentemente não têm qualquer nexo e que, antes que as consigamos ler completamente, desaparecem, dando lugar a um novo fragmento de cor e texto. A primeira impressão é confusão absoluta. Durante minutos sucedem-se as partes desta história da autoria de Stuart Moulthropp, moldando continuamente cores e palavras na retina. A obra avança ao seu próprio ritmo, lento ou rápido, mas sem parar. O leitor pode tentar travar o cronómetro invisível, recorrendo às hiperligações, que abrem novas páginas, ou então pode deixar o tempo seguir o seu curso e tentar ler o mais rapidamente possível.

A história começa e acaba, mas a narrativa é aparentemente desprovida de continuidade no espaço que ocupa o desenvolvimento. O leitor pode escolher o seu caminho através das hiperligações e, assim, como através de um rasto de migalhas ganhar consciência do espaço que percorreu para atingir a conclusão. A interpretação é individual, mas não é dependente do percurso de leitura. Cada um pode tentar atribuir alguma coerência às sequências de episódios aparentemente desconexos, mas vista a obra na sua globalidade não há qualquer alteração ao conteúdo. O sentido que se atribui a Hegirascope é ditado pelas experiências de vida do leitor e nada mais.

Em suma, esta criação literária em hipertexto permite-nos uma reflexão sobre o labirinto que percorremos para compreender o sentido das coisas. Podemos esperar passivamente até sermos guiados até à saída ou podemos encontrar o nosso próprio caminho. O que encontramos do outro lado é igual para todos, apenas visto e interpretado por olhos e experiências diferentes.

Clarice Lispector, Amor.

Na narrativa de Clarice Lispector prevalecia a existência de uma mulher comum de seu nome Ana ,que era casada, mãe de filhos. A sua vida era normal, "os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos."
A vida de Ana era rotineira e feliz em seu apartamento no nono andar, costurava para os meninos, recebia o seu marido de volta em casa todas as tardes e os movéis empoeirados todas as manhãs "como se voltassem arrependidos". Um dia, foi às compras e, depois, cansada, subiu no bonde para voltar à casa. Recostou-se no banco, procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Revê a sua vida: plácida, sem tempestades, tudo no lugar. Com o saco de tricô que ela mesma tecera ao colo, cheio de ovos frescos, Ana é apenas uma mulher que vai às compras. Mas vê, com o bonde parado, um cego que, indagando, no escuro de si mesmo, com as suas mãos estendidas para a frente, sorri.
Por fim, Ana tem como realização,a revelação da sua vida. Descontrolada emocionalmente, perde o ponto onde deveria descer. Desce no Jardim Botânico e lá permanece, com a alma em estado de sobrelevação, por toda a tarde, até que anoiteça e se veja sozinha. Grita para que abram o portão e arfante chega à casa, onde faz um jantar às pressas para a família. Durante o jantar, não presta atenção a nada, a vida está modificada, o homem mascando chiclete, a cegueira e a vida, a certeza de que a humanidade sofre. Aperta o filho a ponto de assustá-lo e, quando todos se vão, diante do espelho, ouve o fogão dar um estouro. Era um defeito do fogão, mas que a traz de volta para a vida quotidiana. Abraça o marido, diz que não quer que ele sofra (ela mesma estava sofrendo por ter descoberto o mundo). Ele ri,e ela, antes de dormir, sopra a flama do dia.

Michael Wesch,The Machine is Us/ing Us

Perante a visualização do vídeo “The machanine is us/ing Us”,Michael Wesche nos vai demonstrar o potencial do texto digital que liga especificamente hípertexto. Através de um movimento retórico que opera tanto visualmente e verbalmente: o ponteiro do rato para clicar na frase "here" e "here" e "here", que se deslocará para uma nova localidade do ecrã com cada clique, como faz com a palavra "anywhere". Claramente Wesch faz questão de sublinhar a dimensão espacial do hipertexto, a sua capacidade de transportar-nos para qualquer lugar.
Apesar de estarmos a presenciar esta evolução, a Web 2.0 pode ser entendida, acima de tudo, como um conceito. Numa perspectiva educativa, a dinâmica que está associada à web 2.0, permite uma interacção, uma construção do conhecimento baseada na partilha da informação. Aqui todos os participantes actuam e são autores neste processo. Vejamos o caso dos blogs (falo dos educativos), wiki's e foruns de discussão disponiveis em várias comunidades. Um outro aspecto que me parece bastante relevante e que trás algo de novo, é a preocupação com a acesibilidade. Estaremos a caminhar para uma cultura de inclusão?

Shelley Jackson, My Body

Perante a visualização hípertextual dos vários fragmentos do corpo de Shelley Jackson ,vemos em cada secção do seu corpo na sua maneira de mostrar o que ela gostou em sí própria.Embora em alguns pontos ela pense criticamente no que ela gosta mais,e no que está a fazer com o seu corpo,perante a leitura dos textos,eu não pensei por um momento que esta mulher fosse igual a muitas outras que se comparam como modelos,o que demonstra que existem diferenças.

Na secção sobre os seus braços,ela comenta como as outras mulheres queriam ser como ela e perguntam-lhe como ela conseguiu os seus braços sendo tão apertados e fortes, e estavam com ciúmes quando ela afirmou que isto é como ela é naturalmente.Acho que shalley Jackson foi capaz de ver as suas próprias falhas,defeitos que o público a olho nú vê que ela tem ,mas eu penso que ela foi capaz de encontrar uma maneira de aceitar todo seu corpo,porque ela gostou do que ela realmente é.

De uma certa forma ela estava a demonstrar na sua forma de arte,a outras mulheres que imperfeição é sinal de beleza,contrariando a tradicional concepção da beleza exterior na sua unicidade.

Chopin,Nocturne


Nocturne é uma obra sobre a representação da escrita.
É necessário algum esforço interpretativo para extrair informação desta obra. Um olhar crítico verá algo mais do que uma espécie de prisma a perseguir pontos, num fundo preto. Os pontos representam a posição das notas musicais. Por sua vez, o movimento das linhas representa a dinâmica do tempo. Subjacente a esta obra, está uma das particularidades da escrita digital- a possibilidade de representar do tempo. Ao ler um livro, o tempo , em si mesmo, está na própria leitura. No mundo digital- a animação é uma forma de representar o tempo na escrita. A escrita pode ser representada de várias formas, esta é uma delas.

Terça-feira, Dezembro 09, 2008

Strings, Dan Waber

Strings é uma obra hipermédia,desenvolvida por Dan Waber. O seu conteúdo, à partida desconexo, torna-se bastante apelativo.
Ao longo da obra, as palavras vão sendo formadas através de uma espécie de "bailado". São vários os movimentos que as letras efectuam,logo a maneira como as sílabas deambulam pelo espaço também é importante.
As várias opções disponíveis("argument","argument2","flirt", "flirtcndt","haha","youandme","arms","poidog"), retratam uma realidade comum a vários casais: desentendimentos.
O casal não consegue entrar em concordância, daí as palavras:"yes" e "no". Gera-se uma discussão, que é rapidamente ultrapassada. O desacordo é superado e os dois entram num estado de enamoramento. "Youandme" expressa o sentimento de união, comum a ambos. "Arms" corrobora a ideia de comunhão total,sendo que, os dois terminam juntos, como sempre deveriam ter estado.

Clair de Lune (Debussy)

Nesta obra, Stephen Malinowski tentou traduzir as propriedades do signo sonoro em representações gráficas. Clair de Lune, de Claude Debussy, foi a música escolhida por Malinowski para demonstrar que a notação musical se pode representar por uma notação gráfica. Para tal utilizou um código de cores que representa o âmbito, as escalas da composição e as diversas tonalidades do som.
Analisando a representação gráfica criada por Malinowsky estamos perante um conjunto limitado de elementos em que a combinação dos sinais permite escrever as palavras. Também a notação passa pela utilização de pontos e o movimento de animação representa a passagem dos dedos pelo piano. Deste modo a notação musical é transcrita para outro código que se aproxima da escrita alfabética, uma vez que possui sistemas abstractos e arbitrários; escrita alfabética, essa, que isola na língua os sons significativos, cria um carácter para esses sons e que permite a representação da língua através da combinação de caracteres.

Domingo, Dezembro 07, 2008

Strings - Dan Waber

Dan Waber nesta sua obra, dá-nos a conhecer uma discussão amorosa entre um casal.
Discussão esta, relatada com o recurso a uma simples e banal linha, que se vai metamorfoseando nas fases mais variadas.

Numa 1ª fase desta discussão, há uma oposição de ideias que surgem com vários "Sim" e "Não" (argument). De seguida, mais pacificamente vão surgindo os "Talvez" (argument2), que adivinham uma possível reconciliação.

Já em (Flirt), os "Talvez" ganham cada vez mais enfâse. E, por conseguinte, em (Flirt(cntd)) um nervoso "Sim" faz-se aparecer, onde deixa uma marca de afecto.

Surgem, então, as gargalhadas de cumplicidade (haha). Estas, vão ficando cada vez mais energéticas; a necessidade afectiva/emocional surge no casal em (youandme), em que os dois acabam nos braços de um e de outro (arms).

Com "Words Are Like Strings That Pull Out Of My Mouth", Dan Waber termina com uma frase que é a essência de toda a sua obra, e uma ideia que pretende transmitir ao leitor. Ou seja, as palavras são como uma cadeia que estão interligadas, e só assim são compreensíveis.

Hegirascope

Hegirascope de Stuart Moulthrop levanta o problema do ritmo de leitura uma vez que o leitor se depara com um conjunto de textos que têm uma sequência temporal. Assim que se inicia a leitura do poema, além do texto principal, o leitor encontra quatro lexias que o transportam para outros momentos da narrativa. A temporização, em alguns casos muito “acelerada”, a que o texto está sujeito cria algumas dificuldades ao leitor para este ler e interpretar a obra, pois na maior parte das vezes não tem tempo para cpatar a mensagem. Deste modo cria-se uma relação entre o ritmo do texto e o ritmo de leitura. O texto adquire então uma dupla dimensão, autor e leitor: ao leitor é-lhe permitido interferir na obra e gerar as suas próprias sequências.
Hegirascope é então uma obra semi-determinada na medida em que existe um conjunto de possibilidades predefinidas, mas apenas algumas se realizam, dependendo da escolha feita pelo leitor na sua intervenção. Assim a estrutura dos ficheiros permite que o leitor entenda a obra de diferentes maneiras.

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

A revelação do corpo

Shelley Jackson apresenta-nos o seu corpo e as memórias e sensações associadas a cada uma das partes que o constituem na obra “My Body”. A imagem do corpo, dividido nos seus fragmentos distintos, é o índice da obra, mas cada um é livre de escolher o pecurso que segue para o conhecer. Podemos começar por uma perna, pelo cérebro, pelas tatuagens ou por qualquer outra parte e seguir em frente ou, algumas vezes, voltar atrás. O caminho para a descoberta do corpo é realizado, maioritariamente, através de experiências sensoriais (frequentemente dolorosas) associadas a memórias (muitas delas ligadas à infância) da autora. Mas o leitor não ganha apenas consciência das partes do corpo de Shelley Jackson. Apercebe-se também da existência do seu próprio corpo como colecção de diversos fragmentos e, simultaneamente, como uno. Independentemente do início e fim que escolhemos para a obra, somos inevitavelmente confrontados com a revelação de algo que sempre esteve presente mas de que nem sempre nos demos conta: o corpo.

A escrita sobreposta de Bartolomé Ferrando

La voz tiempla en el vacío tiempo hecho astillas desierto de palabras. É esta a mensagem que consigo descortinar no postal que tenho à minha frente. Estas palavras, escritas em acrílico sobre papel, estão sobrepostas parcialmente, sendo este o estilo de Bartolomé Ferrando. Este artista produziu um conjunto considerável de obras similares, utilizando sempre a mesma técnica.

Há uma intenção nítida de confundir e fazer reflectir na obra de Ferrando. Em primeiro lugar, a própria sobreposição contribui para a não compreensão imediata da mensagem, ou então, para interpretações diversas, basta trocar a ordem das palavras. Por outro lado, temos a mensagem literal, propriamente dita, isto é, o significado das palavras, que nem sempre é inequívoco. Voz, código, linguagem, palavras são conceitos sempre presentes nas várias obras desta colecção. Pode-se antever uma reflexão profunda do autor acerca do significado das palavras e no sentido que elas têm quando estão juntas, ou, como gosta Bartolomé Ferrando, sobrepostas.

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

O Universo de Ana Maria Uribe

Sereias, centauros, primavera, inverno, escadas e mais escadas. Tudo isto e muito mais é o que podemos encontrar na vasta colectânea de Anipoemas de Ana Maria Uribe. Baseada no grafismo das letras do alfabeto, esta autora constrói tudo e mais alguma coisa através de animações.

Temos os F's a fazerem de escadas, os t's a representarem sereias, os P's a transformarem-se em R's durante uma ida ao ginásio, os h's lembrando centauros. É um autêntico universo criado por Ana Maria, dando vida e movimento às letras, sempre acompanhadas de uma banda sonora condizente.

Nestes anipoemas o leitor torna-se íntimo das letras, acompanhando-as durante a primavera e o inverno, viajando de comboio com elas ou dançando um pas de deux. Ana Maria Uribe lembra-nos que as letras não são só instrumentos de escrita, mas também podem ter dinamismo e, como se vê, uma vida própria, basta haver criatividade...

Domingo, Novembro 30, 2008

A corda (string) da linguagem

Em Strings deparamos com uma discussão entre um casal, algo de bastante prosaico. Há a primeira troca de ideias, por vezes bastante violenta e extremada, em que se digladiam pontos de vista diferentes (argument). Segue-se uma fase menos conflituosa (argument2), em que se põe em cima da mesa um possível ponto de acordo, contudo nenhuma das partes quer ceder. É cedo para isso, mas a presença de um maybe deixa em aberto uma reconciliação...

As lexias seguintes [flirt e flirt (cntd)] representam isso mesmo. Os argumentos que a princípio se contrariavam e entravam em colisão, depressa se fundem numa mesma razão, o amor. O par parece que se esquece dos motivos que conduziram à discussão e entra no campo da brincadeira e do companheirismo (haha). É nesta fase que se fazem as juras de amor e se apela à união do casal, como forma de combater as divergências próprias de uma vida a dois (youandme).

Your arms (around) me, é a frase que marca a lexia seguinte desta obra hipermédia. É fácil visualizar o casal, após a discussão e a reconciliação, abraçado, sem pensar em mais nada e contente por ter ultrapassado a crise. Dan Waber conclui a sua obra com o seguinte epíteto: words are like strings that pull out of my mouth. Pretende-se mostrar como tudo aquilo que dizemos está interligado com o que acabámos de dizer, isto é, há como que uma corda invisível que liga todas as nossas palavras e frases. Aliás, essa ideia está presente em Strings na forma como as palavras aparecem escritas com a mesma linha, ou corda. A linguagem funciona como um todo, unido e racional, e esta sua continuidade é essencial para a sua compreensão.

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Rui Torres,Amor de Clarice...(aulas anteriores)

Rui Torres tentou reconstruir o poema de Clarice inspector como um conto contínuo verbal,numa tentativa de interpreta-lo e reescreve-lo através de expressões retiradas do texto que se sucedeu utilizando meios em é combinado o hipertexto,a voz a música e o vídeo.
Rui segmentou o texto e fraqmentou todas as frases e expressões de palavras que ocorreu no conto que foram retirados do contexto original,recombinando por fim todos estes fragmentos.Este processo de leitura no modo digital trabalha essencialmente com a aletoriedade destes fragmentos que estão encadeados numa ordem pré defenida,prefilando uma espécie de índice introdutório deste conto ao qual,o leitor pode clicar e arrastar as palavras para ouvir o texto.Nesta sequencia, a frase que se ouve,é aquela em que posso defenir das palavras de uma forma descontínua,contrariando a forma linear do texto numa liberdade de escolha.
A passagem do início para o fim deste poema hipertextual é acompanhado também pela sequência temporal da narrativa original em que temos o início formado pelas "compras",depois a referência a apresentação das personagens nas primeiras linhas, e depois há "uma perigosa hora da tarde"a partir dalí , há outro grande momento que está la fora que é desencadeada pelo resto da história deste conto.
Encontramos de facto no próprio texto uma leitura da interpretação de centro através destes momentos, a que desapareceram muitas ligações de onde as frases foram transformadas em pedaços de frases,onde elas não deixam de ter uma certa repetição sonora desta narrativa transformada neste fantástico poema.

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

A ligação como essência da narrativa...

Hegiroscope é um poema hipermédia, em que cada lexia está temporizada. O poema abarca uma infinidade de lexias, sendo que, cada uma delas contém quatro hiperligações. Todas as narrativas hipermédia problematizam o fenómeno da ligação, uma vez que, as ligações são o garante da percepção do sentido. A ligação é a essência da narrativa, logo a possibilidade de produzir sentido depende das hiperligações.O poema Hegirascope, sem as respectivas hiperligações seria imperceptível para o leitor.
A experiência do sentido é como que a criação de um puzzle: para conseguirmos criar algo com sentido, é necessário juntar os vários fragmentos. Uma vez que, o nosso modo de produzir sentido não é fragmentário, torna- se mais complicado entender a poesia hipermédia.

Enigma N - Jim Andrews

“Do Latim; Signficatu. Palavra ou frase equivalente em outra forma de linguagem.”
Jim Andrews, em seu poema, Enigma N, propõe nos diferentes formas de linguagem para desmistificar a palavra MEANING (significado) que está exposta como a questão do problema. Interagindo na obra, o leitor tem total poder de movimentar as letras da tal palavra através de variados movimentos, podendo pará-las a hora em que bem entender. Dessa forma, o leitor consegue criar o seu significado através do significado; pois tal palavra não é sólida, não está somente definida para definir, é muito mais ampla e consiste uma dimensão.
O significado vai além de sua tradução. Ele que está presente em tudo aquilo que nos rodeia; o sentido existe no sistema; na leitura, nas imagens, nos sons, nas cores, enfim, tudo é o sentido. Ele movimenta, modifica, renova nossa linguagem, nossas codificações, ele é aquilo que cada um quer que seja. Com esse “jogo de letras” com a palavra “meaning”, Jim Andrews tenta nos mostrar que cada qual é capaz de criar o seu sentido, pois este não é sólido, estável, é maleável. Ou seja, através de seu poema, o autor nos permite “N” possibilidades para a construção do nosso sentido, “N” este que nada mais é do que infinito.

A vida como um labirinto...

Luís Borges, autor do Jardim dos caminhos que se bifurcam, construiu uma trama que tem tanto de magnifico como de complicado. Não é fácil decifrar a mensagem por detrás das suas palavras. O conto começa com o relato da perseguição a Yu Tsun- encetada por Richard Madden. Em toda a obra está presente a noção de labirinto, no tempo e no espaço. " Ninguém pensou que livro e labirinto eram um único objecto". A ideia da semelhança estrutural entre um livro e um labirinto é expressa no conto. Há uma bifurcação dos desenlaces possíveis. "(...) sempre que um um homem se defronta com diversas alternativas,opta por uma e elimina as outras(...)". A noção de tempo, sendo assim, é algo infinito; é como se todos nós já tivessemos sido outras pessoas no passado. As nossas escolhas não são fixas,nem imutáveis. O que somos hoje, podemos não o ser num futuro próximo.

O Edifício de Melo e Castro (PO.EX)

Edifício é um anipoema interessante criado por Melo e Castro e digitalizado por Rui Torres. O autor assume que o edifício é a união entre o cimento e o ferro.
No decorrer do anipoema o cimento e o ferro parecem fundir-se, enquanto saboreiam uma cúmplice dança. Essa dança é a fusão dos dois, o seu "casamento". Podem ser movidos para os lados, arrastados para a frente ou para trás, contudo continuam unidos pelo voto que fizeram, como se fosse impossível separar os dois daquela dança. Essa dança que Melo e Castro constrói é o Edifício, que surge da união do cimento e do ferro, é esse o fruto da sua relação dançante, um edifício, em que a compleição e união entre o cimento e o ferro é perfeita, impossível de se desintegrar.
É a visão de poeta (única, mágica), que transforma a ligação tão especial, tão avassaladora que nos passa ao lado. Mostra que nem tudo o que é óbvio não possa ter a sua magia, a sua beleza... Este casamento entre o cimento e o ferro, a sua forte ligação, é o eixo do edifício, a sua força. Um edifício não é só cimento ou ferro, é a simbólica e bela união entre os dois... Uma ligação tão forte, tão coesa, tão eterna...

Sábado, Novembro 22, 2008

Shelley Jackson - Marcas do Corpo, Marcas da Vida...


Shelley Jackson em "My Body - a wunderkammer" mostra toda a beleza da hipertextualidade e as possibilidades que ela nos dá.
Um corpo de mulher é estampado no meio do nosso ecrã, encontra-se "dissecado". Shelley Jackson mostra-o aos leitores como um índice, em que as mãos, os joelhos ou a pele são apenas páginas de um corpo transformado em livro.
Com esse livro, Shelley tenta chegar ao leitor, contar-lhe a história de cada parte do seu corpo, explicar o porquê de cada marca, o porquê de cada parte ser-lhe tão especial, tão merecedora de uma história.
Contudo, a meu ver, o grande objectivo de Shelley Jackson com a criação de "My Body - a wunderkammer" é mostrar que a história do seu corpo é a história da sua vida, a construção do seu corpo é a construção do seu ser... Ao lermos cada história do seu corpo, vamos conhecendo Shelley Jackson, vamo-la descobrindo.
O que marca o corpo de Shelley não são preferencialmente sensações agradáveis, mas marcas de sofrimento, de agonia. As dores de cabeça, as cicatrizes, o sangue, as feridas. São tudo amostras de dor. Porquê? Porque é que Shelley Jackson conta a história do seu corpo baseada em sensações agonizadas?
A vida é um misto de boas e más sensações, mas quais são aquelas que nos constroem? Quais são aquelas que nos marcam e nos ajudam a formarmo-nos enquanto pessoas? É com essa visão que Shelley Jackson nos deixa. As marcas do nosso corpo, aquelas que nos fazem crescer, são assentes na dor. As marcas que não nos abandonam são aquelas que "sangraram", são marcas do nosso corpo, são marcas da nossa vida...

O Labirinto de Jorge Luís Borges


O conto "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam" é um autêntico labirinto, onde o espaço e o tempo fazem de sebes altas, contornando os caminhos desse jardim, alimentando o trama que se vai desenvolvendo ao longo do conto.
A história desenvolve-se durante uma guerra, onde o clima de grande instabilidade e insegurança revela que esta pode terminar a qualquer momento. Uma informação importante pode ser revelada, delineando o desfecho da guerra e o fracasso de uma das partes. É nesse momento que Jorge Luís Borges dá o poder às personagens de desenvolverem inúmeras possibilidades que o destino da informação pode tomar. Essas possibilidades transformam-se nas sebes do labirinto criado, dando cada uma, um desfecho totalmente diferente.
Jorge Luís Borges acaba por demonstrar que um simples e pequeno gesto, pode determinar o destino de algo de maior importância. São os pequenos detalhes que elaboram a História, podendo determinar o fim ou início, a verdade ou a mentira, a vida ou a morte. Jorge Luís Borges eleva esses pequenos detalhes e transforma-os em passos decisivos para o final de uma história, para o final de uma guerra. São esses detalhes que pautam o nosso presente, mostrando-nos o caminho a seguir, eliminando caminhos desse labirinto que é a vida. São esses detalhes que desenham a nossa vida, a vida do Homem.

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam…

Este conto, da autoria de Jorge Luís Borges, alerta o leitor para a multiplicidade do sentido, isto é para as inúmeras bifurcações que este pode ter. É também um conto labiríntico uma vez que existe um grande número de bifurcações entre tempo e espaço. A trama em si desenvolve-se num clima de grande instabilidade; estamos no meio de uma guerra em que há alguém que possui uma informação bastante importante, que condicionará o desfecho desta guerra, e que foge de Richard Madden, o capitão. Com toda esta agitação as personagens começam a pensar em várias possibilidades que o seu destino pode tomar. Estas possibilidades não são mais que o resultado da escolha de determinadas bifurcações do “labirinto” e condicionam todo o desfecho, pois uma escolha pode revelar-se crucial e criar assim vários desfechos.
Assim, podemos concluir que as selecções de caminhos que vamos fazendo ao longo da nossa vida têm implicância no nosso futuro, se é que ele existe. Este labirinto, que é a vida, é o resultado de todas as opções que vamos tomando, dos caminhos que seguimos, e quando esta vida termina a única lembrança, o único rasto dela é deixado pra os nossos descendentes, ou para alguns deles e “não a todos”, tal como o disse Ts’ui Pen.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

Um espelho de si mesma

A obra digital Mybody: a wunderkammer, é um retrato físico e psicológico da própria autora, Shelley Jackson. Ela utiliza a imagem do seu corpo como meio de dar a conhecer ao leitor um pouco de si própria. Essa mesma imagem funciona como um espelho da sua alma pois, ao visitarmos as diferentes partes do seu corpo, temos a possibilidade de descobrir um pouco mais da sua vida, como aquilo que a faz chorar, sorrir...
A forma como Shelley Jackson construiu esta narrativa, ou seja, a forma como conta a sua vida repartindo as fases pelas diferentes zonas do corpo, permite ao leitor escolher por onde quer começar e onde quer acabar. Deste modo, cabe-lhe deambular pelas partes mais interessantes da fisionomia da autora, traçando o seu próprio percurso.
Sendo o texto semi determinado, a materialidade textual varia de leitor para leitor, dependendo da relação que cada um estabelece com o próprio texto. Assim sendo, Mybody: wunderkammer é uma obra ergódica.

O Jogo do Sentido

O poema de Jim Andrews resume-se essencialmente à explicação do que é o sentido. O sentido não é algo concreto e intocável, mas sim algo que está sempre em transformação, uma vez que cabe a cada um de nós a tarefa de atribuir sentido às coisas.

Neste poema, o leitor tem a possibilidade de escolher a forma como o quer ler ou interpretar, pois o autor disponibiliza-lhe um vasto leque de opções que lhe permitem colocar o poema em movimento, com maior ou menor velocidade, entre outras.

A crença do autor de que o sentido é um enigma é expressa pelo mesmo, tanto no título do poema – Enigma N-, como no jogo que faz com a palavra meaning. Assim, cada um dos leitores vai interpretar o poema de forma diferente, construindo o seu próprio sentido com a ajuda da palavra meaning.

O sentido é uma pintura abstracta, na medida em que depende de nós próprios a sua descodificação.

Domingo, Novembro 16, 2008

My Body, Shelley jackson

My body é uma história sobre o corpo humano.
A autora contrói uma narrativa, tendo como referência os acontecimentos relacionados com cada parte do seu corpo. O auto-retrato da narradora é dado através da segmentação de diferentes partes do corpo. Temos a possibilidade de explorar o seu íntimo, uma vez que, associada a cada parte do seu corpo, existe uma ligação a uma memória. Cada lexia tem pelo menos uma ligação, logo, o leitor é livre de navegar entre os diversos relatos.
Geralmente, pensamos o corpo como um todo, a consciência das suas partes, acontece quando o corpo é marcado por alguma experiência de dor e\ou prazer. No nosso corpo estão "escritos" alguns dos acontecimentos que marcaram a nossa experiência pessoal, tais como: uma cicatriz de uma operação, as marcas de uma gravidez, a amputação de um membro, entre outros.
Este é um poema sobre a interpretação que cada um faz do seu corpo,bem como o sentimento que cada parte provoca no seu íntimo.

"My Body - A Wunderkammer"

"My Body - A Wunderkammer" define-se como uma caracterização corporal, bastante permonorizada, da autora.
Acedendo a este poema, o leitor tem a oportunidade de encontrar as várias partes do corpo de Shelley Jackson acompanhadas com uma caracterização permonorizada acerca dessas mesmas partes.
A autora relaciona as suas partes do corpo com determinados momentos da sua vida, nomeadamente, a sua infância e o momento em que realmente conheceu o seu corpo.
A existência deste paralelismo entre o corpo da autora e a sua própria vida, permite ao leitor um conhecimento mais profundo de Shelley Jackson e atribuiu ao poema um carácter autobiográfico. A forma como o poema nos surge permite, também, ao leitor, uma liberdade de leitura e interpretação acerca da obra.

"Enigma n" de Jim Andrews

"Enigma n" de Jim Andrews revela-se como um excelente retrato quando nos referimos à tranformação literária em consequência da evolução tecnológica.
Ao analisarmos esta obra deparamo-nos com um conjunto de sete letras que, possivelmente ordenadas, constituirão uma palavra, um significado. E é precisamente neste momento que se inicia a acção do leitor enquanto interveniente e participante desta obra.
Ordenando estas sete letras formamos, entao a palavra meaning - significado em português.
Penso que não existe melhor palavra para podermos inserir neste poema de Jim Andrews já que, não só nesta obra como em tudo aquilo que nos rodeia, está patente a ideia de que o Mundo é resultante das interpretações que cada individuo faz e está dependente da representação individual acerca desse mesmo Mundo.

" O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam"

A forma como toda esta obra literária é estrturada sugere, ao leitor, uma ideia de labirinto, onde se verifica a existência de tempos paralelos, pelo simples facto de o individuo não ter a capacidade e possibilidade de se encontrar em vários espaços ao mesmo tempo - a bifurcação.
O facto de existir uma fonteira entre o tempo e espaço leva o ser humano à construção da sua própria realidade, formando-se vários conceitos acerca do mesmo Mundo.
Na minha opinião, o principal objectivo desta obra, que se insere nas narrativas combinatórias, é dar a possibilidade ao leitor de elaborar a sua própria interpretação perante aquilo que observa, tendo como base o seu "Mundo", e dar-lhe a possibilidade de intervir, activamente, na obra.

"My Body - a wunderkammer"

"My Body - a wunderkammer" de Shelley Jackson revela como a autora foi ficando consciente das diferentes zonas do seu corpo. Inicialmente, o leitor depara-se com uma ilustração de um corpo feminino, representando a narradora. Tratando-se de um hipertexto, a ilustração encontra-se repleta de destaques às diferentes partes do corpo que dão acesso às respectivas narrativas. É aqui que o leitor fica a conhecer como a autora ficou consciente de cada zona do seu corpo. Para tal, a narradora recorre a descrições, comparações e recordações do seu passado, onde a dor, o prazer e todo o tipo de sentimentos são a causa para esta consciencialização.

Relativamente à forma da obra, podemos considerá-la labiríntica, na medida em que permite realizar movimentos recursivos e progressivos. Na imagem inicial do corpo feminino, que podemos comparar a um mapa, o leitor vê-se livre para escolher a parte do corpo que deseja desvendar, sem qualquer ordem ou sequência obrigatória. Após essa escolha, o leitor continua a ter à sua disposição diferentes caminhos: tanto pode voltar à imagem inicial, como pode optar pelas hiperligações a outras partes do corpo relacionadas.

A obra encontra-se semi-determinada, a autora disponibiliza uma multiplicidade de percursos, mas cabe ao leitor a escolha do caminho, provocando deste modo mudanças no texto.

Sábado, Novembro 15, 2008

Shelley Jackson: “My Body - A WunderKammer”

“My Body – A WunderKammer”. É exactamente sobre o corpo da autora que nos fala este poema. Construído tendo por base o hipertexto, neste poema Shelley Jackson apresenta o seu corpo ao leitor como um todo e repartido pelos diferentes membros. No entanto ela vai mais longe ainda e dá a conhecer ao leitor pequenas histórias relacionadas com cada membro do seu corpo, isto é, pequenos acontecimentos, maioritariamente da sua infância, a partir dos quais tomou consciência das diferentes partes do corpo. Estas pequenas narrativas são como que uma biografia da autora uma vez que o seu conteúdo diz respeito a algumas vivências da sua infância. No entanto para aceder a elas o leitor necessita intervir na obra, como é típico em obras de ficção ergótica, como é o caso
Todo o poema consiste num elevado número de hiperligações que transportam o leitor de uma parte do corpo para outra, seguindo uma sequência à sua escolha. Essas hiperligações tanto podem estar sobre os diferentes membros do corpo como no pequeno texto que, de certa forma, caracteriza cada membro; a sequência de leitura, apesar de escolhida pelo leitor, é limitada, uma vez que este está condicionado pelas opções de leitura fornecidas pela autora, ou seja, pelas hiperligações por ela criadas. Sendo assim existem várias sequências de leitura mas nem todas são exploradas.
Com este tipo de poema, a autora, além de dar a conhecer ao leitor alguns dos seus dados biográficos, faz com que este se reveja em alguns aspectos e desenvolva um processo de “auto-conhecimento” das partes do seu corpo.

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

O labirinto corporal de Shelley Jackson

Na obra " My Body: a Wunderkammer", Shelley Jackson faz uso do hipertexto para dar a conhecer as mais variadas histórias que fazem parte do seu corpo.

A imagem feminina desnudada, com a legendagem das mais variadas partes do corpo humano, num formato a preto e branco, desde a cabeça até ás unhas dos pés, é apresentada ao clicar na imagem de fundo que inicia o site.

Através de hiperligações, que se encontram pelo corpo inteiro, o leitor pode deambular por um auntêntico "Labirinto Corporal". Pois, este formato hipertextual possibilita a quem nele divaga, a descoberta de memórias que a sua autora confere ao corpo.

A partir daí, o leitor pode navegar por um mundo de memórias e recordações, que o possibilita de conhecer um pouco mais acerca da sua autora.

Viagem pelo corpo de Shelley Jackson

Um corpo, muitas estórias. Poderia resumir-se desta forma a obra de Shelley Jackson "My Body - a Wunderkammer". Com a sua própria anatomia como ponto de partida, a autora relata episódios da sua vida ao mesmo tempo que partilha sensações e emoções. É possível criar uma empatia através das histórias contadas por Shelley, pois há um imediato reconhecimento de nós próprios nelas. Quem nunca esfolou os joelhos e brincou com as feridas?

Navegando pelas várias lexias o leitor fica a conhecer um pouco mais de Shelley Jackson. Desde a cabeça até às unhas dos pés, o diagrama do seu corpo está preenchido com hiperligações que conduzem a descrições que derivam invariavelmente para histórias simples, quase infantis. "My Body" é um hipertexto profícuo em imagens. Não só em imagens gráficas que representam as várias partes do corpo humano, mas também em imagens literais. Os textos de Jackson estão recheados de belas metáforas e comparações, permitindo ao leitor atingir aquilo que a autora pretende.

Em cada texto, associado a cada uma das partes do corpo, há várias hiperligações que transportam o leitor para outras partes, sendo bastante perceptível a estrutura labiríntica desta obra. Desta forma, Shelley Jackson dota o seu corpo de uma unidade que, de outra forma, não seria possível. Das axilas podemos navegar directamente para as pernas de Shelley Jackson; com apenas um clique ficamos de imediato a saber as histórias que rodeiam as suas pernas. Em que outro corpo poderia isto acontecer?

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

“My Body - A WunderKammer” de Shelley Jackson

Ao contrário do que se passa com os livros, que apresentam uma sequência narrativa lógica e ordenada, a hiperficção assenta na estrutura labiríntica, dando assim ao leitor a possibilidade de criar o seu próprio percurso de leitura.
“My Body – A WunderKammer” assenta então nessa estrutura labiríntica. O leitor é confrontado com o desenho de um corpo feminino e, a partir daí, pode aceder a um conjunto de textos que estão ligados a cada parte do corpo. No entanto, ainda dentro desses textos, o leitor encontra hiperligações que o podem levar para outras partes do corpo, ou seja, para outras narrativas.
Podemos encarar esta obra como autobiográfica, pois a autora associa cada parte do seu corpo a um episódio da sua infância; cada parte representa para ela uma sensação, e é essa sensação que está associada à sua vida. Pois foi com as diferentes sensações que cada parte do corpo lhe proporcionou, que ela tomou consciência do seu corpo, não só como um todo, mas também cada parte por si só; pois cada parte significa uma sensação diferente, que resulta aqui como uma recordação. Há então a descrição de uma parte do corpo associada a uma sensação, que ela remete para lembranças.
O corpo surge-nos fragmentado, dividido, e á medida que o leitor vai clicando nas suas diferentes partes, é como se acedesse a diferentes episódios da vida da autora. No entanto não podemos definir um espaço temporal, pois não sabemos exactamente que momentos da sua infância ela dá a conhecer, toda a obra se pode resumir a um único dia, a um mês, ou até a um ano.
Penso que a obra não está assim representada por mero acaso, com esta estrutura a autora mostra-nos que o próprio corpo pode funcionar como um livro, onde o leitor pode escolher a parte que quer desvendar primeiro, é ele que traça o rumo da narrativa. Esta forma de narrativa permite ainda intensificar o conceito de fragmentação que está subjacente a toda a obra, pois cada parte existe em separado. Apesar de todas as partes poderem estar interligadas, nomeadamente através das hiperligações, podem também existir separadamente, o leitor tanto pode optar por ler todas as narrativas, como pode ler apenas algumas.

"O jardim dos caminhos que se bifurcam"

“Deixo aos meus porvires (não a todos) o meu jardim dos caminhos que se bifurcam.”
O labirinto de Ts’ui Pen surge nesta trama de espiões como alegoria à divisão do espaço e do tempo em múltiplas realidades. O que é possível numa realidade não o será noutra, porque as circunstâncias dos acontecimentos variam de universo para universo. O próprio Stephen Albert, personagem que descobriu o segredo da obra de Ts’ui Pen, refere-se a diferentes possibilidades de desenlace do mesmo evento em tempos paralelos: “Neste [tempo], que um favorável acaso me proporciona, você chegou a minha casa; noutro, você, ao atravessar o jardim, deu comigo morto; e noutro, eu digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma.” (…) “Num deles sou seu inimigo.”
Tal como Ts’ui Pen, ao referir que não deixa (ou não pode deixar) o seu legado a todos os futuros, Stephen Albert afirma que um indivíduo pode não existir em todas as realidades. O tempo bifurca-se a partir das escolhas de cada indivíduo, dando origem exponencial a outros tempos, num continuum infinito.
Mesmo antes de ser confrontado com a obra do seu antepassado, Yu Tsun, personagem principal, caminha pelo seu próprio labirinto espaço – temporal. Ao dirigir-se para a casa de Stephen Albert, o espião depara-se com as sucessivas bifurcações ao longo do percurso. Poderia escolher qualquer outro curso para a sua história, mas opta por completar a sua missão final para os alemães, no ano de 1916.
O conto de Jorge Luís Borges permite-nos, portanto, reflectir acerca da importância da escolha no desenho da vida e do labirinto invisível que se tece a cada passo que se dá. A obra acaba por ser uma metáfora para ela própria, ao suscitar no leitor a reflexão sobre os vários tempos possíveis e é também um óculo que nos permite contemplar um labirinto dentro de outro labirinto.

Terça-feira, Novembro 11, 2008

“Enigma N” – Jim Andrews

“Enigma N”, de Jim Andrews, é um poema concreto que chama a atenção do leitor para a instabilidade e multiplicidade do sentido. É um poema que tenta responder à questão “O que é o sentido?” e que consiste no movimento e interacção das letras da palavra “MEANING”, através da intervenção do leitor. Assim o enigma do texto é o sentido, a possibilidade de gerar sentido.
O poema inicia-se mesmo com essa palavra, “MEANING” - anagrama do título do poema, “Enigma N “, sobreposto, ao centro, num fundo de cor preta. Para que o leitor compreenda o poema, o autor deu-lhe uma sequência de leitura através de três opções. Com a exploração do texto vão aparecendo novas opções que operam novas alterações no poema, alterando assim o movimento e o aspecto deste: a intensidade e a trajectória dos movimentos das letras modificam-se bem como as cores destas. Uma das opções (0/1) pára todos os movimentos das letras formando mais do que um padrão. Esses padrões não estão predefinidos, dependem do momento em que o autor clica com o cursor sobre o poema, permitindo que o leitor veja a consequência da sua intervenção; estes padrões são em número infinito, tal como o sentido é mutável.
Neste poema apesar de ser o leitor a dar o sentido ao texto este está condicionado àquilo que já está instituído pelo autor (conteúdo do poema). Deste modo o sentido está no acto de parar o movimento e criar um padrão e no próprio movimento da palavra/das letras.

Enigma n de Jim Andrews

O poema de Jim Andrews joga com o sentido das palavras e exemplifica o processo de construção de significados.
Partindo da palavra "meaning" (significado) e através de uma desordem, voluntariamente infligida pelo "leitor" da obra digital, as letras que constituem a palavra inicial são misturadas. Em movimentos circulares orientados para a esquerda ou para a direita e de modo mais lento ou mais rápido, consoante a vontade do utilizador, forma-se o caos.
Sobressai o enigma n, ressignificação de meaning, que para o olho desejoso de atribuir sentido ao que vê, parece a solução mais lógica. No entanto, as letras perpetuam o seu movimento e, apesar da sensação de familiaridade, o que vemos já não é o que víamos.
Tal como no poema, o sentido das palavras é mutável, dependente da vontade dos indivíduos, contínuo e permanente. Esta analogia com a realidade é precisamente o que torna o (aparentemente simples) poema tão brilhante e é também o que nos faz olhar para esta obra de Jim Andrews e ver para além do tal enigma...

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

“Tudo está dito” – Augusto de Campos

“Tudo está dito”, de Augusto de Campos, é um poema concreto que joga com a percepção humana da forma uma vez desconstrói o processo de funcionamento da língua.
Esta desconstrução deve-se em parte ao aspecto e construção do poema: este baseia-se numa sobreposição de duas cores, o preto e o branco, que assumem diferentes formas, consoante a cor a que o leitor dá relevo durante a sua leitura, em duas colunas, e a junção das letras. Toda esta construção do poema dificulta a leitura e interpretação por parte do leitor pois obriga-o a afastar-se do seu código de leitura dito “normal” e a interiorizar o novo código para conseguir interpretar a mensagem que o poema pretende transmitir.
Devido à complexidade do poema podemos afirmar que neste caso a produção do sentido é relativa uma vez que os leitores podem criar novos códigos de leitura e fazer interpretações diferentes, ou seja, o leitor pode afastar-se dos padrões de leitura e interpretação que o autor, quando criou o poema, pretendia transmitir.

Terça-feira, Novembro 04, 2008

coraçãocabeça de Augusto Campos

À primeira vista deparamo-nos com um emaranhado de sílabas e palavras desconexas.
Num pulsar, a percepção altera-se e, aos poucos, começamos a decifrar o código. De repente, as palavras formam-se na nossa mente e as frases ganham sentido.
O conflito entre razão (cabeça) e sentimento (coração) está latente em todo o poema. No entanto, há indícios que sugerem um vencedor neste feudo.
Sem atentar nas palavras, o próprio pulsar/ latejar do poema, com a cor vermelha como fundo, remete para o batimento cardíaco, para o fluxo sanguíneo e, em sentido figurado, para o órgão vital associado à emoção.
Por outro lado, as palavras do poema parecem indicar que a razão depende do sentimento, que há uma ligação ou uma complementaridade entre os dois aspectos aparentemente distintos, mas com o coração/ sentimento numa posição dominante (o próprio título coloca o coração em destaque, mas unindo-lhe a palavra cabeça).
A expressão “Minha cabeça começa em meu coração” também poderá estar relacionada com o mecanismo fisiológico da circulação – que, através de um batimento, permite que o sangue arterial flua desde o coração para todo o corpo incluindo, logicamente, a cabeça. Remete-nos figurativamente para a influência do sentimento na razão.
“Meu coração não cabe em minha cabeça” pode ser interpretado como a impossibilidade de pensar racionalmente acerca de uma emoção e para o quão avassalador é sentir, em comparação com o acto de pensar.
Tal como noutros poemas concretos, as palavras em coraçãocabeça ganham uma força e uma identidade únicas, devido ao modo como são dispostas. Inicialmente, aparentam existir no poema apenas duas palavras estranhas. A confusão de letras exige, por parte do leitor, uma desconstrução da leitura e uma reconstrução adaptada ao código da obra.
Tendo em conta o facto de o código ser diferente em cada poema concreto (mas considerando que todos os elementos do poema têm um simbolismo específico, não sendo colocados aleatoriamente por uma questão meramente estética) a experiência do leitor torna-se muito mais dinâmica do que na poesia tradicional.

Bíblia de Gutenberg

Segundo Jay David Bolter e Richard Grusin, os media relacionam-se uns com os outros numa forma de remediação, isto é, os media complementam-se uns aos outros. Este conceito designa o processo através do qual uma forma que tem origem num determinado meio é transposta para um novo meio, adaptando-se a ele, mas não perdendo as suas características iniciais.
A Bíblia de Gutenberg, em formato digital, é um bom exemplo prático de remediação. Estamos perante um site composto por uma digitalização de todas as páginas deste livro e dotado de instrumentos adicionais que permitem explorar a bíblia como se fosse um livro, uma vez que as digitalizações das páginas do livro estão feitas à escala e podemos ampliá-las para facilitar a leitura. Deste modo temos a sensação que estamos a consultar a Bíblia de Gutenberg, mas na realidade trata-se de uma representação digital da mesma o que faz com que não tenhamos acesso directo ao objecto mediado, no caso a Bíblia de Gutenberg.
Esta nova forma de apresentar livros e outras obras na internet, usando o processo de remediação, é bastante vantajosa para o leitor uma vez que este pode, por exemplo, seleccionar o conteúdo do livro que pretende explorar mais facilmente, ao contrário do que acontece com livros/obras impressos (as) em papel.

Desvendando o "Enigma n" de Jim Andrews

Meaning, significado. É esta a palavra que nos aparece sobre o fundo negro.
Através de várias opções que Jim Andrews põe à disposição do leitor, é possível descontruir, desmontar, separar, baralhar, colorir, centrifugar a palavra meaning. Há um número quase infinito de combinações que o leitor pode produzir, visualizando o resultado final. Em "Enigma n" o papel atribuído ao espectador é de grande importância na (des)construção da obra, característica principal dos poemas ergódicos de que este é exemplo.

Não é por acaso que a palavra escolhida por Andrews é "meaning". Com este poema demonstra-se o quão instável é o sentido das palavras, isto é, como hoje uma palavra tem um significado, no futuro pode ter outro. A vida está longe de ser imutável e fixa, nada do que conhecemos é assim. As palavras, produto histórico-cultural da nossa vivência, muito menos. O que aparentemente está coeso e imutável, como observamos quando vemos "meaning" estática e cinzenta, por acção do leitor, depressa ganha uma vida: as letras giram, misturam-se, rodam, variam de velocidade, e a imagem que tínhamos inicialmente depressa se desvanece, dando a origem a uma miríade de novas possibilidades. Andrews faz o elogio ao movimento e à vivacidade da palavra. As palavras têm outras dimensões além das tradicionais. Porque é que água significará sempre água? Não é o poeta um fingidor? Que o sejam as palavras também!

É esta a beleza de "Enigma n" e é esta a beleza da palavra viva.

Domingo, Novembro 02, 2008

Jim Andrews, Enigma N

Enigma n, à partida desconexo e invulgar é extremamente rico em informação.
Ao abrirmos a primeira página deparamo-nos com a palavra Meaning e com uma série de opções. O leitor "assume as rédeas do poder", sendo que, a partir desse momento é ele quem vai atribuir sentido ao poema. A atribuição de sentido é feita através dos vários clicks que o leitor vai efectuando em cada uma das opções disponíveis, que possivelmente são um número infinito.
Cada ser humano é singular no mundo, logo a sua noção de sentido é própria e única.
Jim Andrews, ao criar este poema pretendeu demonstrar a impossibilidade da criação de uma noção de sentido.
Concluindo,o sentido não existe sem a intervenção do sujeito, portanto, este é como que um segundo autor da obra.

Sábado, Novembro 01, 2008

"Enigma n" - Uma outra dimensão dos sentido

"Enigma n", de Jim Andrews, procura uma outra dimensão do sentido. Através da intervenção do leitor e, de uma forma dinâmica, o poema que constitui a palavra "Meaning" ganha as mais variadas formas, cor e movimento. A palavra "Meaning" traduzida para português é significado.
O leitor ao intervir na dinâmica do poema, pode dar-lhe o significado que desejar e imaginar. Desta forma, Jim Andrews permite o uso da imaginação a todos, não havendo limites para tal!
"Meaning" como significante, corresponde a uma representação acústica da sua própria sonoridade. Mas, se pensarmos na sua representação escrita, destaca-se como significado. Partindo da ideia que todo o sistema de significação é altamente dinâmico, os significados tornam-se não absolutos, mas sim instáveis.

"Enigma n" de Jim Andrews

"Enigma n" de Jim Andrews é um excelente exemplo da literatura digital, da união da arte com a tecnologia. Este anipoema cria em nós imensas questões com apenas uma palavra: "meaning". Esta palavra, associada à animação digital, leva-nos a entrar no mundo da Psicologia, da Filosofia...
O que é o nosso significado? O que é o significado para os outros? O que é o significado das coisas? Será o significado algo concreto, inquestionável?
Jim Andrews responde que não. Ao entrarmos neste anipoema, mostra-nos que o significado é imensamente subjectivo, que tem imensas variáveis, que se torna diferente de pessoa para pessoa (ou de clique para clique...). Em "Enigma n" apercebemo-nos das infinitas formas que o significado pode ter. A cultura, a religião, a etnia, a sociedade, a personalidade de cada um, afecta o significado de tudo, torna o significado bastante pessoal, demasiado enraizado para ser considerado como algo concreto, absoluto, invariável. Qualquer pessoa que "participe" neste anipoema tornará o "meaning" pessoal, neste caso, estático ou ondulante, com letras grandes ou pequenas, veloz ou lento, com cores iguais ou diferentes... Jim Andrews com este fantástico anipoema mostra às pessoas que o significado é algo tão característico de cada um de nós, como o nosso ADN. Mostra que cada um vê o mundo e a vida, de forma diferente, dando-lhes diversos significados e sentidos...

"Greve" de Augusto de Campos

Augusto de Campos, "discípulo" da poesia concreta, deu um novo fulgor à literatura e ao seu possível futuro, ajudando a desenvolver uma ligação entre o poeta e a tecnologia. Este tipo de poesia, é um desafio para quem a lê, dando ao leitor a oportunidade de decifrar a mensagem deixada pelo poeta.
"Greve" de Augusto de Campos, é um exemplo desta forma de expressão da poesia. Este poema é-nos apresentado com a palavra "greve" a vermelho, que vai aparecendo e desaparecendo, como se tratasse de um grito mecanizado, que vai e vem, que se repete exaustivamente. O vermelho, simboliza então, a luta dos grevistas, o sofrimento, a rebeldia. À frente da palavra que dá nome ao poema, apresentam-se 5 versos: " arte longa, vida breve/escravo se não escreve/ escreve só não descreve/ grita, grifa, grafa, grava/uma única palavra". Estes 5 versos, completam então o poema de Augusto de Campos, dão outra alma à "Greve". A greve, interpretada pelo autor como sendo uma arte, é dura e temível. Associa-a aos escravos, aos trabalhadores que não têm conhecimentos, que têm que se submeter às ordens do seu patrão. Contudo, apesar de uma greve ser dura, se calhar demasiado dura para tão poucos resultados, Augusto de Campos dá força à palavra, como se ela gritasse por si só, como se a palavra desse poder aos que não têm. Esta "única palavra", marcada a vermelho, é forte o suficiente para ser gravada nas mentes das pessoas, para que todo o seu fim, para que toda a sua luta não seja esquecida...

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Poesia Concreta - Augusto de Campos

À primeira vista, não passa de um poema dadaísta, mas para que possamos desvendá-la, a poesia concreta exige muito mais do que uma mistura de palavras soltas em um saquinho e retiradas aleatoriamente para formar algo totalmente sem sentido, sem contexto, sem poesia.
Iniciada na década de 50, a poesia concreta implica que a palavra vai além de um significado, multifacetada, suas sílabas nos mostra uma sonoridade que vai além de um tom. A materialidade, a forma do poema interage literalmente com as palavras, nos deixando assim, um tanto quanto confusos ao vermos algo diferente daquele código de leitura o qual nos é imposto e estamos acostumados. Dessa forma, o primeiro passo a seguir para “decifrarmos” a poesia concreta é sabermos qual código de linguagem utilizar, este, que para o concretismo, nunca é o mesmo, o que o torna ainda mais interessante, ficando nas mãos do leitor, sua própria forma de interpretação.

Analises:

coraçãocabeça

De Augusto de Campos, o poema Coração Cabeça, assim que deciframos seu código de leitura, nos passa a ideia de que o coração e a cabeça são totalmente opostos, como podemos ver na frase decifrada “meu coração não cabe em minha cabeça e minha cabeça não cabe em meu coração”. Apesar de opostas, a razão e a emoção complementam-se, e o poema mostra-nos isso ao ser apresentado como palpitações de um coração.

Tensão

Neste poema, também de Augusto de Campos, sentimos verdadeiramente uma grande tensão, visto que, ao iniciarmos a leitura do poema, pela forma relativamente normal, não conseguimos encontrar seu sentido, assim que deciframos seu código de leitura, o poema nos causa uma grande tensão por não nos permitir saber aonde começar e onde terminar.

eisosamantes

Neste poema, temos a inteira visão de um acto sexual entre dois amantes, desde o momento em que seus corpos unem-se, a partir de um desejo, nada mais além do que um desejo, até momento em que o “nós” intensifica-se com a ejaculação e a germinação.
O formato do poema acompanha as palavras que descreve todo o caminho desse acto sexual, palavras inicialmente separadas, cores diferentes representando ele e ela, depois unidas, misturadas.

Terça-feira, Outubro 28, 2008

S.O.S de Augusto de Campos

Perante a visualização do clip-poema,datado em 2000 por Augusto de Campos,percepcionamos na ideia deste poema em primeira mão,um pedido de socorro ou de ajuda de todo o universo humano.
Ao idealizar-mos as palavras que se destoam em sentido centrífugo,nos transmitem a imagem de órbitas e o backround do texto como o "espaço"e cujo o som nos determina a ideia de ondas de radio,de transmissões que todos esses factores nos remetem para um pedido de apelo de toda a existência humana.
A ideia do próprio autor ao transmitir sinais que nos atiram para o campo lexical da solidão pelo uso das expressões: sem pai ...sem mãe...sem sol...numa noite que anoitece, nos leva a considerar que estamos sós neste obscuro,ínfimo e longínquo universo,onde ele em nome de toda a humanidade apresenta a seguinte retórica "que faremos nós?"que certamente nos impulsiona para o desespero e pela solidão em que nos acompanha desde sempre, neste mundo sem qualquer porto de abrigo e onde introspectivamente todos silenciosamente ocorrem de um pedido de S.O.S constante ao longo das suas vidas.

Domingo, Outubro 26, 2008

Conceito de remediação: a Bíblia de Gutenberg

A Bíblia de Gutenberg foi a primeira obra impressa. Marcou o início de uma nova era e de novos hábitos literários. No entanto, com tudo o que trouxe de novo, não foi completamente inovadora.
Nas páginas da Bíblia de Gutenberg estão presentes características das obras manuscritas dos monges copistas: letras com cores diferentes do restante texto, que funcionam como marcas de orientação para o leitor; ilustrações desenhadas à mão; o tipo de letra baseia-se nas características de uma escrita manual, de uma caligrafia cuidada.
Observa-se, portanto, a transposição de características presentes num meio de comunicação anterior (livro manuscrito) para um meio que surge posteriormente (códice/ livro impresso). Reside nesta troca o conceito de remediação, ou seja, a adopção por parte de um determinado media de características de outro(s) media.
Ao longo dos séculos, a tipografia desenvolveu-se e, eventualmente, os manuscritos tornaram-se obsoletos. Surgiram novos media, como os jornais, o rádio, a televisão, a web. Todos eles foram influenciados e influenciaram, com maior ou menor relevo, os restantes media.
A remediação funciona, assim, em mais do que um sentido. Tanto podem ser os novos media que adquirem características de media pré-existentes, como o oposto. Por exemplo, actualmente os programas televisivos incluem características que associamos às páginas web: no telejornal – rodapés com títulos das notícias que serão apresentadas posteriormente na emissão, indicação da página web do canal que emite o noticiário durante a emissão (link). O oposto também é verdadeiro, dado que as páginas web incluem conteúdos audiovisuais emitidos pela televisão.
Há uma certa fusão de características, que contribuem para alguma homogeneização dos meios de comunicação. A remediação é tão abrangente que parece difícil distanciar os vários media, à medida que estes evoluem e se reinventam. Contudo, é uma das características de evolução dos meios de comunicação e é também algo que permite a familiarização do público aos novos media. Permite que as pessoas sintam que é possível utilizar/ compreender a novidade dos meios de comunicação. Permite que os meios de comunicação se desenvolvam a partir de um conceito mais comum e, posteriormente, construam a sua própria identidade.

Poesia Concreta...

Em meados dos anos 50, nasce um movimento denominado: "Poesia Concreta".
Intrinsecamente ligado ao nascimento deste nova forma de fazer poesia está o nome de Eugen Gomringer. A poesia concreta é como que, uma união entre o autor e a tecnologia, uma vez que ,este faz uso dela para a sua criação poética. Esteticamente, os poemas concretos são completamente diferentes dos tradicionais, provocando no leitor/espectador alguma estranheza.
O sentido do texto está na forma como este se objectiva. Não conseguimos decifrar na totalidade o seu conteúdo, uma vez que não há maneira de interpretar certas ambiguidades.
O verdadeiro sujeito da poesia concreta é o leitor, o homem que se vê a si mesmo na obra, o homem que se esforça por descobrir aquilo que o constitui mais intrinsecamente: a sua consciência. Abrindo-se para a obra, ele abre -se a si mesmo. Conferir sentido à obra implica conferir sentido a si mesmo.

Bíblia de Gutenberg - Processo de Remediação

Ao analisarmos o novo formato em que nos surge a Bíblia de Gutenberg, deparamo-nos com um novo conceito - o processo de remediaçao, isto é, o processo através do qual um objecto que tem origem num determinado meio é reproduzido sob o sitema do novo meio sem perder características do meio inicial.
Este novo formato digital em que aparece a Bíblia demonstra isso mesmo, ou seja, não deixou de possuir as características mais convencionais do livro, nomeadamente, as letras trabalhadas, as ilustrações concebidas manualmente, ...
No entanto, adquiriu também características novas que pertencem ao meio digital. Exemplo disso é a forma como nos é apresentado o indice em que o leitor tem a liberdade de escolher por onde começar a sua leitura.
Na minha perspectiva, todo este cruzamento entre o "velho" e o "novo" permite ao leitor todo um processo de (re) criação e demostra bem o mundo em que vivemos : tudo está sujeito a um processo de recostrução o que permite o desenvolvimento do Mundo e de toda a Humanidade.
Contudo, também defendo que, apesar de ser muito importante o desenvolvimento e o conhecimento de novos conceitos, é fundamental preservarmos as grandes obras concebidas pelos nossos antepassados, não transformando tudo num autêntico "Mundo Digital"!

Augusto de Campos e a Poesia Concreta

Augusto de Campos é um homem à frente do seu tempo. Numa época em que se julgava que nada mais havia a fazer na literatura. Em que a inovação artística era vista como algo impossível, Agusto de Campos pensou mais longe e desconstruíu o próprio código linguístico. Os seus poemas não são apenas um objecto passivo à espera do conhecimento por parte do sujeito; têm um papel dinâmico e, diria até mesmo, um papel de desafio para quem os lê. São pedaços de literatura que requerem um exercício mental, pois a mensagem que transmitem não é de todo óbvia. A quem os lê é pedida que reflicta naquilo que pensa e interpreta. "Porque é que eu vejo isto assim?" é a questão que Augusto de Campos propõe aos seus leitores.

tensão

"tensão" é um poema com uma disposição espacial inteiramente inovadora. Augusto de Campos separou os sons de várias palavras sugerindo possíveis combinações entre eles. Sendo a totalidade dos sons graves, a tensão, que dá nome a esta obra, é facilmente perceptível quando o poema é lido em voz alta. Temos "tambem", "cansem", "contem", "cantem", "tentam", "tombem", "contam" e, obviamente, "tensão". Há ainda a possibilidade de juntar sons que formem palavras que não existem. A liberdade da Poesia Concreta é bastante visível.

coraçãocabeça

Sobre um fundo vermelho e a letras amarelas, o leitor depara-se com um conjunto de letras que vai alternando entre si, aparentemente destituídos de sentido. Contudo, Augusto de Campos cria um código de leitura que cabe ao leitor descodificar, através de um olhar atento. A mensagem codificada é "Minha cabeça começa em meu coração; meu coração não cabe em minha cabeça". Há referência à antítese entre a racionalidade e a emotividade, tradicionalmente representadas pela cabeça (cérebro) e pelo coração. No entanto, Augusto de Campos faz uma nova leitura desta dialética: o coração e a cabeça podem estar ligados, sendo um parte do outro, ou onde um acaba o outro começa. O próprio título da obra sublinha esta ideia ao aparecerem as duas palavras juntas, como se fossem uma apenas, e o intervalo entre uma frase e outra faz lembrar o bater do coração.

eis os amantes

Dois amantes envolvidos numa relação altamente egoísta, em que nada mais existe que não os seus corpos. A envolvência e a proximidade é tanta que eles são como irmãos, unidos pelo amor e pelo puro prazer. Neste poema, Augusto de Campos dispõe as palavras de forma a que elas próprias se tornem intervenientes na história que pretende contar. É por isso que, na sua maioria, as palavras apareçam justapostas e aglutinadas, lembrando a união dos corpos durante o acto sexual. O poema está escrito a duas cores, azul e laranja, representando a parte masculina e a feminina, provavelmente. No início do poema as palavras formam uma única fila vertical ("eis os sem senão os corpos"), separando de um lado "amantes" e do outro "parentes", como que mostrando a necessidade que os amantes têm de estar sós, sem a intromissão da família, pois este é um momento apenas deles. Depois, temos dois grupos de palavras aglutinadas, um à esquerda e outro à direita, e, no final desta parte, aparece uma única palavra, representando a penetração, em que um se funde no outro. Segue-se uma linha de letras que vai de um lado ao outro. A ejaculação, e o fim do coito, é simbolizado pelo seguinte verso, "semen(t)emventre", ou seja, o sémen, que pode ser também semente, é colocado no ventre da mulher. O poema é finalizado com uma referência à reprodução humana, em que "estesse" dão origem "aquelele" e "inhumenoutro", isto é, dois, quando se entregam um ao outro, originam outros.

"Amor" de Clarice Lispector

"Amor" conta-nos a história de uma mulher, Ana, que vivia de uma forma simples e pacata, totalmente dedicada ao seu marido, aos seus filhos e às obrigações que uma casa de família exige.
A personagem nunca parou para pensar no verdadeiro sentido da sua vida deixando-se envolver naquela rotina que era o seu dia-a-dia.
No entanto, tudo muda quando Ana, numa tarde em que se dirigia às compras, observou um cego que mascava uma chiklet. Esta personagem significou para Ana o ponto de partida para um longo processo de auto-conhecimento e de dúvidas que assaltaram a personagem naquele momento.
Afinal Ana não tinha uma vida assim tão interressante para se considerar uma pessoa feliz. A personagem sentiu um profundo vazio dentro de si e necessitava de algo para dar sentido à sua vida.
Este texto penso que demostra bem a forma como a sociedade vive actualmente. Por vezes "a falta de tempo" leva-nos a não dar a devida importancia aquilo que realmente é importante.
É precisamente esta mensagem que o conto "Amor" pretende transparecer: todos nós deviamos reservar uns minutinhos da nossa vida, tal como Ana fez, para reflectirmos e darmos um verdadeiro e feliz sentido à nossa vida!

Sábado, Outubro 25, 2008

Remediação: Modernização, Adaptação, Interacção

É perceptível a "remediação" referida por Jay David Bolter em quase todos os espaços web. Tal facto deve-se à necessidade de ser criado um formato visual baseado àquilo a que estamos acostumados: os livros e, a sua essência, o papel. A Bíblia Digital de Gutenberg, o site do artista brasileiro Arnaldo Antunes e o anipoema "Amor de Clarice" de Rui Torres são exemplos dessa remediação.

Bíblia Digital de Gutenberg

Desenvolvida na Universidade do Texas, a Bíblia Digital de Gutenberg é um excelente exemplo da "Remediation". A bíblia mais antiga do mundo, concebida pelo pai da máquina de imprensa, é apresentada completamente adaptada à era digital. Isso é visível no índice de que se dispõem para navegar na bíblia, na selecção da página que se quer visualizar, assim como no virar de páginas. Estas facilidades acabam por tornar a bíblia digital mais prática, mais dinâmica, "remediada"...


Site de Arnaldo Antunes

O site deste artista multifacetado brasileiro é outra prova da digitalização do nosso mundo, da adaptação à web. No site de Arnaldo Antunes é notável a forma como dispõe toda a sua obra, todos os seus trabalhos. Em vez de termos à nossa frente apenas uma biografia, uma amostra da sua vida e obra, temos todo o trabalho realizado por este artista, o resumo dos seus livros, o conteúdo dos seus discos, imagens das suas exposições de arte. Toda esta janela para a obra de Arnaldo Antunes está organizada para ser prática, eficiente, interactiva. Podemos viajar pelo mundo deste artista brasileiro, visualizando obras de arte, lendo a sua biografia, ouvindo "previews" dos seus álbuns. A facilidade com que dispomos para obter informação aliada à animação e interacção criadas, torna o site num espaço remediado, completamente adaptado ao mundo modernizado, tecnológico, digital.

"Amor de Clarice" de Rui Torres

Este anipoema desenvolvido por Rui Torres transpõe o conto de Clarice Lispector para um mundo abstracto, mágico, alucinante. O leitor entra no conto,cria o conto, refaz o conto, vive o conto. O leitor é parte integrante do corpo da história. A interacção com o "Amor" de Clarice torna-se pessoal. A voz sóbria do narrador é controlada pelas nossas "cordas vocais", as palavras de Clarice Lispector são desenhadas pelas nossas "mãos", o texto é pensado pelo nosso "imaginário". Esta interacção tão íntima, tão nossa, transforma o "Amor de Clarice" de Rui Torres numa remediação do conto original de Clarice Lispector.

A remediação é o nosso bilhete para viajar no fantástico mundo que a Web criou, que todos nós criámos.

Domingo, Outubro 19, 2008

Amor de Clarice


            Quando Ana salta para o exterior da tela colorida em que participava avidamente a partir da sua casa e vida doméstica, o mundo do Jardim Botânico lhe desaba em cima da consciência, o mundo que até então lhe era querido e não pensado; afinal Ana era apenas uma das suas personagens, talvez a que está à varanda do apartamento.

            Os dias a que assistira até então, de desmaio e de pó, são absolutamente calcados por uma imensa vitalidade, figurada pelas patas luxuosas da aranha e pelo espectáculo que a natureza fazia rebentar pelo jardim. Dentro dela, estoura amor, amor indizível e primordial, de bondade e de marfim.

A efervescente e perigosa hora da tarde finalmente raiava e Ana, além de gozar da juventude, se delicia e se atormenta com as emoções que nela dançavam. As sensações de Ana são, nesta parte, incrivelmente femininas.

Entretanto a puerilidade e o papel maternal não coexistem, e pelos filhos, pelo estalido do fogão e pela mão do marido, Ana regressa ao calmo e pitoresco sono anterior. Tão categoricamente como pela primeira vez.

            Não é censurável, de todo. Ana despiu o traje de deusa, para vestir os filhos e aquecer o marido – é um altruísmo esquecido e igualmente digno – os bancos continuam sujos com a fruta que cai, as aranhas ainda se pregam nas árvores e os gatos jamais deixarão o porte de realeza. E lá no fundo é o nosso cego que sempre espreita.

 

Há muitas pessoas e “o mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor”.  

Bíblia de Gutenberg\Conceito de remediação

A Bíblia de Gutenberg, advento da tipografia proporcionou uma reviravolta na forma de criar material literário. A folha que entrava duas vezes na máquina de impressão, tinha uma particularidade que passava pelo facto de alguns capitulares continuarem a ser desenhados à mão. O resultado final foi uma obra de carácter sóbrio e estética agradável.
O conceito de remediação, analisado em aulas anteriores adapta- se a este tema, uma vez que a Bíblia de Gutenberg pode ser considerada uma remediação de bíblias escritas. Gutenberg ao criar uma nova tecnologia inspirou-se em aspectos formais e materiais de um meio anterior. Assim sendo, podemos entender remediação como a transposição de características de um meio anterior para um mais recente.
A própria história dos media é feita de processos de remediação, quando surge um novo meio, os meios anteriores sofrem uma requalificação. A s características originais continuam a ser reconhecidas, no entanto, sofrem uma configuração.
Um exemplo desta realidade, são os sites de jornais onde reconhecemos elementos gráficos comuns à publicação em papel.

Sábado, Outubro 18, 2008

A Bíblia de Gutenberg - "The remediation"

Ao analisar a bíblia de Gutenberg em formato digital, deparo-me com o conceito de remediação, ou seja, a transposição de uma forma que se encontra num determinado meio para outro meio: a bíblia de Gutenberg em formato de livro para o formato digital.
No entanto, esta transposição não é feita na íntegra, uma vez que há características originais que são transpostas para o novo meio.
Ao lermos a bíblia de Gutenberg em formato digital, apercebemo-nos que o autor teve o cuidado de passar o formato original do livro para formato digital, dando ao leitor a ideia de que tem o verdadeiro livro na sua mão. Aspectos como a digitalização das páginas originais e da própria espessura do livro são características próprias do conceito de remediação.
Logo e perante este novo conceito, quero deixar uma questão no ar: será que no futuro os livros que tão bem conhecemos, que folheamos, que tocamos e que a cada página que viramos nos abrem uma nova janela irão desaparecer para dar lugar ao livro digital?

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

“Amor de Clarice” – Poema Hipermédia

Rui Torres, no seu poema hipermédia “Amor de Clarice”, faz uma adaptação do conto “Amor” de Clarice Lispector. Sendo um poema hipermédia permite-nos interagir muito mais com todas as partes da obra, o que no conto “Amor” já não é possível. Neste poema deparamo-nos com algumas frases marcantes, do conto, articuladas de modo a produzirem um sentido; sentido esse que a qualquer momento pode ser alterado, pelo leitor, através de um simples “clique” do rato.
Para complementar este “jogo de palavras”, Rui Torres introduziu, na sua obra, um conjunto diverso de fundos de ecrã que passam pela sobreposição de frases, misturas de cores, vídeos temáticos, vozes e peças musicais. Estes fundos de ecrã, originais, levam o leitor a criar novas interpretações acerca do poema, tornando-o cada vez mais rico.
Esta adaptação do poema de Clarice Lispector por Rui Torres é, sem dúvida alguma, uma representação interessante e apelativa, que cria desde o seu início uma grande curiosidade no leitor em explorar o poema.

Amor de Clarice remediado.

O ilustre poema “Amor”, criado por Clarice Lispector, relata a crise de identidade que consome a personagem Ana ao se deparar com um cego à mascar chiclete na paragem do autocarro, conseguindo este, de tal forma, entrar em sua mente e, a partir dali, faz com que Ana perceba que sua vida não passa de uma mesquinha monotonia análoga.
O mesmo poema é remediado por Rui Torres, que nos permite interagir ainda mais com a obra, esta que agora apresenta uma variedade multimédia, uma intermedialidade, onde conseguimos ler e entender de uma maneira mais interessante, interagindo directamente com os fragmentos do poema os quais podemos montar, assim como num puzzle, e mesmo assim, sendo capazes de chegar, mesmo que por caminhos diferentes, à uma conclusão, a mesma que a autora deixa em seu poema original.

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Amor de Clarice, Rui Torres

A criação do poema hipermédia "Amor de Clarice" desenvolvida por Rui torres e respectivos colaboradores, demonstra o quão privilegiados somos em viver nesta época. Tudo é passível de se fazer, basta -nos ter ao nosso alcance um computador e alguma dose de criatividade.
A adaptação do poema "Amor", de Clarice lispector a um texto hipermédia resulta em algo interactivo, onde numa mesma página temos à nossa disposiçao vídeo, música, movimento textual e imagem. Um livro, apesar de ser um excelente material cultural, não consegue alcançar os poemas hipermédia em termos de dinâmica.
Ao ler um poema hipermédia, o leitor é necessariamente levado a fazer um esforço de compreensão, uma vez que é particularmente difícil interpretar uma obra desta configuração.
O primeiro contacto, provoca alguma estranheza e até imcompreensão, contudo, uma exploração profunda, que permita ao leitor enredar -se no poema irá proporcionar uma experiência de interpretação bastante gratificante.

Terça-feira, Outubro 14, 2008

Amor, de Clarice...

O conto "Amor" de Clarice Lispector tornou-se poema hipermédia, pela mão de Rui Torres e colaboradores. Algo que antes era uma narrativa de leitura linear, com princípio, meio e fim bem definidos (literalmente, preto no branco) foi transformado numa sequência interactiva de frases, imagens, sons e vídeo que nos remetem para o universo do conto.
A conjugação dos diferentes media realça a experiência de Ana, personagem principal do conto e protagonista do poema, e o seu mundo interior. Somos transportados para o caos existencial, para as questões e tormenta daquela dona de casa, cujo mundo se desmorona e reconstrói à volta de uma sucessão de acontecimentos triviais.
No poema hipermedia, as letras que circulam no ecrã, formando expressões aparentemente desconexas, e a música e voz que são ouvidas, quase como ecos de consciência, lembram um pouco a mente de alguém, o processo de pensamento de uma pessoa. Os vídeos a que se pode aceder, em determinados capítulos do poema, são quase como memórias. É um pouco como se invadíssemos a mente de uma pessoa que se encontra a interpretar o conto. Palavras e expressões-chave são repetidas ("o mal estava feito"), para enfatizar determinados sentimentos e situações, tal como no conto. De facto, o sentido de "Amor", não é alterado na sua forma de poema hipermedia.
Vemos diversas fases do conto de Clarice Lispector a "boiar", sob a forma de versos alternados, num mar de palavras, que parece não ter sentido excepto aquele que lho atribuirmos. No entanto, tal como o conto, o poema hipermédia, demonstra a náusea existencial de Ana e transmite a ideia da perturbação, tanto pelas frases soltas que ora aparecem, ora desaparecem, ora são mudadas de ordem (pelo leitor), como pelas características do vídeo (iluminação, loop, utilização de imagens relativamente abstractas e com cores contrastantes), ou mesmo pela voz masculina que nos conta a história ou repete aleatoriamente versos. Tudo contribui para uma experiência diferente de leitura e interpretação, apesar de a história de Ana continuar, no fim de contas, a ser a mesma.

Domingo, Outubro 12, 2008

"Amor" de Clarice Lispector

A obra literária "Amor" conta-nos a história melancólica de uma mulher, de seu nome Ana. Ana é uma dona de casa, casada e com dois filhos. Vivia de forma humilde, sem exubirtantes ambições, vivendo assim satisfeita com a sua vida estável.
Mas, houve um dia em que toda essa tranquilidade caíu por terra. Ao regressar das compras de bonde, Ana vê um cego a mascar chicletes. Essa imagem vai servir de mote para todo o conflito psicológico que vai surgir em Ana e, por conseguinte, da sua crise de identidade.
Ana acostumou-se a simplesmente viver por viver, crescendo dentro de si uma vida monotona, sem felicidade, sem amor.
Clarice critica de forma metafórica o conformismo que muitas pessoas têm e que, por isso, acabam por simplesmente existir, abandonando e apagando aos poucos a chama da vida.

Sábado, Outubro 11, 2008

Amor Escondido, Amor de Clarice...

"Amor" de Clarice Lispector é um conto que demonstra os conflitos psicológicos e crises de identidade que persistem até aos dias de hoje. A monotonia da vida e a homogeneização da mesma criaram muitas "Anas", pessoas que se prendem ao quotidiano e se conformam com uma vida sem interesses, sem fulgor.
Em "Amor", Clarice evidencia essa falta de emotividade na vida de Ana e no quão mórbida e sombria é essa vida. Ana deixa-se levar pelas lides domésticas, pelos seus afazeres, pelos seus deveres como mãe e mulher, tornando-se numa mulher sem chama, sem amor.
Num desses dias iguais a todos os outros, Ana quebra toda aquela vida de mulher feita por um instante. Ao ver um cego mascar a chiclete, ao deparar-se com os ovos partidos, ao reparar no olhar troçado e efusivo dos passageiros no autocarro, ao vislumbrar a beleza escondida do Jardim deixa-se destroçar e desintegrar. Ana lembra-se agora que o amor é sentimento, lembra-se que a vida não é tranquila e fixa, lembra-se que existem defeitos, lembra-se que existem pobres e ricos, que existem emoções, lembra-se que a vida é muito mais do que apenas existir.
Nesse momento agridoce, em que se sente enojada e fascinada, Ana apercebe-se das novas-velhas sensações, rompendo com os dias mecanizados que levava, onde era feliz sem o realmente ser, onde permanecia cega em relação aos defeitos.
Ana é uma de tantas outras pessoas, que prefere viver sem felicidade do que de forma incerta com amor. Essa garantia de uma vida sem oscilações, sem mau nem bom, sem feliz nem triste, uma vida sem sensações, tornou Ana numa pessoa que simplesmente existe. Esse amor que permaneceu escondido dentro dela, essa inquietação que Ana repudiava, apagou-se, abafado por um sopro, como aquele que acabou com "a pequena flama do dia"...

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

"Amor", Clarice Lispector - O Amor, sentimento como nenhum outro

Clarice Lispector conta-nos em "Amor" a história de Ana, uma mulher entre tantas outras. Ana leva uma vida regular e previsível, a seu gosto, pois "assim ela o quisera e o escolhera". Como tantas outras mulheres, Ana tem filhos, marido e cozinha assim como uma grande necessidade de harmonia com tudo o que a rodeava. Recorda-se da sua juventude como um período distante e estranho, do qual apenas sobrevivem memórias em que projectava uma vida completamente diferente. Descobriu, contudo, "que também sem felicidade se vivia", conformando-se com o dia-a-dia que o destino lhe presenteou.

Ana tem uma única preocupação: a "hora perigosa da tarde". Esta é a hora em que todo o mundo que construiu à sua volta sobrevive sem o seu olhar atento. As crianças e o marido estão fora de casa, as louças estão lavadas, o chão está limpo e os móveis sem pó. Mas até esta hora perigosa está controlada por Ana. Descobriu que a pode ultrapassar saindo de casa, seja para fazer compras ou outros afazeres. E é num dia como tantos outros, nessa hora perigosa, que Ana está no autocarro, já com as suas compras, vencendo mais uma vez. Subitamente depara-se com um cego, como tantos outros, mascando chiclet.

Sem saber bem porquê, Ana fixa o seu olhar e a sua atenção nesta personagem. Impressiona-a o seu movimento de mastigação, em que parece que sorri e deixa de sorrir, várias vezes. É tanta a atenção dada por Ana, que nem repara que o autocarro recomeça a sua marcha, deixando cair o seu saco e partindo os ovos que lá iam.

A hora perigosa da tarde venceu... Ana perdeu o controlo de algo. Os ovos que havia comprado não iriam chegar a casa. "O mal estava feito". Para Ana, o mundo deixava de fazer sentido. Quando até na sua vida controlada e rotineira, em que tudo parecia estar na sua alçada, algo de imprevisível acontecia como é que tudo o resto poderia continuar de pé? A insustentável leveza dos ovos chocou com a sua vida, deixando-a náufraga sem destroços a que se agarrar.

E é como náufraga que Ana se apercebe que desconhece o sítio onde saiu do autocarro. Aos poucos repara que está na zona do Jardim Botânico e para lá caminha, dando cada passo como se estivesse noutro planeta. Neste Jardim como tantos outros, Ana encontra um admirável mundo novo, assustador e maravilhoso, belo e selvagem. Observa a vegetação e os animais e um misto de sentimentos invade-a e, pela primeira vez em muito tempo, Ana vive. É assaltada por sensações reais, sensações que há muito se esquecera que existiam, pois a redoma de vidro que fabricara na sua cozinha impediam-na de as ter.

Ana lembra-se das suas crianças e acorda do sonho. Correndo, chega a casa, mas esta parece-lhe estranha. Estranha a sala, as maçanetas, os vidros, a limpeza, estranha até o filho que a vem abraçar. Tem medo do contacto e afasta-o. O olhar seguro com que encara a mãe, destroça-a. Ana descobre em sua casa um pouco do Jardim, nas aranhas por trás do fogão, nas formigas da cozinha, na flor na jarra. Agora que tinha vivido como nunca viveu, toda aquela vida lhe parecia vazia. A redoma sufocava-a.

Seguiu-se um jantar de família, como tantos outros. As conversas e os risos inundavam a mesa e as crianças animavam tudo à sua volta. Ana compreende a fragilidade que estes momentos têm, como é fácil que acabem, como um cego mascando chiclet pode pôr termo a tudo o que temos como garantido. E, assim, "Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu". Após o jantar, Ana ouve um estrondo na cozinha e corre para ver o que é, alarmada. O marido desdramatiza, abraçando-a e Ana, vencida, vai com ele.

Ana vive mais num dia do que em toda a sua vida. O seu encontro com um cego que masca chiclet torna-se numa viagem de auto-conhecimento, pois na verdade Ana não se conhecia, tal como não conhecia nada. Assim como todos nós. Todos nós que vivemos em redomas, tanto nas nossas cozinhas, como nos nossos quartos e escritórios, nem essas redomas conhecemos. Vivemos uma vida planeada ao pormenor, sempre com o medo que chegue aquela hora da tarde, em que reina o imprevisto. Cabe a cada um encontrar o nosso cego, explorar o nosso Jardim Botânico e viver o Amor, não como tantos outros, mas o nosso.
"Amor" de Clarice Lispector, podia ser um conto como tantos outros. Mas não é.

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

“Amor” – Clarice Lispector

O amor é um sentimento complicado de explicar por palavras, mas quando sentido traduz-se num conjunto de sensações intensas, agradáveis e até “mágicas”. No conto “Amor”, de Clarice Lispector, esse sentimento está bem presente. A personagem vive momentos de amargura, resignação e de grande confusão interior, tudo isto porque vive fervorosamente a sua rotina diária. Rotina, essa, centrada no seu lar, desde o marido, aos filhos, á limpeza e manutenção da casa e às compras. É um dia-a-dia agitado que lhe causa muitas preocupações. A certa altura esta acaba por temer certa hora perigosa do dia, quando o sol está alto; hora em que “a casa estava vazia sem precisar mais dela”; hora em que ela se sente inútil pois nem os filhos, nem o marido nem a casa precisam dela naquele momento. Contudo ela sabe que em casa tem um “homem verdadeiro” e filhos que a amam muito. Este amor fá-la sobreviver todos os dias àquela hora fatídica, para mais tarde se reencontrar com a família.
Momentos como estes, de insegurança e mal-estar interior, fazem parte do quotidiano de várias pessoas, nos dias de hoje. O stress do trabalho, do cuidar da casa e da família e da vida sedentária que levamos, leva-nos a sentir-nos confusos ou até impotentes em relação a algumas situações, aparentemente complicadas, mas que não passam de coisas normais de rápida e simples solução. No entanto, tal como acontece com a personagem, temos momentos de reflexão que nos fazem pensar em questões às quais não dava-mos importância anteriormente como o sentido da vida, se os problemas que julgamos ter são mesmo problemas… Por vezes esses momentos surgem em alturas imprevistas, quando há uma quebra involuntária da rotina, quando acontece um imprevisto, o que nos descontrola completamente. É nestas alturas que nos apercebemos que existem pessoas em situações piores que as nossas e que não podemos pensar que vivemos uma situação irremediável. Devemos sim procurar uma solução e pensar que o “amor” é capaz de coisas maravilhosas, e que com ele a alegria é uma garantia, e quebrar a rotina. No entanto há que referenciar que o amor não cai do céu, é preciso lutar e fazer um esforço para o conseguir e o merecer.

Segunda-feira, Outubro 06, 2008

"Amor"- Clarice Lispector

Confesso que, a primeira vez que li o romance, não entendi a mensagem que nele estava contida.
Para mim, antes de o ter analisado , era apenas mais um dos livros que li.
Contudo, há nele uma grande história que nos conduz a uma série de pequenas reflexões sobre uma série de coisas que diariamente nos passam ao lado.
A rotina diária, da qual somos escravos, faz com que não tenhamos tempo para pensar no verdadeiro sentido da vida, verificando -se um cada vez mais crescente conformismo.
A personagem retratada no conto, ao deparar -se com um cego a mastigar pastilha, entra como que num processo de introspecção,podemos até dizer "nausea existencial".
O fugir à rotina, aquela visita ao jardim, foi como que um sopro de vida para ela, pois por momentos não teve que dar explicações da sua vida a ninguém.
Finalizando, penso que o ser humano deveria dedicar mais algum tempo a si próprio, pois como popularmente se diz:"Se tu não gostares de ti, quem gostará?".

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

The Machine is Us/ing Us - Michael Wesch

São os seres humanos que controlam a “máquina”? Ou são apenas instrumentos para a sua evolução?
Na minha opinião, o pequeno filme de Michael Wesch (professor de antropologia de Kansas State University) remete para a ideia de um ciclo interminável. Por um lado, são os seres humanos que tornam a utilização da tecnologia e a transmissão de informações através da Web em algo extremamente importante e imprescindível; mas ao inserir continuamente dados nesse sistema (quer sejam textos, vídeos, música, fotos, links para informação complementar ou outros dados quaisquer), estão a acrescentar algo novo ao conhecimento previamente armazenado e, portanto, estão a “alimentar” o sistema, contribuindo para que este se modifique e adquira maior complexidade. Como é referido no filme, nós ensinamos a “máquina”. Ela depende das pessoas para ganhar forma.
No entanto, a partir de determinada altura, a “máquina” (que não é mais do que a Web) adquire tal complexidade que a própria sociedade em que nos inserimos passa a depender dela e a ser moldada por ela. Por exemplo, a Internet adquiriu tal importância que já existe um novo tipo de analfabetismo: o tecnológico.
Surge, por isso, uma co-dependência entre ser humano e máquina. Haverá sempre uma influência humana na evolução tecnológica, mas os seres humanos dificilmente sobrevivem sem tecnologia. É uma marca dos tempos.
A evolução digital entrou nas nossas casas sorrateiramente e acabou por influenciar o modo como vivemos as nossas vidas. Daí que (como é referido no filme) tenhamos que repensar vários conceitos que, até há bem pouco tempo, nos pareciam imutáveis (ética, família, amor, estética, direitos de autor, privacidade, identidade... ) e, provavelmente, alterar a estrutura da sociedade actual, dado que, situações que não teriam contexto sem a (r)evolução tecnológica levantam novas questões ético-legais e, também, de segurança pessoal.
Considero, contudo, que o filme transmite uma opinião positiva. O ênfase é dado às múltiplas oportunidades e possibilidades de produção e transmissão de informação que a tecnologia nos abriu (por exemplo, o blog com links a outros blogs e a outros sítios web; a utilização de tags; a troca de informações em vários formatos; a partilha de experiências e ideias através de vídeos, fotos, etc). Mostra uma sociedade em mutação rápida e constante e em pleno processo evolutivo.
Em suma, revela que o ser humano tem mais um patamar para alcançar na escada evolutiva e que começou recentemente a aperceber-se disso e a tentar começar a subida (ou talvez escalada).

Terça-feira, Setembro 30, 2008

Web 2.0 - The Machine is Us/ing Us

Através deste vídeo, Michael Wesch em alguns minutos demonstra as múltiplas virtudes deste sistema tecnologico. São inúmeras as possibilidades que este sistema nos permite realizar, não só por simples diversão, mas também para o conhecimento do nosso quotidiano. A verdade, é que a tecnologia digital veio inovar, e muito, tanto as formas de comunicação como de interacção do Homem. É claro que nem tudo é "mel". Pois, existem pontos menos positivos. Por exemplo, a busca de informação privada para fins maliciosos por parte de outrém. De facto, a web toma uma posição de relevância no sistema de novas tecnologias mundial.

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

O "Poder Da Máquina"...

Vivemos em pleno século XXI, na chamada "Era Digital". Embora relativamente recente, este mundo lato mas confinado a um computador com internet, abre-nos as portas do conhecimento e permite-nos fazer coisas que anteriormente eram impensáveis.
Michael Wesch, no vídeo "The machine is Us/ing Us", além de mostrar as vantagens de produzir/expor obras no meio virtual, aponta também as suas potencialidades: é mais fácil e rápido alterar a informação num texto, por exemplo, e este está disponível para um mais vasto leque de pessoas. A forma como o autor apresenta as suas ideias, utilizando o youtube, é já um exemplo das inúmeras maneiras que existem para transmitir uma mensagem ou mesmo criar/expor uma obra. O blogue, por exemplo, também pode ser usado para o efeito.
Para finalizar, outro aspecto que importa ainda focar, é a necessidade que temos de conhecer e usar a web e as novas tecnologias pois só assim nos sentimos integrados nesta "Era Digital". A certa altura já não somos nós que dominamos a máquina, é ela que nos domina, tal como sugere o título deste vídeo de Michael Wesch.

O mundo em movimento...

Na actualidade, pensar um mundo civilizado sem tecnologia não é possível.
O advento da Internet proporcionou ao homem uma série de potencialidades que dois simples objectos, como uma caneta e um papel não lhe proporcionariam. A Web é um campo que cada um de nós pode explorar, com um computador com acesso à Internet podemos superar barreiras físicas, interagir, partilhar, conhecer, informar...
Ao escrevermos em papel estaríamos sujeitos a ter que estar constantemente a apagar, com a Web escrevemos o que nos apetece, apagando e escrevendo novamente, publicamos, expomos vídeos, temos a oprtunidade de nos enriquecermos em termos culturais porque temos uma grande variedade de informação ao alcance de um click.
É esta a temática focada por Michael Wesch no vídeo: "The machine is us\ing us".

Domingo, Setembro 28, 2008

O Mundo Web…

Tal como o vídeo de Michael Wesch nos mostra, a Web é um novo mundo, um mundo que cada um de nós tem a possibilidade de descobrir…um mundo em que quem “manda” somos nós próprios. Pois a Web somos nós.
Contudo e apesar de tudo o que de bom a Web nos oferece, ela pode tornar-se num meio de manipulação de mentalidades e de modos de vida. Mas só depende de nós impedir isso… Este texto que estou a escrever, agora e neste preciso momento, é um bom exemplo. Representa a minha opinião pessoal. E não passa disso mesmo, de uma opinião pessoal. Uma vez que todas as pessoas que o vierem a ler poderão ou não concordar com o que escrevi. Afinal, cada um de nós tem a sua própria opinião, a sua própria maneira de pensar, de agir, de lidar com o mundo... Cada um de nós é um só, uma pessoa única no mundo.
A Web não passa de um mundo de interacções pessoais.


Video de Michael Wesch – “The Machine is Us/ing Us”
http://www.youtube.com/watch?v=NLlGopyXT_g

Sábado, Setembro 27, 2008

"Deseo Desejo Desire" - A multiplicidade do desejo

Três anipoemas eróticos é como Ana Maria Uribe define a sua obra, "Deseo Desejo Desire". A autora brinca com as letras, tornando-as as personagens dos poemas: aqueles que desejam e são desejados. Combinando a música e a animação, "Deseo Desejo Desire" é uma excelente demonstração de como se pode fazer arte fugindo às formas mais tradicionais.

"Deseo", o primeiro anipoema, inicia-se com uma sequência de movimentos de sedução algo rebeldes que visam suscitar o tal "deseo". A esta provocação responde-se com a imposição da força (possivelmente masculina), travando a tal sedução. No entanto, é quem impõe a força que aparece aqui como elemento fraco, pois não resistiu à sedução, deixando-se arrebatar pelo "deseo".

Segue-se "Desejo", em que a palavra aparece escrita com um tipo de letra que nos faz lembrar a Índia, sugerindo um desejo carnal e sexual, plasmado no famoso "Kama Sutra". O anipoema começa a um ritmo suave, com pequenos movimentos das letras. De repente tudo muda! Há uma súbita mudança de ritmo e os movimentos lembram o de uma centrifugadora, e a música passa a um registo ruidoso. É o "desejo" mais violento e selvagem, próprio do sexo.

Por último, em "Desire" assistimos ao tango, o inegável hino de quem deseja. O par de dançarinos segue passos quase geométricos e repetitivos, desejando-se, mas não podendo ceder, pelo menos enquanto a música não acabar (o que se torna dramático, visto esta durar infinitamente...). Este é o "desire" retraído, não pela sua falta, mas pela sua impossibilidade. Não podendo consumar o que sentem, o par condena-se a dançar eternamente, tocando-se, sem nunca se terem.

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

"Deseo Desejo Desire" - As vertentes do desejo

"Deseo Desejo Desire" é um conjunto de 3 anipoemas eróticos que interliga a origem de cada idioma (Espanhol, Português e Inglês) com as possíveis faces do desejo. A autora destes anipoemas, Ana Maria Uribe, emprega uma estreita e íntima relação entre a música, o tipo de letra e o movimento das letras. Esta forte relação entre todos os elementos da animação, transformam estes anipoemas numa amostra interessante do desejo e das suas vertentes.

O primeiro anipoema, "Deseo", revela-se emotivo, com movimentos serpenteantes, mostrando ser um desejo inconsciente que acaba de forma desgarrada e intensa.
O segunda anipoema, "Desejo", começa subtil e dançante, de movimentos quentes, acabando de forma forte, quase destrutiva. Este desejo é certamente uma tendência reprimida, mas repleta de satisfação.
O terceiro e último anipoema, "Desire", que apesar de ter uma música de fortes sentimentos e sensações, a actividade dada aos elementos da animação caracteriza a dança como mecanizada e fria. Um desejo consciente e menos sentido.

É então natural, averiguar que a origem dos idiomas tem um papel importante na criação deste conjunto de anipoemas. Pois "Deseo" e "Desejo", palavras derivadas do latim e de culturas mais quentes, são anipoemas mais recheados de sensações enquanto que "Desire", derivado da língua
inglesa e de uma cultura mais fria, é um anipoema mais duro e cru.

Estes anipoemas de Ana Maria Uribe são um bom exemplo das facilidades que a digitalização cria. "A máquina que nos usa" acaba por nos ajudar na criação de novas formas de literatura e arte, abrindo portas que doutra forma estariam fechadas. Em "Deseo Desejo Desire" as letras ganham vida e, essa vida, só é possível com essa máquina, aquela "máquina que somos nós"...

Análise do vídeo de Michael Wesch como exemplo da retórica digital




Michael Wesch em «The machine is US/ing US» constrói um argumento videográfico sobre a Web 2.0. O que nos diz com esse argumento? Como é construído esse argumento? Quais os elementos da sua retórica digital? Que exemplos são dados das novas possibilidades de comunicação e de interacção mediadas pela tecnologia digital? Que contra-argumentos é possível imaginar? A sua tomada de posição é realmente ambígua, ou não?

Programa 2008-2009

As práticas artísticas e literárias do século XX caracterizaram-se pela reiterada reflexão sobre a materialidade específica dos meios. Este interesse na materialidade dos processos de significação ganhou também um lugar central nas disciplinas que se dedicam à investigação das formas e práticas de produção de sentido, como os estudos literários, os estudos culturais, os estudos artísticos, os estudos dos média, as ciências da informação ou a história do livro. A reflexão sobre a mediação técnica e discursiva conheceu entretanto um novo capítulo com o desenvolvimento da tecnologia digital.

O objectivo deste programa é desenvolver formas de percepção e de análise do meio digital e da sua materialidade específica. A remediação digital da literatura será considerada de duas formas: a) através da observação de objectos bibliográficos transpostos para o meio digital; b) através de objectos originariamente digitais (poesia cinética, hiperficção e outros géneros hipertextuais e hipermédia). É também objectivo da disciplina encorajar a utilização dos recursos oferecidos pelas ferramentas digitais para a produção de formas que explorem criativamente as propriedades dos materiais. A disciplina funciona em regime de avaliação contínua: além da participação através de exercícios orais e escritos (50%), implicará a criação de um projecto de uma obra digital como trabalho final (50%). O trabalho escrito será publicado semanalmente no blogue da disciplina: DigLitMedia: Literatura e Média na Era Digital http://diglitmedia.blogspot.com/

Terça-feira, Junho 19, 2007

"Strings" - palavras de amor

Em strings, apenas com a utilização de uma única linha (cordas, do inglês "strings") que se transforma em distintas palavras, o seu autor conseguiu reproduzir uma discussão (amorosa, provavelmente) entre uma homem e uma mulher de uma forma em que a simplicidade se alia à sobriedade.

A primeira "string", marca o início da discussão.. ninguém quer ceder: aos "sim" opõe-se os "não" (argument). Lentamente os "talvez" começam ocasionalmente a surgir (argument2"), o que deixa antever uma reconciliação (os "talvez" substituem definitivamente os "não" em "flirt" - ou o início da conquista) que se verifica totalmente em flirt2, onde um tímido sim acaba por se emancipar.

Depois seguem-se os risos (cada vez mais constantes em "haha"), as primeiras manifestações de dependência emocional (youandme), onde se está mesmo a ver onde isto vai acabar : nos braços um dos outro, num longo, e reconciliante abraço! (arms). A última string deixa a frase, que não é mais do que a auto-explicação da obra : "as palavras são como cordas que saiem da minha boca"

E não é que são mesmo?

"My body" / "hegirascope" - hipertextualidades

"My body: a wunderkammer", de Shelly Jackson utiliza o formato hipertextual para nos mostrar como a própria identidade, está intimamente relacionada com a descoberta.

Com um simples clicar de rato, a autora dá-nos a possibilidade de a descobrir-mos, não directamente (ou fisicamente, para ser mais preciso), mas através das memórias que ela atribui a determinadas partes do corpo. O corpo no geral, não passa de um armazém para tais memórias, para tais elementos (partes do corpo), as maravilhas referidas no título, aquando da alusão à Wunderkammer (a sala das curiosidades, desordenada e instável como o próprio género hipertextual que a autora escolheu para acolher a sua obra).

Todo este conceito remete-nos para a forma como a identidade passa, não só pela descoberta, mas também pela evolução e auto-consciência das mesmas.

Aliás, a forma como o processo de auto-consciência evolui é representado na apresentação das narrativas: Escolhemos uma parte do corpo e somos brindados com um texto que, num momento inicial nos apresenta uma descrição no presente que serve de ponto de partida para a lembrança que se segue (e que, obviamente, está ligada à parte do corpo representada). No mesmo texto encontramos diversas ligações para outras partes do corpo, algo que vai modificar constantemente a evolução da narrativa.

É a experiência hipertextual por excelência, que se repete no texto "hegirascope", de Stuart Moulthrop, com a diferença que neste texto pode existir uma leitora pre-determinada (embora aleatória), devido ao auto-refresh a que páginas são sujeitas

Ao dar uma vista de olhos ao "prefácio", para além do título sugestivo do mesmo ("WHAT IF THE WORD STILL WON'T BE STILL?" - uma alusão à natureza da obra), é curioso reparar como de 175 páginas se conseguem fazer 700 hiperligações, algo que ilustra a forma como a falta de uma narração linear altera por completo a nossa percepção do texto.

Hiper... coiso

Não há muito tempo, o hipertexto era algo desconhecido e assustador (no fundo tudo o que é desconhecido assusta um pouco), e aparte de alguns especialistas poucos sabiam o seu verdadeiro significado. Hoje em dia o termo vulgarizou-se, mas no entanto, continuam a ser poucos a saberem defini-lo correctamente.

Tudo começou em 1945, quando Vannevar Bush idealizou a "Memex" (conceptualizada na imagem que ilustra este texto), aquela que seria a primeira máquina hipertextual da história, que só viria a ser identificada desta forma quando Ted Nelson utilizou o termo "hipertexto" pela primeira vez, durante os anos 60 (se seguirem esta ligação hipertextual, terão acesso ao artigo). O texto imprenso apresentava uma série de limitações que só a informática poderia quebrar, através do salto físico e técnico até à hipertextualidade abrindo uma porta para uma mundo cheio de possibilidades.

Tradicionalmente, a escritura sempre se produziu e transmitiu de uma forma sequencial, e os suportes apenas permitiam a leitura linear. Com a "chegada" do hipertexto, essa concepção sofre um forte abalo, visto o texto deixar finalmente se ser uma "linha recta".

Para além de oferecer uma nova forma de organizar a informação (com consequências lógicas ao nível da concepção do documento), o aparecimento do hipertexto tem enormes consequências na concepção clássica dos conceitos de "autor" e "leitor".

O hipertexto permite diferentes leituras e diferentes níveis de profundidade de leitura, e também abre a porta para a interactividade. O leitor passa de receptor passivo de informação, a utilizador de dada informação, e a obra, outrora inflexível, converte-se em instável.

Hoje em dia, o hipertexto tornou-se algo omnipresente, provavelmente pela necessidade actual em "mostrar" em vez de "contar", e converteu-se em algo tão habitual que se tornou invísivel...

... Não acreditam?... mas então...

... afinal de contas o que é este blogue se não parte dessa ferramente hipertextual por excelência, denominada World Wide Web?

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Apresentação dos projectos finais

A apresentação oral dos projectos finais terá lugar no próximo dia 20 de Junho, quarta-feira, na sala de seminários do Instituto de Estudos Ingleses, 6º piso, a partir das 10h00.

Bp Nichol - Poem Poem

Gravado em 1972, ainda bem distante da era "Internet" e "web 2.0", nesta obra sonora sobressaiem algumas semelhanças em relação a alguns poemas analisados nas aulas.
A vontade de criar algo novo, diferente, e especialmente, espontâneo, era uma característica dos "the four horseman", grupo onde actuava Bp Nichol.
No YouTube, encontra-se um clip retirado de uma actuação ao vivo em 1981 (a quem estiver interessado em ouvir algo realmente demencial aqui está o endereço completo: http://www.youtube.com/watch?v=ahUdQd_YtwM).
De regresso ao Poem Poem, trata-se de um poema curto e repetitivo(aqui está a letra http://scorecard.typepad.com/photos/uncategorized/nv15002.jpg ), cujos versos traduzem a omnipresença do poema em todo os orgãos do corpo humano.
Esta espécie de celebração da poesia foi também recriada pela poesia concreta de Augusto de Campos uns anos mais tarde e com recurso aos meios digitais.

Quinta-feira, Junho 07, 2007

Hegirascope de Stuart Moulthrop

Quando visualizamos a pagina aparecem – nos duas coisas; um poema (em inglês) e quatro links á volta desse poema (com títulos de outros poemas que também estão escritos em inglês). Este trabalho é muito parecido com o texto my body de Shelley Jackson. A única diferença reside no facto de haver um temporizador pré – definido que faz com os poemas passem automaticamente. Isto pode por um lado levar a que o leitor se concentre mais no poema mas por outro também pode levar a que leitor fique frustrado por não ter acabado a leitura a tempo. Para alem disto o leitor é capaz de escolher o poema que quer ler através das hiper ligações anteriormente mencionadas.
Em suma, este texto, apesar de ter sido organizado de forma semelhante ao do da Shelley Jackson, apresenta alguns defeitos.

Shelley jackson - my body

O texto My body (de Shelley Jackson) é, na minha opinião, bastante interessante. A primeira coisa que vemos quando abrimos a pagina é um corpo feminino. As diferentes partes do corpo estão identificadas e para além disto tem cada parte um chamado link. Se entrarmos num desses linkis, vai nos aparecer uma história (relativamente a parte do corpo que foi anteriormente seleccionada) de forma muito pormenorizada (as vezes são tão pormenorizadas que ate provocam arrepios). Dentro desse link poderá eventualmente haver um link para outra parte do corpo, dado que em certas situações ela estabelece relações entre vários membros do corpo. Desta forma a autora partilha com os leitores as experiencias e sensações que sentiu com cada parte do corpo ao longo dos anos.

A literatura “labiríntica”

Segundo a lenda da mitologia grega, o labirinto era constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre. Dentro do labirinto vivia um monstro lendário chamado Minotauro que matava todas as pessoas que se atreviam a entrar no reino dele.
Aplicando isto á literatura, pode-se dizer que um labirinto é por exemplo, um romance com enredo complicado ou cuja narração não é linear, dito de forma mais simples, é quando o leitor é incapaz de imaginar a sucessão de lógica dos acontecimentos de uma determinada historia, dado que o texto esta estruturado de uma forma muito complicada. Isto pode dar origem a que o leitor se “perca” no texto. Neste contexto também se pode aplicar a teoria de muitos caminhos estarem errados e que dêem sempre a becos em saída, enquanto que haverá um caminho que leve o leitor até ao centro, até verdade e á verdadeira mensagem e correcta interpretação de texto.

Message clear

Neste texto aparecem as palavras de forma solta ou incompleta, o que permite ao leitor fazer varias combinações. Isto pode dar origem a que o sentido do texto varie consoante ao gosto do leitor, ou seja, o leitor tem um papel fundamental, decisivo e activo no que diz respeito ao desenlace do texto. Para sermos capazes de fazer tal tarefa temos que analisar o texto de forma lógica.
Neste texto dá para ver novamente que é fundamental conhecer (e, neste exemplo, é preciso conhecer muito bem) o código em que o texto está escrito. Pois sem sabe-lo seríamos, de certa forma, incapazes de produzir um texto coerente.

Augusto de Campos SOS

O cenário com que nos deparamos quando abrimos o hipertexto chamado SOS (de Augusto de Campos) é um fundo completamente preto a partir do qual vão surgindo palavras. E enquanto que elas vão aparecendo, há uma pessoa que as lê em voz alta.
Tendo em conta a maneira como esta pessoa lê as palavras (que de pouco a pouco vão formando frases), chega-se á conclusão de que ele está a fazer uma série de perguntas ao leitor. A pergunta que nos faz é o que é que faremos após de estar tudo acabado.
Após ter visto uma segunda vez o hipertexto (ou seja sabendo já o fim), somos capazes de dar uma nova interpretação a parte inicial; EU, NOS….penso que o autor quer dizer que todos, mais cedo ou mais tarde, vamos ter o mesmo destino, ou seja estamos interligados uns com os outros, e que no final vamos estar sozinhos, ou como diz o autor, sós…..

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Loch ness monster's song

O poema loch ness monster’s song de Edwin Morgan, é um mistério para qualquer pessoa que o tenta ler. Pois, fora do título e da pontuaçao, somos incapazes de decifrar a mensagem que o poema nos tenta transmitir. Isto revela a necessidade de saber o código atraves do qual somos capazes de compreender textos.
Olhando para o título, apercebemos nos de que se trata de uma canção e de acordo com a pontuação a criatura deve estar-se a questionar a cerca de algo.
Depois de termos ouvido a faixa sonora, na qual podemos ouvir o próprio Edwin Morgan a ler o poema (com um tom de voz bastante agressivo), chegamos á conclusão (ou pelo menos foi esta a interpretação que eu lhe dei) de que a criatura poder-se-á estar a queixar de alguma coisa.
Em suma, este poema é muito subjectivo....dado que nao sabemos exactamente de que é que o texto fala.

"Hegirascope" by Stuart Moulthrop

Essa obra é um "hypertext novel", composta por estorias com diferentes temas( referências aos sonhos, televisão, medicamentos...).
Em cada pagina, o leitor tem escolha de quatro links que são colocados ao lado do centro do texto. Há várias lexias(separadas ou ligadas) e estão pré-programadas visto que se o leitor não selecionar um dos quatro links num atribuido periodo de tempo( vinte a trinta segundos), a pagina muda automáticamente para outra pagina sem o consentimento do leitor, existe uma temporalidade de leitura nessa obra. Links como "black" ou "white", leva o leitor para uma pagina que aparece vazia e a única forma de fazer o link aparecer na pagina é clicar no rato uma vez que a ceta tem transformado em mão para indicar que há um link...
E extremamente dificil saber exatamente para onde estamos a ir no texto "Hegirascope" porque parece não existir absolutamente uma ordem em que as páginas nos são apresentadas. Mesmo se permitirmos que o romance se avance sem selecionarmos os links, é dificil de se seguir e em maioria dos casos fica mais confuso do que se selecionarmos os links.

Domingo, Junho 03, 2007

" O jardim dos caminhos que se bifurcam"

Ao longo dos tempos existiram sempre autores que de uma maneira ou outra tentaram libertar a sua arte dos limites anteriormente estabelecidos. Com efeito, um dos bons exemplos desta tentativa é o conto da autoria de Jorge Luís Borges, “ O jardim dos caminhos que se bifurcam”.
Assim, neste conto classificado pelo autor como policial, é narrado o percurso do personagem principal, cujo nome é Yu Tsun, da cama até o jardim em que comete um assassinato como estratégia de sua missão de espionagem. A sua futura vítima chama-se Stephen Albert, e é sujeito que fora encarregado de decifrar um enigma do livro escrito por Ts’ui Pen, um antepassado do próprio protagonista, que tinha abandonado sua próspera vida (era governador de sua província, doutor em astronomia, em astrologia, enxadrista, calígrafo e famoso poeta) para compor um labirinto e um livro. No entanto, o enigma revelado por Albert é justamente que o livro e o labirinto são o mesmo objecto. A chave para a descoberta estava num fragmento de uma carta deixada por Ts’ui Pen, no qual estava escrito: “Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurc".
Deste modo, a temática principal do conto em questão é a do tempo, sendo ao leitor apresentada uma história repleta de alusões e associações dentro dela mesma, com se fosse um labirinto num exercício de narrativa que assume formas diferentes de tempo e de espaço.
Neste contexto, este conto pode ser chamado metaforicamente de "hipertextual" porque refere-se a alguns outros textos através de conexões e associações que podem ou não ficar a cargo do leitor. É uma obra que, de certa forma, subverte a noção de texto tradicional, apontando para a actividade do leitor em seguir caminhos variados em histórias multiformes.
Em suma, podemos concluir que este texto pode ser associado à uma literatura "pré-hipertexto", porque nela o autor tentou romper com o espaço limitado da página impressa, fazendo exercícios narrativos em termos de associações do pensamento e também do próprio objecto textual.

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Viagem Hegirascope

Esta obra de hiperficção apresenta-se no ecrã como um texto rodeado de 4 hiperligações laterais e cada uma delas por sua vez dará para outra página com a mesma estrutura. O texto central vai-se alterando segundo uma sequência temporal programada ou pela activação das hiperligações. O tempo de mudança automática da sequência é por vezes mais rápido que o tempo de leitura, provocando alguma desorientação ou mesmo irritação ao leitor.
É difícil ter uma percepção clara de toda a obra porque esta não é objectiva em termos de factos ou personagens e instintivamente o leitor procura no texto uma coerência ou relação causa/efeito que dê sentido à narrativa.

Não havendo uma sequência de leitura pré-determinada, a história está semi-definida, requerendo maior grau de participação do leitor e daí ser o verdadeiro exemplo de uma obra interactiva.

Quarta-feira, Maio 30, 2007

14+8=22 (últimos sumários)

«hegirascope» (1997), de Stuart Moulthrop.


Para os sumários anteriores ver «As primeiras 7 aulas (sumários)» e «7+7=14»

Lição 15, 09-05-2007
Continuação da aula anterior.
1. Exemplos de escrita automática.
1.1. Escrita automática computacional
1.1.1. A formalização explícita das regras
1.1.2. Iteração e combinação semi-aleatória de sequências
1.1.3. Como se lê uma obra cibernética?

Leituras exemplificativas
Fernando Pessoa, «escritos automáticos» (1916-1917)
Tristran Tzara, «Manifestos Dada» (1918-1922)
André Breton, «Manifesto Surrealista» (1924)

Obra
Maria Damon & MIEKAL AND, semetrix


Lição 16, 11-05-2007
1. Cibertextos antes dos computadores
1.1. Regras e códigos na significação e na criação literária
1.2. Modalidades de participação do leitor no texto ergódico
2. A fenomenologia da leitura: letras e espaços no acto de leitura
2.1. A escrita como notação
2.2. A função da voz na poesia sonora
2.3. O som e o corpo

Obras
Edwin Morgan, «Message Clear» (1965)
Américo Rodrigues, «zip fluxus» (2003) e «carne» (2003)
Jorge dos Reis e Américo Rodrigues, «trânsito local trânsito vocal» (2005)


Lição 17, 16-05-2007
1. O triângulo autor/a-texto-leitor/a
1.1. O/A leitor/a como hermeneuta
1.2. O/A leitor/a como construtor/a
2. Poesia digital animada
2.1. Espacialidade
2.2. Temporalidade
2.3. Espaço e tempo na leitura

Obras
Edwin Morgan, «unscrambing the waves at goonhilly» (1967)
Manuel António Pina, «House of Life», in Os Livros, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 49.
Tiago Gomez Rodrigues, «concretus: um concretismo animado» (2002)



Lição 18, 18-05-2007
A ficção em hipertexto. Projecção e análise da obra «My body: a wunderkammer» (1997), de Shelley Jackson.
1. Hiperficção: princípios de organização da obra
1.1. O texto sob o ponto de vista da autora
1.1.1. Organização topográfica: a estrutura como mapa
1.2. O texto sob o ponto de vista do/a leitor/a
1.2.1. Percursos de leitura possíveis
1.3. Qual a relação entre modos de ler e o sentido da obra?

Obras
Manuel Portela, escrita 1/ escrita 2 (1992; versão digital, 2002)
Michael Wesch, The Machine is Us/ing Us (2007)
Shelley Jackson, «My body: a wunderkammer» (1997)

Leitura recomendada
Squeo, Alessandra (2002): “Hyperfiction: ai confini del racconto”, in Macchine per raccontare: Introduzione alla Hyperfiction, Lecce: Edizioni Pensa Multimedia, pp. 59-106.


Lição 19, 23-05-2007
1. «My body: a wunderkammer» (1997), de Shelley Jackson
1.1. A experiência do próprio corpo: crescimento e transformação; identidade sexual
1.2. A auto-representação do corpo: descrição no presente (presente da escrita); a memória de uma parte do corpo; narrativa de acontecimentos associados a partes do corpo
1.3. Percursos possíveis entre lexias
1.4. A memória como colecção de fragmentos e ligações entre fragmentos
1.5. A consciência do corpo como hipertexto

Leitura recomendada
Chaouli, Michel (2005): “How Interactive Can Fiction Be?”, in Critical Inquiry, Vol. 31, Number 3, pp. 599-617.


Lição 20, 25-05-2007
Aula substituída pela mesa-redonda «Poesia e Violência» (VI Encontro Internacional de Poetas).


Lição 21, 30-05-2007
1. O que é a interactividade?
1.1. Graus de participação do/a leitor/a
1.2. Ficheiros dinâmicos: a obra semi-determinada
2. A temporalidade na obra
2.1. O tempo na narrativa e o tempo na leitura
2.2. O movimento dos signos e o movimento da leitura

Obras
Projecção e análise da obra «hegirascope» (1997), de Stuart Moulthrop.
Projecção e análise da sequência de poemas cinéticos «strings», de Dan Waber.
Projecção e análise da sequência de poemas «stir fry texts», de Jim Andrews.


Lição 22, 01-06-2007
1. Qual o futuro da literatura digital?
1.1. Convergência dos média e hibridez das formas
1.2. Projecção e análise de «Donnie Darko»: um caso de multi-remediação
1.3. Análise do modo como imprensa, televisão, cinema, telefone, fotografia, música gravada, poema, romance, jogos de computador e a própria web são remediados nesta obra

Obras

Projecção de «Donnie Darko»
Stephen Malinowsky, Chopin, Nocturno, opus 27, Nº 2

Sexta-feira, Maio 25, 2007

a metáfora do corpo

Em My Body Shelley Jackson conseguiu metaforizar a autoconsciência do seu corpo através de uma obra de hiperficção segmentada em três dimensões narrativas - uma de observações, descrições, feitas no Presente ficcional, a determinada parte do corpo (primeira), que despertam uma memória relaccionada com essa parte (segunda), e se transformam em curtas narrativas de acontecimentos passados, dentro da mesma linha (terceira). Em qualquer um destes parágrafos, encontramos hiperligações que nos transportam para uma nova página onde - por semelhanças nem sempre semânticas mas sempre coerentes (e nunca aleatórias, ainda que pareçam, como as hiperligações nunca o são) - encontramos novos e novos textos, em cadeia labiríntica. É portanto uma dupla metáfora - a do corpo, e da da memória. Tal como o meio digital, com a sua multiplicidade de links e bifurcações, o corpo humano é um todo composto de parte autónomas e interdependentes. Tal como o meio digital, a Memória é um conjunto de recordações dispersas e interligadas, às quais chegamos pelos mais improváveis percursos de pensamento - percursos esses que modificam a forma como as vemos, ainda que aparentemente estáticas e finitas no Espaço e no Tempo - passados. Da mesma forma, para compreender a obra de Shelley na sua totalidade não basta ter todos os textos lidos. Há que ler todas as sequências, pois um percurso diferente é passível de gerar novas dimensões de significação - umas mais significativas que outras.
Para metaforizar o autoconhecimento do corpo, a autora encontrou ainda dois planos de representação. Um de consciência sensorial - conhecimento do corpo através de sensações tácteis -, e outro de representação pictórica - dependente da sua perspectiva pessoal e das suas capacidades técnicas, por assim dizer, de o fazer. São, respectivamente, o plano da narrativa e o plano do desenho. Talvez um dos motivos que a tenham levado a acrescentar desenhos seus à sua obra, seja a intenção de mostrar aos leitores a sua visão pessoal, para os ajudar a entrar no jogo, por assim dizer. Na segunda página da obra, a seguir ao título, entrega ainda o seu corpo ao jeito de índice, procurando fugir à leitura segmentária típica do códice. Porém, penso que esta técnica resultaria tanto num como noutro meio. Se a obra de Shelley fosse transposta para um livro impresso, a página a seguir à capa podia ser também o mesmo desenho do seu corpo, com uma nota indicando o número da página, ao lado de cada parte do corpo. Por exemplo, "<- Braço (pág. 47)". Lá ia o leitor até à pág 47 encontrar o texto referente a braço. A meio desse, encontrava "xpto [sublinhado] (pág 102)". E seguia até à pág 102, por aí fora. Claro que, tal como foi referido na aula, pode surgir a tendência de ler o texto todo de seguida, da cabeça aos pés, mas também na obra digital alguém poderia escolher esse método de leitura, num Back/Forward de algumas horas. Tanto numa como noutra hipótese, a curiosidade despertada pela simples existência de notas ou hiperligações é bem mais interessante. Aliás, o leitor atento concluiria rapidamente que ler o texto todo de seguida não faria o mesmo sentido, não teria o mesmo seguimento lógico. Existem já vários livros assim e poucos devem ter tido a triste paciência de ler o livro todo ordenadamente e não perceber a história.
Ainda assim, a metáfora principal, do Espaço, do corpo convertido num "gabinetes de curiosidades", está bem de acordo com o percurso espacial, com a configuração de signos em espaços virtuais que simulam um espaço real à espera de ser percorrido, típicos do meio digital.

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Hiperficção

"A página se converte na tela, a tela substitui a página. Poderíamos chamar a este movimento de substituição de ‘história’. Os textos eletrônicos se apresentam a si mesmos em meio de sua dissolução: se lêem onde se escrevem, e se escrevem enquanto se lêem" (Joyce, 1998, p. 280).


O aparecimento dos computadores pessoais e o desenvolvimento de programas específicos trouxeram novas potencialidades à narrativa. Deste modo, em meados dos anos 80, Michael Joyce, coordenador do Centro de Narrativa e Tecnologia do Jackson Community College e J. Bolter, criaram um programa, desenvolvido pela Apple Macintosh, a que deram o nome de Storyspace. Este software, integrando já a tecnologia hipertexto, permite unir textos ou fragmentos de textos conforme o autor desejasse.
Neste contexto, a hiperficção pode ser definida como um texto com várias opções de continuação (bifurcações), através de links à escolha do leitor, que por isso acaba por ter a possibilidade de criar a sua própria história, sua própria obra. De facto, a ficção em hipertexto assemelha-se a um jogo, cuja estrutura é um labirinto a ser decifrado.Assim, cabe ao leitor participar activamente neste jogo, que começa no momento em que o hipertexto é posto na Web, fazendo da sua leitura a continuação para o jogo. Na verdade, o jogo não tem quaisquer regras, sendo ao leitor atribuída a possibilidade de iniciar e terminar onde quiser.
Um dos exemplos desta espécie de obras é a produção literária de Shelly Jackson intitulada “ My Body”, composta por imagem do corpo feminino, que permite ao leitor, ao carregar numa determinada parte do corpo, seguir a hiperligação para um ou vários textos constituidos por memorias da autora relacionadas com estas mesmas partes do corpo.

Quarta-feira, Maio 23, 2007

"My Body" by Shelley Jackson

Shelley Jackson apresenta nos essa obra digital como uma memória da vida dela ou seja pode se dizer que é a sua autobiografia. Ela pega no seu corpo e representa o corpo da mulher em geral. Retrata a sua vida exemplificando o percurso possivel na vida da mulher.
Através dessa obra vê-se que a mulher é conhecida parte a parte através do seu corpo. Ao clicarmos em cada link encontramos o relato de uma parte da vida dela e hiperligaçoes que nos leva para outras partes da vida dela. pode se dizer que os links representam etapas da vida da autora.
Essa obra tem uma particularidade que é a de fornecer ao leitor diferentes percursos de leitura, ou seja pode ser lida de uma forma não linear por exemplo começando no estomago e saltar pela cabeça ou descendo aos pés... Isso normalmente não acontece na leitura de um livro impresso em que fariamos uma leitura já mais linear e dificilmente saltariamos folhas o que podia dificultar a compreensão.
A forma como ela apresenta a obra desperta a curiosidade no leitor uma vez que é apresentada como um jogo labirintico enrequecida com imagens em que o leitor pode ver como um desafio em ler a maior parte possivel da obra porque já de ler até ao fim pode se dizer que é impossivel.

Corpo / Escrita

Nesta criação percebe-se que escrita e corpo se encontram em sintonia. Não só o título o sugere como a própria organização do texto.
O corpo descrito com palavras, as palavras a concordarem com as imagens do corpo, palavras estas que descrevem uma sensação, uma recordação próxima ou mais distante ainda, remontando aos tempos de infância. E, mais uma vez o corpo, ou as suas diferentes partes constituintes, como mera superfície para se chegar a uma mensagem. É assim combinada a visualização e o texto.
Deste modo, nota-se que na conjunção de géneros e acções se encontra uma fonte para se experimentar não só a mensagem, mas o meio por onde corre esta mesma mensagem.

Quanto à sua leitura, pode ser realizada quer aleatoria, quer linearmente - como o leitor melhor desejar. De uma ou de outra maneira, entramos no poema propriamente dito, ao clicarmos numa das partes do corpo apresentado na página principal. Já dentro de cada divisão, acedemos às diversas hiperligações aí existentes sendo assim levados para uma outra parte.

Este tipo de arte desvia-se dos estereótipos, dos comuns juízos de gosto e põe em causa antigos padrões de comportamento.

Terça-feira, Maio 22, 2007

"My Body, a wunderkammer"

Um “wunderkammer”, “wonder-room” ou “gabinete de curiosidades” é um quarto onde se reuniam todo tipo de objectos que resultassem estranhos ou raros. Estes, surgiram durante a época dos descobrimentos da Europa, ou seja, nos séculos XVI e XVII, o que se corresponde com o Renascimento. O fim destes quartos era recolher diferentes objectos pertencentes aos três reinos conhecidos até o momento (animal, vegetal e mineral) como se de um museu se tratara.

Shelly Jackson apresenta-nos o seu corpo como um “wunderkammer”. Um “wunderkammer” feito a partir de uma colecção de relatos estranhos, ao mesmo tempo que surpreendentes, sobre cada uma das partes do seu corpo.

O corpo de Shelly Jackson seria um museu, onde cada parte constituiria uma sala. Em cada sala se encontrariam as diferentes anedotas e originais histórias sobre o seu corpo. Ao mesmo tempo, cada sala estaria interligada com o resto sem seguir uma ordem específica.
Assim, uma vez que estamos dentro do "wunderkammer", podemos estar interessados em conhecer a história da mão. Depois podemos descobrir o relato do pé, passando pelo cotovelo, a cabeça, as tatuagens... Voltar à história da mão porque gostamos mesmo dela...
Shelly Jackson convida-nos a perder-nos e a desfrutar do seu corpo do mesmo modo que podemos fazê-lo num museu.
Saltando de sala em sala...

Segunda-feira, Maio 21, 2007

O corpo de Shelley Jackson

Shelley Jackson conta em “My Body” estórias de cada parte do seu corpo - peripécias, curiosidades, dúvidas com que se confrontava na sua adolescência, episódios que a acompanharam durante o seu crescimento.
Curiosamente não estamos perante um livro no qual iríamos,provavelmente, estar sujeitos a uma ordem lógica: a começar, por exemplo na cabeça e a acabar nos pés. Estamos antes a falar uma obra publicada on-line.Uma obra que se pode inserir na categoria da hiperficção,visto que a partir de um elemento podemos aceder a vários outros e assim sucessivamente, entrando no universo da multi-sequencialidade, em que as formas de percorrer a obra variam consoante as escolhas do leitor.
Em “My Body” é-nos apresentado um corpo de mulher em que as partes do corpo são links para uma nova página em que surgem textos autobiográficos sobre a parte em que clicámos.Mais uma vez surgem novos links que podem levar-nos a outra parte do corpo ou a um outro texto paralelo.
A autora consegue, deste modo, suscitar o interesse do leitor que clicando sobre o corpo nu vai conhecendo a história daquela mulher , ao contrário do que aconteceria no suporte tradicional,em papel, em que o leitor se limitaria a folhear as páginas e teria mais dificuldade em “saltar“ de uma parte para outra.
É possível ler todos os textos que constam nesta hiperficção,mas, na minha opinião, poderá não ser possível chegar ao fim da obra porque as possibilidades de combinação são imensas, proporcionando diversas experiências de leitura.

Domingo, Maio 20, 2007

"My Body"

Após uma análise mais aprofundada do texto “My Body”, penso que podemos considerá-lo uma autobiografia, embora esta não esteja elaborada da forma convencional.
Com a realização deste texto, a autora dá-nos a possibilidade de a ficarmos a conhecer de uma forma mais profunda.
Apenas através do clicar do rato em variadas palavras, o leitor vai sendo presenteado com diferentes textos que ajudam a conhecer mais um pouco da autora.
A vantagem deste tipo de texto para o leitor é que lhe dá a possibilidade de iniciar a análise do texto fugindo à sua forma convencional numa biografia (que seria começar no nascimento da pessoa e seguir até ao momento actual da sua vida ou até à sua morte), o leitor pode então livremente iniciar a sua leitura do texto de forma aleatória começando na imagem que quiser.
Neste texto é apresentado ao leitor a imagem de um corpo feminino onde estão em evidência partes do corpo distintas, bem como os seus diversos nomes, e onde ao leitor é permitido clicar livremente, acedendo assim aos diferentes textos.
Este tipo de apresentação do texto ganha muito do seu ponto de vista organizacional, visto que para além do leitor ter a possibilidade de explorar o texto livremente, pode também fazê-lo de uma forma muito mais organizada e seguindo parte por parte.
Na minha opinião pessoal este texto está muito bem conseguido, pois a contrário de muitos outros textos, neste o leitor tem a primazia sobre qualquer escolha que faça.

O corpo como um labirinto em que se toca.

Começa por ser estranho. Ao aceder à página de entrada de The Body, de Shelley Jackson, deparamo-nos com uma tela que surge como se nos dissesse “olá. sejam bem vindos ao meu corpo”. Depois clicamos sobre essa tela. E não sabemos, ainda, que esse é o acto-chave de toda a obra que se nos apresentará depois daquele primeiro clique.
A imagem que então se nos apresenta é a imagem desenhada do corpo de uma mulher, sexo feminino exposto, uma adulta ainda jovem. Embora todo o corpo esteja representado na ilustração, o traço não é contínuo; isto é, é dado especial atenção e ênfase na representação de cada uma das partes que constitui o corpo e não no corpo como fluxo contínuo dessas mesmas partes. Aqui, o todo que é mais do que a soma das partes é diferente do todo que é formado pela soma das partes.
Este corpo nu, numa primeira visão apresentado como sendo o corpo de uma mulher neutra, inexistente, ou o corpo de Shelley, pode também representar o corpo de cada um de nós, o corpo do Homem. ( E aqui, mais uma vez, esta parte representa um outro todo, universal e abrangente.)
Ao movimentarmos o cursor do rato por cima dessa ilustração monocromática (talvez, ideia de simplicidade do corpo), apercebemo-nos de que cada uma das partes destacadas nos permite seguir uma hiperligação estabelecida através de novo clique. A concentração em cada uma das partes do corpo em detrimento do ‘esquecimento’ de todas as outras e do conjunto que todas elas formam- tal como na atenciosa concentração de exercício de yoga-, vai, assim, mais adiante, ao permitir que o leitor/ explorador se chegue mais à frente em cada uma das partes que lhe são mostradas.
A página seguinte, é sempre uma página que não fora estabelecida para ser apenas a seguinte. Se acedermos a “knees”, por exemplo, deparar-nos-emos sempre com a mesma página; porém, também a ela poderemos aceder através de hiperligações constantes noutra qualquer página correspondente a outra qualquer parte do corpo.
O texto constante em cada uma dessas páginas é um mais ou menos breve texto reflexivo acerca de cada uma das partes correspondentes- e surge acompanhado quase sempre por outra imagem da respectiva parte do corpo; remetendo para a ideia de que o corpo não é sempre igual, nem ao longo do tempo, nem de acordo com as diferentes perspectivas.
Não obstante o interesse literário e estético que o texto em si possa conter, o que nos interessa aqui afirmar, a meu ver, é a exímia representação que o texto de Shelley Jackson faz, não só do sistema de hipertexto- onde a tarefa do leitor é sobremaneira importante-, mas também, de forma inferida, do texto linear e dito convencional, onde a ideia de que a estrutura deste segue um esquema em árvore tem vindo a ser esbatida ao longo dos últimos tempos. Em sua parcial substituição tem surgido o modelo de ramificação em rede e/ou labiríntico. Modelos aos quais O Corpo de Shelley Jackson se estende.