terça-feira, maio 08, 2007

Dadaísmo


Embora a palavra dada em francês signifique cavalo de brinquedo, a sua utilização marca o non-sense ou falta de sentido que pode ter a linguagem (como na língua de um bebé). Para reforçar esta ideia foi criado o mito de que o nome fora escolhido aleatoriamente, abrindo-se uma página de um dicionário e inserindo-se um marcador sobre a mesma. Isso foi feito para simbolizar o carácter anti-racional do movimento, claramente contrário à Primeira Guerra Mundial.

O Dadaísmo é caracterizado pela oposição a qualquer tipo de equilíbrio, pela combinação de pessimismo irónico e ingenuidade radical, pelo cepticismo absoluto e improvisação. Enfatizou o ilógico e o absurdo. Entretanto, apesar da aparente falta de sentido, o movimento protestava contra a loucura da guerra. Assim, a sua principal estratégia era mesmo denunciar e escandalizar.

A princípio, o movimento não envolveu uma estética específica, mas talvez as formas principais da expressão dadá tenham sido o poema aleatório e o ready made. A sua tendência extravagante e baseada no acaso serviu de base para o surgimento de inúmeros outros movimentos artísticos do século XX, entre eles o Surrealismo, a Arte Conceitual, a Pop Art e o Expressionismo Abstracto.

O poeta romeno Tristan Tzara, um dos principais representantes do movimento, dá uma receita, no seu último manifesto, para fazer um poema dadaísta:

Pegue um jornal,
Pegue a tesoura,
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema,
Recorte o artigo,
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco,
Agite suavemente,
Tire em seguida cada pedaço um após o outro,
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco,
O poema será parecido com você,
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Escrita automática

Uma das principais ideias trabalhadas pelos surrealistas é a da escrita automática, segundo a qual o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra.
Escrita automática é, alegadamente, escrever dirigido por um espírito ou, fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud, pelo inconsciente na actividade criativa.

Os seus defensores afirmam que o processo permite que se aceda a um “eu” mais elevado, bem como a outras inteligências e entidades; permite a obtenção de dados anteriormente inacessíveis da mente subconsciente; e liberta a energia espiritual para revelação e crescimento pessoal.
É muito provável que muitos desejos e ideias se exprimam na escrita automática, mas não é provável que seja mais que as noções da própria pessoa. Crescimento pessoal pode ser melhorado com a escrita automática se for avaliada reflexivamente e com inteligência. Por si só, a escrita automática não produz mais crescimento ou revelação que qualquer outra actividade humana.
Este tipo de escrita é um dos mais poderosos meios para a libertação da criatividade.
As características deste estilo são a combinação do representativo, do abstracto, e do psicológico. Segundo os surrealistas, a arte deve libertar-se das exigências da lógica e da razão e ir além da consciência quotidiana, expressando o inconsciente e os sonhos.

O principal teórico e líder do movimento é o poeta, escritor, crítico e psiquiatra francês André Breton, que em 1924 publica o primeiro “Manifesto Surrealista”. No manifesto e nos textos teóricos posteriores, os surrealistas rejeitam a chamada ditadura da razão e os valores burgueses como pátria, família, religião, trabalho e honra. Humor, sonho e a contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as ideias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas.

Esta escrita consiste...
... em ter uma folha de papel, escrever tudo o que vem à cabeça, o mais rapidamente possível. Não parar para ler o que já se escreveu nem dar atenção ao respeito ou não que se está a ter pelas margens ou pelas normas de ortografia. Apenas se deve escrever, incessantemente, durante um determinado tempo ou até cansar. Caso algum bloqueio apareça, é escrevê-lo! O importante é não parar. No início a tendência é escrevr coisas díspares, sem sentido (aparente), palavras ou frases soltas. Mas, com a práctica, é possível escrever textos quase acabados, com abordagens originais, sinceras e criativas!

Virtualização

O texto digital constitui o protótipo da virtualização. O papel que podia amarelar-se com o passar dos tempos, a letra escrita à mão, a pressão no papel... Os significantes que habitavam o texto escrito perdem lugar. No ecrã, eles são filtrados , substituídos por outros significantes nada palpáveis. Um tipo de letra, uma imagem, um áudio, um texto formatado que dirá deste outro tudo aquilo que se pode construir a partir da rede de símbolos que me é transmitida. De concreto, só a máquina.
O hipertexto diferencia-se do texto tradicional por não comportar a linearidade. A metáfora utilizada para o primeiro é a de uma rede: o hipertexto enquanto tecido, compondo-se de entrelaces. Mas o texto tradicional também se constitui como uma rede. Se leio um livro é certo que conceitos, palavras ou nomes me remeterão à busca de um maior esclarecimento sobre eles. No texto tradicional os entrelaces existem, mas não são colocados de forma tão explícita e provocativa como no texto digital. Neste, entrelaces estão visíveis e provocam, aproximam e convidam a participar. É pela disponibilidade com que se apresentam os actualizáveis caminhos no hipertexto que o dizemos móvel, fluído. Também porque linear sugere uma coisa atrás da outra, sugere o concreto, a sequência, a hierarquia, as palavras impressas dos textos escritos. No hipertexto, o leitor segue por caminhos inéditos e, desta maneira, contribui como um verdadeiro escritor para a construção infinita do texto. Através dos sentidos que o texto o faz produzir, o leitor vai produzindo sentidos num escrever que se torna colectivo.
E o primeiro indício da virtualização - como já mencionamos anteriormente - é a sensação de desassossego que sentimos frente às constantes mudanças. A velocidade do sistema online torna o tempo para tudo mais estreito. A rapidez com que uma ideia se actualiza e é substituída por outra, parece ser a mesma que faz com que tenhamos que nos reconstruir dia a dia. Reflecte claramente a descartabilidade das coisas no mundo actual.

Escrita vs Leitura

A escrita precisa de um sentido para quem lê, pois saber ler não pode ser representar apenas a descodificação dos signos, dos símbolos. Ler é muito mais que isso; é um movimento de interacção das pessoas com o mundo e delas entre si e isso adquire-se quando passa a exercer a função social da língua, ou seja, quando sai do simplismo da descodificação para a leitura e reelaboração dos textos.

A leitura e a escrita têm vindo a ser consideradas duas capacidades linguísticas distintas que devem ser estudadas separadamente. Mas, ler e escrever só existem como relação, entre uma e outra. A escrita está para a leitura como o acordar está para o adormecer, como o dar para o receber. Um acto pressupõe o outro. Os dois actos, juntos, são um só mas ao mesmo tempo mantêm-se separados.

O que quer que escrevamos e onde o fazemos, escrevemos para dar a conhecer ideias a outros. Mas não para qualquer um. Escrevemos com um propósito e com o intuito de atingir uma audiência em particular.
Independentemente do que escrevemos, temos que decidir o que dizer. Temos de escolher palavras e modelar frases, construir ideias sólidas.
Nem todas as palavras, frases e ideias servem - têm que se adequar a um propósito. E para o fazer, precisamos de realizar escolhas. Escolhas no contexto, na linguagem e na estructura.

O conteúdo tem que se adequar ao nosso objectivo. Para narrar, temos que relatar eventos. Para descrever um processo, temos que indicar as etapas desse processo. Para argumentar, temos que prover razões e desenhar conclusões.
A linguagem tem que encaixar nas ideias que queremos transmitir e na própria audiência.
Finalmente, temos que apresentar uma forma coerente do seguimento das ideias.

A escrita e a leitura são processos complementares. A partir do momento em que encontramos, no papel de leitores, significado numa página – o que procuramos e como pensamos à cerca do que encontramos – podemos empregar esse conhecimento como sendo uma vantagem na nossa escrita.

teoria do fingimento

o mundo real existe mas temos de o inventar para o ver

retirei esta frase de um filme documental acerca da linguagem cinematográfica de Ruy Guerra, cineasta (brasileiro? o sotaque varia entre o brasileiro e um português sem sotaque regional) que, defende que a realidade é ficcional.
pego neste exemplo para chegar à teoria do fingimento de Fernando Pessoa
(o poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente) .
de facto, não só o poeta mas todos nós somos fingidores, como já se sabe. a vida é uma peça de teatro, uma ilusão em três tempos: passado, presente e imaginário, num tempo unificado que é o que temos como real. ou seja, no caso da literatura, a ilusão é dupla. temos o autor literário e o autor biográfico, no seu expoente temos a heteronímia, mas nem é preciso chegar a tanto. um exemplo bastante básico e concreto. nesta cadeira, todos escrevemos, e na sua maioria muitíssimo bem, com ideias excelentemente bem definidas e vocabulário literário preciso. os posts estão fantásticos, na minha opinião, pelo menos melhor que os meus. quem estiver de fora pensará que as aulas serão um debate constante. porém isso não acontece... aliás, não sei mesmo quem são a maioria das pessoas que escrevem no blog, pois raramente as (me) oiço falar. isto não significa que não tenham as ideias que escrevem nem que não se saibam expressar. mas, digamos em linguagem banal, no blog sao uma pessoa, ao vivo são outra. são a mesma pessoa mas sao pessoas diferentes. nós e qualquer autor. autor literário vs autor biográfico.
hoje fico me por aqui

ps nota ao professor: peço que na próxima aula explique o que é um leitor ciborgue porque tem pelo menos duas alunas que não vão poder comentar esse assunto pois não chegaram a nenhuma conclusão acerca do que isso possa ser

segunda-feira, maio 07, 2007

co-autoria mecânica

já analisámos as capacidades criativas dos computadores, comparando-as então ao estilo aleatório das vanguardas do início daquele que é actualmente o século passado. já confirmámos que um computador pode ser autor, com exemplos visionados, se bem que a qualidade dos seus textos está entregue à sensibilidade, subjectividade e espírito crítico de cada um. coloca-se agora a questão: será que poderá ser co-autor, trabalhando lado a lado com aquele que dá como sua uma obra digital? poderá ser co-autor, na medida em que é dele que depende a existência dessa mesma obra tida como digital?
na minha opinião, se o computador pode ser autor, também será co-autor. aliás, é e não é, mas se é um é o outro. aliás vejo os dois pontos de vista. é autor na medida em que, ainda que aleatoriamente e por códigos estabelecidos por outrém, consegue criar um texto. não é na medida em que criou o texto através de vocábulos que esse outrém lhe inscreveu, formatando-o para o fazer de acordo um um determinado código informático. porém, tal como escrevi anteriormente, também nós nos guiamos pelo nosso dicionário mental, que a comunidade social literária nos incutiu, e criamos de acordo com os códigos dessa mesma comunidade...
inicialmente não achei que o computador pudesse ser co-autor, pois o autor humano utiliza meramente o programa de outro humano. logo, a máquina não teria papel nesse trabalho. mas vendo na perspectiva do computador-autor, uma vez que (por exemplo, tal como na última obra digital analisada na aula) a utilização que o computador faz do programa é aleatória, essa utilização é criação sua.
qualquer dia ainda assistiremos a estudos psicanalíticos das capacidades literárias e estéticas dos computadores...

sábado, maio 05, 2007

(no mínimo) Um Século de Escrita Automática

As vanguardas modernistas do início do século XX viram nascer e crescer dois movimentos artísticos, para além dos demais, semelhantes nos seus princípios mais gerais: o Dadaísmo e o Surrealismo, durante as décadas de 1910 e ’20, respectivamente.
A proposta comum a ambos – e aquela que mais contribui para a nossa reflexão e discussão sobre o assunto – era libertar a arte das rédeas da lógica, da razão, do iminente controlo humano, e introduzir novas fórmulas e processos que permitissem desafiar, nomeadamente, as regras da escrita através de representações caóticas, aleatórias, abstractas, por vezes absurdas, assentes nos dados contidos no inconsciente (o que se identifica com a corrente surrealista, para a qual contribuíram as teorias psicanalíticas de Freud) ou, ainda, contidas em lugar nenhum (o que sugere a corrente dadaísta, em especial).
E é isso o que propõe a escrita automática, conferir um cariz mais banal à arte da criação, quase anti- racional, não o restringindo a figuras extraordinárias e geniais, mas a qualquer indivíduo, sem requerer qualquer espécie de aptidão ou entendimento em particular, o que pressupõe a tão discutida possibilidade de as máquinas serem igualmente capazes de o fazer.
O intuito elementar destes movimentos centra-se na intenção de superar as convenções e alcançar novas dimensões na escrita, dotando-a de novos significados, configurações e fórmulas, aproximando e contrastando elementos, atingindo áreas desconhecidas, inesperadas e até escandalosas formas de arte.
Assim, é inegável a importância das vanguardas para a proliferação de novas dimensões nas artes plásticas e na literatura, sobretudo, o que indica claramente que não podemos pensar nos computadores como os “eternos” mas recentes responsáveis pela automatização da escrita.
Este fenómeno, mais ou menos claro, mais ou menos aceitável, está, na verdade, fortemente presente e reconhecido há pelo menos um século - não menosprezando os pequenos focos individuais que poderão ter surgido anteriormente.

sexta-feira, maio 04, 2007

7 + 7 = 14

Bartolomé Ferrando, escrituras superpuestas (2002), acrílico sobre papel, 35 x 35 cm.


Para os sumários anteriores ver «As primeiras 7 aulas (sumários)».

Lição 8, 23-03-2007
1. Códices e computadores
2. A remediação electrónica do código bibliográfico
2.1. Análise da edição electrónica da Bíblia de Gutenberg (Universidade do Texas)
3. Aspectos específicos do hipertexto electrónico
3.1. Análise do desenho gráfico e da estrutura do sítio web de Arnaldo Antunes

Leituras Recomendadas:
Landow, George P. (1996): “Twenty Minutes into the Future, or How Are We Moving Beyond the Book?”, in Geoffrey Nunberg (ed.), The Future of the Book, Berkeley, LA: University of California Press, pp. 209-237.
Portela, Manuel (2003): “Hipertexto como Metalivro”, in Ciberscópio.


Lição 9, 28-03-2007
Leitura integral do conto de Jorge Luis Borges «O jardim dos caminhos que se bifurcam»
1. O labirinto como símbolo
2. O símbolo como labirinto: a infinitude da significação
2.1. A multiplicação das possibilidades combinatórias na narrativa
2.2. Acontecimentos e tempos paralelos
2.3. A leitura como escolha de um caminho

Obras:
Jorge Luis Borges, «O jardim dos caminhos que se bifurcam» [1941], in Obras Completas 1923-1949, Vol. I, Trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Editorial Teorema, 1998, pp. 490-498.
Augusto de Campos, «sem saída» (clip-poema, 2000)


Lição 10, 30-03-2007
Continuação da aula anterior.

Obras:
Jorge Luis Borges, «O jardim dos caminhos que se bifurcam» [1941], in Obras Completas 1923-1949, Vol. I, Trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Editorial Teorema, 1998, pp. 490-498.
Augusto de Campos, «sem saída» (clip-poema, 2000)


Lição 11, 20-04-2007
Enunciado do Trabalho Final (Projecto A e Projecto B)
Leitura em voz alta de excertos de Exercícios de Estilo [1947], de Raymond Queneau
1. A ficção como exercício combinatório
2. A criação de mundos possíveis na linguagem
3. O mundo como representação
3.1. Correlação entre descrição e objecto: a descrição produz o objecto
3.2. Multiplicação de pontos-de-vista

Obra:
Raymond Queneau, Exercícios de Estilo [1947], Lisboa: Edições Colibri, Trad. coord. Helena Agarez Medeiros, 2000, pp. 94-117.

Leitura Recomendada:
Calvino, Italo (2003): “Cibernética e Fantasmas (Apontamentos sobre a ficção como processo combinatório)” [1967], in Ponto Final: Escritos sobre Sociedade e Literatura, Lisboa: Teorema, Trad. José Colaço Barreiros, pp. 207-225.


Lição 12, 27-04-2007
1. Literatura e matemática: o caso do OULIPO (Ouvroir de Littérature Potentielle)
1.1. Narrativas bifurcadas e combinatórias
1.2. Estruturas matemáticas na poesia
2. A obra aberta e os processos combinatórios
2.1. Algoritmos na escrita: o escritor como máquina de inventar regras
2.2. Modos de participação do leitor
3. Máquinas que escrevem
3.1. Geradores de texto e literatura assistida por computador
3.2. É possível automatizar a criação?

Obra:
Pedro Barbosa, «Syntext» (1977, 1999)


Lição 13, 02-05-2007
1. Práticas artísticas intermédia: exemplos modernistas e pós-modernistas
1.1. A atenção à materialidade dos meios e ao processamento dos signos
1.2. Poesia visual: a escrita como traço
2. A natureza da escrita
2.1. A escrita e a voz
2.2. Decifrar e interpretar

Obras:
Bartolomé Ferrando, «escrituras superpuestas» (2002)
Jason Nelson, «colour» (2001)
Stephen Malinowsky, Claude Debussy, «clair de lune»

Leituras Recomendadas:
Ferrando, Bartolomé (2003): El arte intermedia: Convergencias y puntos de cruce, Valencia: Editorial Universidad Politécnica de Valencia.
Ferrando, Bartolomé (entrevista, 2005): «A Participação na Arte», in Boca de Incêndio, Nº 2


Lição 14, 04-05-2007
1. Escrita automática antes dos computadores
1.1. Escrita automática dadaísta: associações aleatórias como crítica das convenções discursivas que condicionam o uso da linguagem e o pensamento
1.2. Escrita automática surrealista: associações como forma de captar a linguagem do inconsciente
1.3. Escrita automática como comunicação com os espíritos: o autor como medium
2. Autor ciborgue e leitor ciborgue
2.1. Qual o grau de co-autoria do programa ou da máquina numa obra cibernética?
2.2. Formas de participação dos leitores nas obras ergódicas: um autor ciborgue precisa de um leitor ciborgue?

Obras:
MIEKAL AND, seedsigns (2001)
Jason Nelson, hymns of the drowning swimmer (2006)

Leitura Recomendada:
Aarseth, Espen J. (1997): «Ergodic Literature» e «Cyborg Author», in Cybertext: Perspectives on Ergodic Literature, Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997, pp. 1-23, 139-141.

O que se esconde atrás de um poema?

Quando lemos um poema, sentimo-nos tranquilos e sossegados. Com uma certa sensação prazenteira, até. Isto acontece porque damos conta de que existe alguém, em qualquer parte do mundo, que noutra altura, foi sujeito de umas determinadas experiências, sentimentos ou pensamentos pelos quais nós também passamos. Para além disso, esse alguém foi capaz de transcrever essa série de elementos imateriais. Tornou-os visíveis e reproduzíveis através da escrita. O escritor esteve à procura da inspiração, começou várias vezes o mesmo poema, demorou horas em conseguir a rima perfeita… É por isso que admiramos a obra do escritor. E é por essa mesma razão que nos sentimos desiludidos e traídos quando descobrimos que, aquele poema que tanto nos emocionou, foi “escrito” por uma máquina, por um programa informático. Foi criado de maneira artificial, quase sem esforço.
Ora bem, se não reparamos em que um poema foi “escrito” por uma máquina e se a máquina consegue transcrever, do mesmo modo que o poeta faz, certos sentimentos; porque é que rejeitamos esses poemas? Porque é que preferimos os “poemas de artesanato”?
Devemos diferenciar os conceitos de “escrita” e “autoria”. Devemos saber se o que procuramos é uma boa obra ou conhecer que atrás da obra existe uma pessoa, uma personagem.
Mesmo assim e na minha modesta opinião, prefiro saber que existe “alguém” (e não “algo”) atrás do poema que li.

espírito dadaísta

actualmente é-nos ainda muito difícil imaginar um mecanismo automatizado de escrita criativa. não do acto de escrever em si, pois desse temos inúmeros exemplos - desde a correcção ortográfica e sintática do word, com base num dicionário pré-existente e passível de ser completado, ao textos digitais que se constroem automaticamente, a partir de vocábulos e regras de significação estabelcidos pelo autor digital, até aos meios de tradução automática.
porém, não imaginamos um computador que escreva, filosofe, crie espotanea e subjectivamente qualquer tipo de texto literário de dita qualidade. a questão parta talvez daquilo que consideramos como literatura.
os dadaístas, por exemplo. o movimento de dada, extremo do aleatório, procura do non-sense, acabou por se tornar numa das mais mediáticas escolas artísticas da vanguarda do início do séc. XX. também eles recortavam fragmentos vocabulares ao acaso, misturando-as, combinando-os num jogo criativo de signos. também eles, os computadores, o fazem, talvez nós não lhes demos ainda o devido valor. aliás, "automático" não é de todo um termo dos nossos dias. já os surrealistas o utilizavam, e mesmo relativamente à escrita. procuravam, numa cadeia de significações escritas espontaneamente, sem a preocupação de lhes ver um sentido, uma expressão do subconsciente. a máquina combinátória que é o computador consegue igualmente o mesmo resultado, com base num dicionário - tal como nós, com base nos vocábulos que conhecemos... mas quem se interessaria pela psicanálise de um computador?
nesse sentido, a máquina tem tanto espirito criativo como o escritor dadaísta.

quinta-feira, maio 03, 2007

A expressão escrita

Há 25 mil anos o Homem sentiu a necessidade de exprimir, por intermédio de símbolos desenhados e marcados nas grutas, a sua linguagem oral. Esta foi uma das grandes preocupações da humanidade desde então. A escrita foi inventada cerca de 3300 anos antes de Cristo, tendo a sua primeira forma assentado na escrita pictográfica, ou escrita ideográfica, que consistia em atribuir sinais para identificar palavras individuais ou conceitos.
Desde sempre que a comunicação se traduziu num elemento central no âmbito das relações humanas. O aparecimento da escrita veio por isso colmatar uma lacuna que existia na forma de comunicar dos homens. A informação era, antes do aparecimento da escrita, veiculada através da comunicação oral e de imagens, símbolos pictóricos que pretendiam retratar a realidade.
Quando perguntamos a alguém o que é a escrita, provavelmente a maior parte das pessoas irão responder que a escrita é a junção de um conjunto de palavras de modo a criar um significado lógico. Contudo, a escrita não é algo tão linear como a junção de letras ou palavras e muito menos é tão simples de descrever como este simples conceito o faz parecer.
Apesar de podermos não nos aperceber disso, existem inúmeros tipos de escrita, e ao dizer isto não me refiro à variedade textual que todos os dias nos aparecem, como os textos em prosa ou em verso, refiro-me sim a vários tipos de alfabetos e de símbolos, bem diferentes daquele com que habitualmente nos deparamos.
De entre estes vários tipos de escrita os mais comuns são o alfabeto Russo, onde alguns dos caracteres se assemelham às letras que nós conhecemos, o grego com os símbolos que para nós são comummente usados em escrita matemática, o egípcio com os hieróglifos, o chinês e o japonês com os símbolos, e muitos mais que diferem do nosso.
Para além das diferenças a nível visual, também a forma como estes são lidos pode diferir daquela a que estamos habituados, alguns lêem-se de cima para baixo, outros da direita para a esquerda e muitos desses símbolos têm por si só um significado.
Mas será que só os símbolos que estão associados à língua de um país podem ser considerados escrita?
Para além de estar associada à produção de textos, a escrita está também ligada ao mundo das ciências exactas (como à matemática), uma vez que a elaboração de certas equações pressupõe o conhecimento de uma linguagem matemática. Está ainda associada ao mundo musical onde os símbolos inscritos numa partitura aos quais chamamos notas musicais, precisam também de um conhecimento prévio para ser possível a sua leitura.
Na minha opinião a escrita é tudo aquilo capaz de transmitir desde o mais simples sentimento ao mais complexo conhecimento.

quarta-feira, maio 02, 2007

Automatização

"Where the spirit does not work with the hand there is no art." Leonardo da Vinci

A automatização da escrita poderá ser possível, mas, no meu entender, não pode ser vista como um processo criativo e muito dificilmente como uma forma de arte.Isto porque o que a máquina faz é simplesmetente combinar uma série de elementos que lhe foram fornecidos pelo Homem.
Será que criar combinações de palavras pode ser considerado arte?Quanto a mim, soa-me a um procedimento matemático sem qualquer intenção de despertar emoções ou sentimentos.Claro que mesmo sem ser intencional isto pode acontecer visto que o leitor pode não ser capaz de detectar se está ou não perante um autor ciborgue, o que não significa que esteja perante uma obra de arte.No meu ponto de vista,é preciso haver uma intenção por detrás da criação, é preciso pretender chegar até uma ou várias pessoas,é preciso imprimir algo de pessoal, algo que distinga uma obra da outra.
Se começassem a surgir livros cujos enredos fossem conseguidos automaticamente, concerteza surgiriam imensas combinações de histórias possíveis, mas existiria alguma variação na maneira de escrever?Não se tornariam estas obras monótonas?
Será possivel uma máquina vir a ter imaginação,criatividade, sentimentos ou mesmo uma personalidade própria?Talvez, e se isso acontecer, espero que o que for produzido dessa maneira nunca seja em substituição da "arte do Homem", mas apenas mais uma forma de criação.

Máquina de escrever (a.k.a. A automatização da arte)

Não duvido que seja possível automatizar a escrita. Afinal de contas, a estrutura de um texto segue regras lógicas que podem ser facilmente reproduzidas por uma máquina. Basta ela “saber” (por “saber” entenda-se “ser programada para:”) utilizar os artigos, substantivos, adjectivos, e um texto novo estará cá fora num instante. Mas… para quê tudo isso?

Um romance ou um poema não são objectos nem máquinas, cuja criação necessite de ser automatizada. Não são bens que temos de criar de forma compulsiva para fazer chegar ao maior número de pessoas num cada vez mais curto espaço de tempo.

Cada texto artístico é uma obra única, individual. Criada num determinado momento seguindo a inspiração individual do seu criador. Uma obra literária é para ser apreciada, vivida, sentida, de forma pontual e honesta e vive da experiência e do sentido que o seu criador lhe pretendeu dar. Ao se automatizar a escrita (e isso implica ser construída por um algo incapaz de lhe interpretar a essência) estamos a criar algo perfeitamente inútil, cujo único interesse, talvez seja o da mera curiosidade.

“Escrever” vai muito para além de um simples exercício de lógica combinatória.

Claro que existe já muita escrita automatizada por parte dos próprios seres humanos. Autores que se portam como autênticas máquinas para cumprir objectivos comerciais. Textos em série criados para serem vendidos aproveitando modas passageiras e sem qualquer essência. Mas isso… é outra estória.

Autopsicografia

O poema da autoria de Fernando Pessoa “ Autopsicografia” tem como tema principal o fingimento. Deste modo, segundo o autor, o poeta não é apenas alguém que sente, ele transfigura uma dor “ que deveras sente” em dor que vai ser escrita e depois lida por outros, sob a forma de poema. Sendo assim, a poesia não está na dor experimentada ou sentida mas sim no fingimento dela, apesar do poeta partir da dor real. Na verdade, este processo lembra de certa forma, o trabalho de actor que, ao representar, “exprime intelectualmente emoções que, não são suas, mas da personagem que representa, dando-lhes, no entanto, toda a dimensão da autenticidade.” Por isso, podemos afirmar que não existe arte sem imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente.
No que diz respeito ao receptor do poema, este só tem acesso a dor que está escrita no poema e que resultou do processo de fingimento anteriormente referido. No entanto, sendo os leitores também serem humanos que têm os seus próprios sentimentos, eles lêem e interpretam a dor de acordo com o seu estado emocional no momento de leitura do poema, podendo por isso, a sua interpretação estar longe do verdadeiro sentido que o poeta atribuiu ao poema.
Em suma, podemos concluir que a produção poética é um processo complexo que, depois de estar concluído, oferece sempre dificuldade de compreensão total do autor por parte de quem o lê.

A escrita automatizada=Nova forma de arte

As construções feitas pela máquina são pautadas pela perfeição e pela massificação.
Foi graças a elas que conseguiu-se alcançar níveis de produção avassaladores (indústria militar, automobilística, têxtil, etc), e é inimaginável um outro tipo de invenção humana que consiga dar resposta às necessidades cada vez maiores das populações.
No entanto, se a máquina consegue reproduzir com fidedignidade elementos físicos (o carro, independentemente da marca, é sempre um carro), conseguirá ela simular aquilo que é algo bem mais complexo e labiríntico: As nossas emoções?
Pré programada pelo homem, a máquina caracteriza-se por grandes limitações, isto é, é incapaz de sentir emoções. As suas acções são previsíveis, logo as máquinas carecem de uma espontaneidade, apanágio de muitos autores literários.
No entanto, a escrita "non sense" foi uma moda durante alguns períodos, nomeadamente no seio do movimento "beat". Aliás alguns fundadores deste movimento, William S. Burroughs e Allen Ginsberg, recorriam mesmo a um método de (des)construção literário designado "cut-up tecnique" que consistia primeiramente na recolha aleatória de palavras (de diários, jornais, livros), e posteriormente, na tentativa de criar textos com essas palavras.
Com o "cut-up", os textos adquiriam sentidos umas vezes, inenarráveis, outras vezes, intrigantes. A verdade é que influenciaram uma geração, algo comprovativo do desejo dos leitores em descobrir outros modos de leitura diferentes.
Muitos afirmam que a escrita automatizada encontra-se destituída de uma alma.
Na minha opinião, os textos automatizados têm uma alma se os leitores se relacionarem com eles.
A literatura não tem que conter obrigatoriamente, um sentido emocional.
Se a arte surrealista significa algo para muitos, também a escrita automatizada poderá conter um sentido para alguns leitores.

Será possivel a automatizaçao da escrita?

Eu penso que já é possível automatizar a escrita (falando do acto de escrever em si, livre e sem estrutura e sucessão lógica das palavras). Mas a questão que surge logo de seguida é:Será que nós somos capazes de interpretar aquilo que um computador ou um ser artificial escreve? Na minha perspectiva, um computador, nunca vai ser capaz de criar um texto ou poema compreensível para os seres humanos. Pois eu acredito que, para haver um poema, tem que haver criatividade, originalidade e espontaneidade, ou seja, elementos que são essencialmente humanos. É verdade que um computador possui a capacidade para assimilar coisas. Mas “assimilar” não é a mesma coisa que “criar”. Eu acredito que para haver um poema, o escritor ou poeta tem que ter sentimentos ou estar num determinado estado de espírito para que os seus leitores o possam perceber melhor. Pois nunca se ouviu falar de um computador triste ou eufórico. Os sentimentos são outro factor que tornam o ser humano único. Um computador só é capaz de usar as palavras ou frases que foram anteriormente feitas, ou seja, ele é apenas capaz de as reproduzir

Se é possível ou não automatizar a escrita...

...todos sabemos que a resposta é afirmativa. Aliás, já foi feito e continuará a sê-lo!
Agora, a questão é: sabemos nós, sem conhecimentos prévios, distinguir um poema automatizado de um não automatizado? E, sabendo o que temos à frente, seremos capazes de o aceitar da mesma forma que aceitamos algo escrito por uma pessoa que sente, pensa e escolhe?
A meu ver, existem os que não se importam, só lhes interessa o produto final e se os satisfaz ou não. Depois, temos os mais sensíveis, e a esses sim, desde o nascer da ideia ao poema em si, passando por todo o processo de criação, é de extremo interesse. Detêm grande respeito por essas linhas gerais e se se quebram as regras podem, como leitores, sentir ofensa.

Fernando Pessoa

No seu “Autopsicografia” está presente a dicotomia pensar/sentir, a razão em oposição ao coração, a sinceridade e o fingimento.
O poeta é fingidor na medida em que o que transpõem para o papel já não é a primeira “dor”, o primeiro e verdadeiro sentimento sentido no seu intelecto. É já uma segunda ou terceira ideia de uma primeira. É um fingimento porque as emoções passam a ser forma, são filtradas e transpostas em função de uma expressão poética, pois dizer por palavras implica um processo de intelectualização.
Depois, a emoção, o sentimento do leitor será ainda uma outra “dor”, pois ao ler o poema vai sentir estímulos que provocam um determinado estado de alma, que pode não ser o do poeta ou se for, nunca o será na sua totalidade.
Ler os sentimentos de alguém postos no papel pode nem sempre conduzir quem lê a um estado de sensibilidade apesar de toda a sinceridade do escritor.

terça-feira, maio 01, 2007

"Será possivel a automatização da escrita?"

É de facto uma questão pertinente, será possível automatizar a escrita?
Tendo em conta a associação que se faz da palavra automatização a algo feito em quantidade desde de logo aparece a ideia do fabrico em série!
E portanto do meu ponto de vista a qualidade de um trabalho literário, sobretudo quando esse trabalho tem um cariz mais pessoal, existe quando ele não é feito a “metro” apenas para servir interesses comerciais, embora se deva ter em conta que hoje em dia tudo é feito nessa base da indústria e da massificação!
No entanto também é bom não esquecer que foi a automatização da escrita que permitiu que houvesse uma maior projecção e expansão da literatura, isto é foi a automatização que permitiu que a literatura chegasse mais longe e a mais pessoas!
Embora seja verdade que foi a automatização que permitiu que a literatura chegasse mais longe e a mais pessoas, também não é menos verdade que hoje em dia a excessiva automatização da escrita levou á banalização das obras literárias e á consequente perda de qualidade das mesmas!
Concluo assim também que esta não é uma questão de fácil resposta e se por um lado é de facto possível e positiva a automatização da escrita, por outro lado vejo também que esta questão não tem só prós e tem também alguns contras e portanto é uma questão que depende muito da posição de cada um!!!

Labirinto




Estás sempre longe do fim... Nunca sabes o suficiente e quanto mais saber vais possuindo, mais iniciado és.
Estás sempre no primeiro nível de aprendizagem. O topo é distante e foge sempre quando quase o atinges! O topo é o infinito!
Tu podes ser o infinito com a chave da experiência, a boleia da inteligência. Inteligência, essa que não é a concreta, aquela que julgam os mais vulgares ser a inteligência fixa. É pelo contrário a inteligência de resolver os "quebra-cabeças" que surgem. A inteligência que não está escrita, mas sempre pronta a originar-se e a ser flexível.
Atinge cada infinito... e procura sempre o seguinte, porque nunca se atinge o infinito, deste grande labirinto.
Márcia Rocha

Escrevemos




Somos máquinas de escrever, mecânicos, electrónicos, robotizados.
Premimos teclas que deixam no papel marcas.
Somos diferentes, deixamos marcas diferentes.
Processamos o registo de caracteres por um meio.
Somos os criadores da palavra e da linguagem.

Escrevemos para que leiam.
Caneta, lápis, tinta e pedra, são meios infinitos…
Esticamos sentimentos! São mecanizados!
Canela, amor, suor, cama…mimese!
Pura mimese! Representações!
Meras representações!



Márcia Rocha

Os contos de Jorge Luis Borges


Os contos de Jorge Luis Borges são contos de uma forte interactividade com a história e com outros livros, em que se apaga a distinção entre ficção e realidade. Há um gosto pelos enigmas, pelo desafio à inteligência do leitor que tem que agir como um detective, sendo que uma interpretação linear nunca é dada de mão beijada. Há um pormenor em "O jardim dos contos que se bifurcam" (não no conto, mas no livro a que o conto dá título) que ilustra muito bem isto: Em "Análise da obra de Herbert Quain", é dito no final que "As ruínas circulares" (outro dos contos de "O jardim...") é extraída da obra "The rose of yesterday" de Herbert Quain (escritor fictício), e faz parte também do livro "O jardim dos caminhos que se bifurcam". Não sei se é possível decidir se a última referência é ao livro propriamente dito de Borges se à obra de Ts'ui Pên referida no conto que analisámos nas aulas. Talvez todo o livro possa ser lido como a tentativa de construção do labirinto de Ts'ui Pen por Borges.
Estas referências são circulares. Há um enorme número delas, remetendo-nos para outras partes do livro, da obra em geral de Borges, da história da literatura, da história das enciclopédias, muitas vezes desembocando em citações e referências históricas falseadas. Nisso Borges pode ser considerado um percursor do hipertexto, pela trama de ligações que constrói. O espaço web também ele pode ser lido como um enorme labirinto. De facto, quem encontrou o centro ou o fim da web? Ou mesmo a saída? Trata-se de um espaço absorvente e fascinante, que nos distrai da vida lá fora. E que às vezes nos leva até "dead links".
Para Jorge Luis Borges a tradução de um livro podia ser inclusivé superior ao original, pelo que as suas traduções são levemente infiéis (no que há um caso similar em Portugal, o de Mário Cesariny ao traduzir, pelo menos, Arthur Rimbaud). As distorções nos seus livros são não só dos factos históricos, mas as distorções do tempo efectuadas pela memória. A memória age como um elemento libertador, livrando-nos da tautologia dos factos.
Inerente a tudo isto está o signo do lúdico: tudo não passa de jogo, de mero divertimento. E os jogos, é sabido, têm regras arbitrárias: se inventar um jogo, invento também as suas regras. Assim Borges compraz-se em inventar mundos que destrói de seguida, metafísicas experimentais e temporárias. Os labirintos de Borges são convites ao devaneio, onde o sentido não está em encontrar a saída, mas em saber deixarmo-nos perder e apreciar a insólita paisagem. Para o escritor é talvez o prazer de urdir uma teia, de fazer charadas, o gosto das tarefas impossíveis. Borges convida-nos a voltarmos a duvidar, como em crianças, se a lua continua no mesmo sítio quando não a olhamos. É portanto preciso saber brincar para não cairmos na inquietação, como adultos tão "seriosos" que às vezes somos...


"O labirinto", por Jorge Luis Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.

(in Atlas - tradução de Miguel Angel Paladino)

segunda-feira, abril 30, 2007

"Nonsense"

Para leitura e respectiva boa compreensão de um qualquer texto é necessário saber descodificar o seu código.
Relativamente a alguns textos que foram alvo de análise e estudo na aula revelaram-se difíceis de compreender exactamente porque o código em que eles se apresentavam não era um código pouco vulgar pois as regras sintácticas, semânticas são bastantes das usuais pois estas obedecem á completa imaginação e vontade do autor.
Este tipo de textos, “Nonsense”, embora se revele de difícil leitura, depois de descodificado o seu código revela-se um texto bastante interessante pois consegue pôr á flor da pele de forma bastante interessante emoções, sentimentos, opiniões, crenças!
Com este tipo de textos o seu autor explana de forma livre e despreocupada o que quer pois o mais importante neste tipo de textos a é a sua forma e apresentação.
No fundo estes tipos de texto são um hino á originalidade e á liberdade imaginativa de quem escreve, melhor de tudo isto é que também através destes textos podemos a vontade abordar questões e situações do dia-a-dia!!!!

domingo, abril 29, 2007

Técnicas de escrita automáticas

A escrita pode ser, nalguns casos, altamente automatizada. Os processos automáticos podem ser utilizados com intuitos estéticos, ou seja, para fazer arte, embora não em todos os casos. Tudo depende afinal do que se pretende fazer. Em todos os casos será sempre um recurso ao dispor do criador literário, portanto, uma técnica, embora, nalguns casos, uma técnica desadequada.
O uso de processos automáticos pode sugerir combinações de sentido nunca sugeríveis ou dificilmente sugeríveis pela nossa lógica e assim criar-nos o prazer da surpresa. Essa é pelo menos a forma como encaro a utilidade dos programas geradores de texto que trabalham com algoritmos num maior ou menor grau de aleatoriedade na combinação de segmentos linguísticos. Há uns anos descobri um gerador de insultos automáticos na net que me dava "pérolas" como «tens a cara como uma bola de ténis mal barbeada», e a partir dessas frases construí uma estória bastante absurda. Limando umas arestas, poderia ter sido uma boa história, não foi, mas podia ter sido. O que o programa fez foi sugerir-me associações imprevistas de ideias que eu, com limitado bom-senso, reorganizei. Claro que a comicidade das frases do programa que utilizei já estavam previstas e foram procuradas pelos criadores do programa: a máquina é criativa só dentro dos parâmetros em que foi programada. Tentar dotá-la de uma criatividade espontânea capaz de se metamorfosear, isso já levantaria uma série incrível de problemas que dizem respeito à investigação da inteligência artificial.
Todavia ao ler os meus poetas ou filósofos preferidos o meu sentimento é bastante diferente: a experiência é de a realidade me estar a ser dada a conhecer de um modo novo. O texto traz sinais através dos quais eu consigo chegar a novas formas de olhar, pensar e sentir o real (pelo menos eu penso que é o real) que me fazem sentir mais rico. Há uma aprendizagem que em último grau é sobre o sentido da vida, e textos assim não creio que uma máquina os possa criar. Isto porque a minha apreensão do seu sentido está muito ligada à semelhança da estrutura da minha sensibilidade com a do autor: o facto de termos ambos carne, sangue, ossos, sexo, razão, sentimentos, em suma, o facto de sermos humanos, faz com que eu me reconheça no modo de experienciar que o texto revela e determina que o que lá está escrito é relevante para mim.
Há pois, julgo, limites para o uso criativo dos processos automáticos. A reflexão sobre as possibilidades combinatórias da linguagem é uma reflexão puramente formal sobre as potencialidades das estruturas linguísticas que termina a partir do momento que o agente criador determina uma intenção que está subjacente ao texto. Se a intenção do texto for apenas jogar ludicamente com as possibilidades combinatórias, então o texto produzido pela máquina pode ser indiferenciável do humano, mas eu lerei de um modo diferente um texto (idealmente idèntico) caso ele tenha sido produzido por um humano ou uma máquina. No caso de um bom texto automático, eu admirar-me-ei antes de mais com o engenho humano que o tornou possível.
A abordagem à literatura como um conjunto de formas passíveis de serem combinadas e recombinadas chama-nos a atenção precisamente para as técnicas que podem ser utilizadas na criação literária, e para as regras que estão ímplícitas nessa prática. Tais técnicas e regras passam por um conhecimento das estruturas gramaticais da linguagem que nos permite a construção de máquinas poéticas. Todavia essas máquinas, exceptuando a possibilidade de uma inteligência artificial muito avançada (hipótese que extravasa e muito a teoria literária), a partir do momento em que é terminada a sua programação perdem a capacidade de descobrir novas regras, seja, novas formas de composição estética, ou, no limite, uma nova forma inovadora de ordenar sintacticamente a produção de sentido.

"Robotumanização"

Na sua obra "Cibernética e fantasmas", Calvino afasta a teoria romântica da inspiração e do génio e mostra que é possivel fazer literatura a partir de um computador.
Pretende mostrar que a convergência da literatura e da informática traz uma série de fantasmas à realidade cibernética.

Quando falamos nesta possibilidade de a máquina dominar o homem, há sempre um certo cepticismo.
Poderia Deus ter sonhado criar um homem superior ao próprio Criador?
Teremos de dar às "criaturas cibernéticas" a possibilidade de nos derrotar?
Estaremos perante uma "humanização das máquinas" ou uma "robotização dos seres humanos"?

Quando lemos uma obra literária, seja ela de qualquer género, há sempre sentimentos, momentos, pensamentos que são estimulados em nós. Muitas vezes conseguimos compreender o estado de espírito do escritor/narrador através da linguagem usada e da própria maneira de escrever.
Será possível continuarmos a ter esta percepção ao lermos uma composição literária feita por uma máquina sem sentimentos?
Se assim for, a escrita vai deixar de ter o mesmo significado para algumas pessoas...

sábado, abril 28, 2007

Chamar-lhe-ia manifesto.

Com a revolução tecnológica e os progressivamente constantes avanços que no campo da informática têm pautado presença, o processo de escrita tem vindo a sofrer alterações de base. Essas variações muito têm alterado ao longo dos tempos as “normas” e “preceitos” teóricos de escrita, forjando mudanças estilísticas que ora arrastam consigo os preceitos teóricos, ora por eles são arrastadas.
Antes de mais, independentemente de juízos de valor favoráveis ou desfavoráveis, cabe-nos, hoje, a nós, a tarefa de pensar acerca do acto de escrita e de leitura assistida por meios informáticos; cabe-nos evidenciar as suas vantagens e as suas desvantagens. Primeiramente devemos fazê-lo de um ponto de vista científico. E depois, só depois, podemos então, partindo da matéria-prima recolhida, dar forma à nossa própria teoria, conjugação mais ou menos fiel dos preceitos adquiridos e julgados.
Contudo, a nossa divagação atinge o extremo quando nos deparamos com a possibilidade da existência, num futuro mais ou menos próximo, de máquinas capazes de produzir, por si mesmas, obras de índole literária. E aqui, as opiniões dividem-se- tal como se tolera e de certo modo se compreende que dividam.
De facto, o surgimento desta possibilidade “mexe” com todas as ideias que vêm sendo tidas até aqui acerca do processo de escrita. Há ideia vigente em grande parte dos meios é ainda a de que o acto descrita emerge numa corrente denominada inspiração, puro fluxo do tantas vezes citado “estado de alma” do autor. Sobretudo confunde-se muitas vezes o papel de escritor/ poeta com o desempenho do “sujeito poético”.
O trilho que se deve seguir, antes de formular opinião e como base integrante à opinião que será formada, deve ser a via da tentativa para compreender os dois lados em divergência, a tentativa de analisar cada uma das antagónicas parcelas em estudo. Depois surgirá a opinião. E com ela o esboço de todas as ideias em que acreditamos.


  1. todo o espaço é comum. nunca nenhum homem roubará o lugar às máquinas, nunca nenhuma máquina ocupará o lugar do homem. os homens e mulheres irão sempre escrever. não tenho a menor das dúvidas quanto a tal facto. isto, até porque, hoje, a escrita pode já ser considerada essencial e interior à existência humana.

  2. do cepticismo em aceitar ou do homem que não acredita em si mesmo, e quer continuar a não acreditar. toda a escrita é humana (até a computacional). não foram os computadores quem a inventou. e é o homem quem programa os computadores.
    existirá sempre a “mão humana” por trás de cada texto produzido por uma máquina escrevente. a criação do computador deve-se ao homem. a sua evolução deve-se ao homem.
    se algum dia um computador vier a produzir de facto um texto lírico íntegro, esse texto não deixará de conter em si uma grande componente humana- isto no sentido em que foi o homem quem produziu e programou a máquina para aquela tarefa.

  3. ninguém pede aos seres humanos para deixarem de ser seres humanos. os homens e mulheres continuarão a ter sentimentos (que partilharão consigo mesmos e entre si), continuarão a escrever e a ler. ponto assente.

  4. em tudo o que fazemos estão presentes sentimentos. mas, em tudo o que não fazemos não estão presentes sentimentos. se a escrita é uma representação do que fazemos: então é uma escrita histórica ou autobiográfica, não é arte (e o que estamos a discutir é a produção artística). se a escrita é uma representação do que não fazemos: pedaço fictício dos nossos dias ou dos dias dos sujeitos que escrevemos, então esses sentimentos não são nossos, serão, sim, pelo menos em parte, sentimentos usurpados de outrem.

    porém, ainda não foi alcançado o facto que este ponto aspira alcançar. e este é dos constituintes mais importantes e indispensáveis.
    a ideia de que o escritor escreve aquilo que sente- de forma pura e simples- não faz, hoje, sentido. de facto, nunca fez. não houve foi, saliento, durante um largo interregno de tempo, a (auto)consciência e humildade para que este assumisse tal facto.
    existe uma forte componente pessoal tanto no romance como no poema, é inegável. mas é impossível- ou pelo menos é irreal- pensar que um poema é ditado por uma entidade superior ou que um romance é inteiramente escrito sobre uma inspiração vinda sabe-se lá de onde. Eça não escreveu as seiscentas páginas d’ Os Maias sob fluxo de inspiração divina (ou divinatória)! Eça não escreveu os milhares de páginas que escreveu durante toda a sua vida sob um clima místico de inspiração; os milhões de frases que produziu não foram por ele produzidas vindas directamente da sua “alma”; os milhões de milhões de palavras que a sua pena escreveu não foram arrancados de sentimentos inteiramente sentidos e pessoais- se assim fosse, nunca a sua pena teria rasurado uma única palavra, pois todas elas seriam sentidas, todas elas seriam divinamente perfeitas.

  5. a morte daquilo que nunca existiu. a inspiração não existe mais. é urgente derrotar a sua ideia. o que converge à mente do poeta no momento em que a produção de escrita se lhe impõe é, pois, um fluxo diverso, miscelânea de sentimentos conscientes e inconscientes que o levam a produzir signos linguísticos; que o obrigam à escrita. sendo que a escrita, essa impossibilidade de comunicação, reflectirá sempre preceitos básicos e gerais de ordenação e sistematização. ou como diz Lobo Antunes: a escrita não é mais que a «estruturação do delírio».

  6. a pergunta (ou leitura como base de toda a produção escrita).

    exigimos textos com sentimentos. mas, como é que nos apercebemos de que esse texto está dotado de um sentimento pessoalmente vivido pelo autor? a resposta é: somente nos poderemos aperceber (ou isso inferir) através da leitura – isto partindo do difícil pressuposto de que o escritor escreve "aquilo que sente".
    será que um texto produzido por uma máquina escrevente que nos cause um verdadeiro momento de prazeiroso fruir estético (componente emocional intrínseca) deixa de ser tido como belo para nós próprios- quando descobrimos que foi produzido por uma máquina- para passar a ser tido como pestilento lixo?

    o que é o sentimento verdadeiro de um poeta? conseguimos percebê-lo no poema colado ao papel? ou será que nunca poderemos ter acesso a ele, sendo a beleza que possivelmente podemos encontrar no seu poema uma beleza reflectida de nós mesmos, uma “revisitação” de nós mesmos nos enunciados produzidos por outrem?

    porque é que gostamos de um poema, de um romance, de uma música, de uma escultura, de um quadro, de um desenho, de uma obra arquitectónica, de um objecto de design, de uma peça de vestuário: porque é que gostamos de uma obra ou objecto artístico? é porque “nos vemos nela” ou é porque “nela vemos os outros”?


p(re)c

A Automatização da Escrita

Ao longo dos últimos séculos, a história da escrita tem conhecido avanços tecnológicos determinantes.
Já reconhecemos os progressos ao nível dos suportes materiais, da acessibilidade da informação a todas as camadas sociais, do crescente número de utilizadores e de saberes divulgados... mas uma questão fica por resolver.
Se o Homem cria, gradualmente, inventos fabulosos, máquinas capazes de elaborar tarefas humanas e, também, sobre-humanas, atingindo uma quase perfeita capacidade de reproduzir as funções para que foram desenhadas, será então possível a criação ultrapassar o criador?
A questão Homem vs Máquina tem ocupado muitas discussões e o imaginário de muitos autores.
Muitos defendem que as “máquinas” são apenas construções físicas, insensíveis, estéreis, incapazes de produzir obras com sensibilidade, criatividade e autonomia; portanto, com vida. Outros, afirmam que o próprio Homem já é, por si só, uma máquina produtora e que a Ciência, mais cedo ou mais tarde, descobrirá formas de conseguir reproduzir características únicas, nomeadamente ao nível da escrita e da produção artística.
Isto poderá acontecer através do reconhecimento das regras que, implícita ou explicitamente, estão inerentes à existência e ao ser humano, também regido por leis, regras de produção e combinações de linguagem.
Mas esta reprodução das obras humanas apenas se mostra uma solução viável quando as regras são susceptíveis e perceptíveis, quando os autores se tornam, antes do mais, máquinas massificadas, que desenvolvem o seu repertório de forma relativamente sistemática e objectiva.
É erro comum considerar a escrita como a simples expressão dos sentimentos. Para além disso, ela engloba a difusão de conhecimentos de natureza informativa, técnica e científica, nomeadamente, nas quais reina a impessoalidade: o autor distancia-se do que escreve.
Deste modo, parece ser uma realidade perfeitamente praticável. A escrita pode ser automatizada a diversos níveis, mas que não poderão superar o engenho e a arte, das quais o Homem é o grande responsável, por excelência.
O fundamental é desvendar uma forma de as combinar pacificamente, tornando-as uma mais- valia para o progresso, evitando choques e confrontos.
O ideal seria libertar o espaço da produção artística, literária, filosófica, cultural e social para o ser humano, e reservar um espaço relativo à fabricação material, objectiva e em massa para essa entidade artificial que é, obviamente, também ela resultado da intervenção humana. Na verdade, não é justo serem dissociados ou serem considerados eternos e incompatíveis inimigos.
Mas evitar que cada um permaneça no seu lugar é, em si, uma concepção questionável e ambígua e, além do mais, o Homem é, por natureza, um ser insatisfeito e curioso, que continuará com as suas descobertas científicas e aproximando a cada vez mais ténue distância entre criação e criador.
Cabe às gerações futuras ajudar a desvendar este mistério...

sexta-feira, abril 27, 2007

Máquinas VS Sentimentos

Nós, enquanto Seres Humanos, somos seres pensantes e com sentimentos, e podemos exprimir os nossos sentimentos das mais variadas formas, seja através da pintura, da música, da linguagem ou da escrita.

Se estes mecanismos existem para exprimirmos algo, será então possível criar qualquer um deles sem nenhum sentimento neles presente? Será o Ser Humano capaz de se distanciar de algo que nos está tão intrínseco como os sentimentos?

Fernando Pessoa, em Autopsicografia, sugere que o poeta é um fingidor, levando-nos a pôr em causa toda a leitura que um dia nos estimulou sentimentos positivos. Para mim não faz sentido a ideia de escrita sem sentimentos, pois eu acho que em tudo o que fazemos estão presentes sentimentos, desde um duche quente pela manhã à chuva fria que nos apanha desprevenidos num dia de Inverno.

A evolução tecnológica trouxe técnicas que tornam possível a um computador, elaborar textos, como se fosse uma pessoa, mas serão estes textos capazes de despoletar algum sentimento em nós? Serão eles capazes de nos transmitir algo?

A escrita tem a capacidade de provocar reacções positivas ou negativas nos leitores, quer seja por aquilo que transmite, pela forma como está construída ou até mesmo pela pessoa que a realizou. Serão então estas máquinas capazes de ocupar o lugar do Homem no mundo da escrita? Máquinas que no fundo não passam disso mesmo, meros objectos ligados à corrente eléctrica e programados por alguém para desempenhar essas funções.

Será possível conceber um mundo onde as máquinas tiram lugar ao Homem em tudo? Até em algo tão pessoal e sentimental (para muitos um refúgio) como a escrita?

Para mim, esta é uma ideia inconcebível, pois quer seja através de uma caneta ou de um teclado de um computador, o acto de escrita para realmente significar algo, deve ter sempre a mão Humana.

quinta-feira, abril 26, 2007

Oulipo

Em 1960 foi criada, por Raymond Queneau e o matemático François Le Lionnais, a associação Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentiel), isto é oficina de literatura em potencial, que buscava descobrir novas estruturas e padrões para a literatura.
Na verdade, as ambições e as práticas do Oulipo evidenciavam, desde o início, o carácter lúdico e humorístico de um grupo que pretendia inventar (ou reinventar) regras de tipo formal que pudessem ser propostas a amadores desejosos de produzir textos. Revigorando técnicas da antiga retórica, capazes de romper com a crença na inspiração, queriam principalmente encontrar estruturas inéditas e promover pesquisas sobre as potencialidades da linguagem, estabelecendo relações entre matemática e literatura.
Um bom exemplo da obra deste tipo é Os Exercícios de Estilo em que um episódio insignificante é “repetido” noventa e nove vezes numa série de noventa e nove estilos diferentes: "Retrógrado", "Logo-rallye", "Hesitações", "Narrativa", "Vulgar","Filosófico", "Auditivo", "Macarrônico", "Botânico" são alguns títulos desses exercícios.

quarta-feira, abril 25, 2007

Labirintos temporais

Quando falamos em "labirinto" pensamos nun lugar, num espaço onde vários caminhos se cruçam e resulta fácil perder-se. A literatura já usou em algumas ocasiões esta figura, como na lenda grega do "Labirinto do Minotauro" ou no romance de Lewis Carroll, "Alice no país das maravilhas".
Na maioria dos casos, a figura do labirinto é usado como um conceito espacial. Porém, o argentino Jorge Luis Borges apresenta um novo conceito de labirinto no texto "O jardim dos caminhos que se bifurcam". O escritor mostra ao leitor o labirinto como um conceito relacionado com o tempo. Isto é apresentado através do próprio argumento da história , onde as linhas temporais e de acção forma um jogo combinatório, de maneira que se cria um labirinto temporal. As personagens morrem, voltam a aparecer no parágrafo seguinte, encontram outras personagens diferentes... O que seria da nossa vida se tudo fosse um labirinto de labirintos onde passado, futuro e presente se misturam?

"Qu´est-ce que l´OuLiPo?"












Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle) pode traduzir-se como Oficina de Literatura em Potencial.Fundada em França por escritores e matemáticos, entre eles Raymond Queneau e François Le Lionnais, em 1960, esta associação pretendia libertar a literatura, utilizando na criação literária mecanismos de carácter matemático que condicionam a construção do texto, sem lhe tirar a liberdade e a imaginação.
Os autores oulipianos produzem diversos tipos de textos: textos que utilizam estruturas já existentes, textos produzidos a partir da aplicação de restrições (contraintes*) inventadas por eles, exercícios de estilo e textos de “literatura combinatória”
Esta literatura “potencial e combinatória” tem como base operações lógicas como repetir e distribuir elementos iguais e diversos, deslocar unidades semânticas num sentido diferente do normal e permutar determinadas unidades. A partir destas, surgem vários artifícios linguísticos (contraintes) : “A literatura definicional” : substituir palavras pela definição encontrada no dicionário; “S+7”: substituir cada substantivo pelo sétimo que aparece no dicionário depois dele; “Lipograma”: texto onde alguma letra deve ser suprimida; etc
Um bom exemplo de uma obra inserida nesta corrente literária é “Exercícios de Estilo” de Queneau, que conta uma história simples em 99 maneiras diferentes, demonstrando assim a enorme variedade de estilos que pode existir na construção de um texto e as diferentes perspectivas e interpretações que podem suscitar ao leitor.
Também Ítalo Calvino foi um importante percursor deste tipo de literatura, publicando obras como "Se um Viajante numa Noite de Inverno" ou "O castelo dos destinos cruzados".
Actualmente, grande parte das pesquisas do Oulipo estão ligadas á informática, sendo que em 1981 dois membros fundaram um novo grupo: o ALAMO, Atelier de Littérature Assistée par la Mathématique et les Ordinateurs (Oficina de Literatura Assistida pela Matemática e pelos Computadores) que se dedica exclusivamente à literatura e á informática.


*A nomenclatura e definição de todas as “contraintes” podem ser consultadas aqui.

sábado, abril 21, 2007

A literatura habitando a margem extrema do dizível, com alicerces no inconsciente.

Em Cibernética e fantasmas, Italo Calvino defende a existência de uma nova estética literária, já vigente nos nossos dias, mas que ainda não se vinculou suficientemente para se dar a ruptura total com o anterior paradigma.
Herdeira irrepreensível dos ideais da revolução científica do século XIX, esta estética encontra o seu fundamento na argumentação de que a literatura é resultado de um processo de escrita que recorre, numa descrição geral, a combinatórias de signos linguísticos convencionados. Tal ideia não nos oferece resistência, bastando confirmar o facto de todas as palavras escritas serem rebuscadas do vasto campo lexical da linguagem.
Para fundamentar esta sua tese, Calvino recorre por diversas vezes ao longo do seu texto/ conferência ao exemplo do narrador (bardo) das antigas sociedades tribais. Este, a partir de um “catálogo” lexical restrito, produzia uma enorme quantidade de sentidos, através de um sistema de combinações lógico entre as estruturas fixas que dotavam a sua língua.
Nascera, assim, a primeira forma de literatura. Foi através da formulação de enunciados baseados nestas regras- e como afirma Calvino- que o homem começou a «compreender como se desmonta e como se torna a montar a mais complicada e a mais imprevisível de todas as suas máquinas: a linguagem».
Hoje, os enunciados encontram-se evoluídos, sobre uma forma muito mais complexa e de progressiva abrangência. Contudo, não há na maioria dos poetas nem na sociedade em geral a sensibilidade para compreender e aceitar o facto de a produção escrita ser de ordem lógica, mesmo que em grande medida o inconsciente exerça a sua influência sobre os escritos produzidos.
Calvino defende, por isso, a “morte” (da ideia) do poeta inspirado, intuitivo, imediato, autêntico, global, divino, espiritual, representante de uma voz da alma e puro auto-retratador da personalidade. Fá-lo pelo simples facto de que este poeta não existe.
O poeta é, sim, o deliberado construtor de sentidos. Construtor dos que deseja construir, e construtor dos que constrói inconscientemente. (E, aqui, “inconscientemente” pode ser lido “à letra”, significando que o poeta-bardo acaba produzindo sentidos que não tencionara produzir e que estes derivam sobretudo da influência do seu inconsciente.)
Essa emergência de significados inesperados é, sobremaneira, fruto da ambiguidade da língua e das estruturas da linguagem. Pode dar-se, tanto na oralidade do nosso quotidiano, como na literatura. Todavia, se a primeira, de índole comunicacional, a tenta ao máximo evitar, já a segunda- principalmente no respeitante às produções poéticas- persegue-a irresistivelmente. A ambiguidade não serve, de todo, os propósitos da comunicação. Mas, se falarmos de poesia ou mesmo de literatura em geral, sabemos que é necessário o efeito-espelho do leitor no texto que surge diante de si. Logo, uma linguagem polissémica alcançará mais fácil e fidedignamente o objectivo proposto.
Baseando-se nos pressupostos de que a produção literária é suportada por combinações, mais ou menos conscientes, das convenções linguísticas, Calvino defende que há alguma plausibilidade na crença de que, num futuro contíguo, poderão surgir verdadeiras e completas «máquinas de escrever», engenhos mecânicos capazes de produzir textos literários através de uma conjugação lógica das regras gramaticais, do léxico e das regras linguísticas. Já existem alguns modelos que dessa realidade são exemplo. Porém, e fazendo o paradoxo, falta-lhes ainda um pouco mais de humanidade. São capazes de uma produção desorganizada e caótica, mas não conseguem produzir enunciados amplamente ordenados e lógicos- reflectirá isto, parafraseando Nietzsche, a violentamente desorganizada essência da existência… até das máquinas?

Textos Nonsense

Para sermos capazes de ler e compreender um texto é crucial saber identificar o seu vocabulário e linguagem.
Os textos analisados na aula, que surgiam sob a forma de autênticos quebra-cabeças, questões matemáticas e enigmas de significados, continham exactamente esse problema.
O que torna tão difícil analisá-los é o facto da realidade não ser transparente e de ser possível fazer múltiplas combinações d sons, letras e palavras, de acordo com a vontade e imaginação dos autores.
Estes aplicam às suas obras estratégias de escrita semelhantes ao “nonsense” , nas quais o leitor tem a árdua tarefa de “desmultiplicar” aquilo que vê e/ ou lê, de forma a que lhe seja possível compreender as mensagens dos textos.
Geralmente, está patente um cariz humorístico, metáforico e até paradoxal. À primeira vista, não contém qualquer sentido, uma vez que não obedece às leis e regras sintácticas, gramaticais e lexicais que reconhecemos, o que, inevitavelmente, nos obriga a fazer um exercício de reflexão e de problematização extra.
Existe um conjunto de códigos e padrões que precisam de ser identificados para que se perceba o seu significado e se estabeleça uma concórdia entre autor e leitor. Mas este tipo de situações ocorre, também, no banal quotidiano de qualquer indivíduo, nomeadamente de uma criança, que possui uma linguagem específica e enigmática, que nem todos compreendem e partilham (língua dos “p’s”, por exemplo).
Apesar das dificuldades de interpretação, estes tipos de texto são particularmente interessantes e atractivos, sobretudo para as mentes mais criativas.

sexta-feira, abril 20, 2007

Trabalho Final 2007


NOTA: Este trabalho representa 50% da classificação final da disciplina e é obrigatório para alunos/as em avaliação contínua, e facultativo para os/as alunos/as em avaliação final. No caso de alunas/os em avaliação contínua, os restantes 50% resultarão dos textos produzidos para o blogue da disciplina. Alunos/as em avaliação final que optarem pelo trabalho poderão fazer apenas uma parte do exame. Neste caso, a ponderação do trabalho na nota final é de 40%. Nos termos do regulamento de avaliação da Faculdade, haverá uma apresentação/discussão oral do trabalho em data a combinar com o docente. Data limite de entrega: 1 de Junho de 2007.

Ao longo do semestre temos procurado conhecer, interpretar e analisar várias obras inter-media, produzidas quer em suportes tradicionais, quer com recurso ao computador. Vimos designadamente vários tipos de textos combinatórios, sonoros, visuais e cinéticos. Procurámos ainda descrever as propriedades específicas do meio tipográfico e do meio digital. Vimos também argumentos relacionados com questões como meio e mensagem, escrita e leitura, hipertexto e hipermédia, interactividade e participação do/a leitor/a, motores textuais e criação assistida por máquinas, etc. O trabalho que proponho a seguir pretende verificar pelo menos uma destas duas competências: a) capacidade de analisar criticamente, com recurso à bibliografia recomendada, uma obra ou um conjunto de obras literárias digitais; b) capacidade de conceber e/ou realizar uma obra de natureza digital, que deve ser descrita e explicada detalhadamente.

Escolha apenas um dos dois projectos indicados a seguir como trabalho final:

PROJECTO A.
Descreva e analise uma ou várias obras de natureza inter-media e/ou digital. Esta análise deve revelar conhecimento dos problemas teóricos tratados nas aulas e deve estar informada pelas leituras recomendadas. Serão especialmente valorizadas a capacidade de relacionamento e problematização das questões. Extensão do texto: cerca de 3000 palavras.

PROJECTO B.
Consiste na criação de uma obra digital ou de um projecto para uma obra digital, recorrendo a programas de computador (processadores de texto e de imagem, programas de criação de páginas web, etc., como Word, Powerpoint, Flash, FrontPage, Dreamweaver, etc.), materiais encontrados em linha, máquina fotográfica digital, telemóvel, etc. A obra digital (criada ou apenas projectada) deve ser objecto de uma descrição detalhada.

quinta-feira, abril 19, 2007

Labirinto

Um labirinto é constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre. Podem ser construções tridimensionais (como o lendário labirinto de Creta, ou um conjunto de sebes plantadas de forma a proporcionar entretenimento num jardim), desenhos (como os labirintos que aparecem nos jornais como passatempo). Na mitologia grega, o labirinto de Creta teria sido construído por Dédalo (arquitecto cujo nome tornou-se, depois, também sinónimo de labirinto) para alojar o Minotauro, monstro metade homem, metade touro, a quem eram oferecidos regularmente jovens que devorava. Segundo a lenda, Teseu conseguiu derrotá-lo e encontrar o caminho de volta do labirinto graças ao fio de um novelo, dado por Ariadne, que foi desenrolando ao longo do percurso.

quarta-feira, abril 18, 2007

O Labirinto

Um Labirinto é um complicado, perplexo aranjo de curso de coisas ou assuntos. Ou seja é alguma coisa que nos faz sentir preocupados e confusos porque é dificil de entender ou chegar a uma conclusão.
Na metologia grega, temos o Labirinto de Creta que foi construido por Dédalo para a casa do Minotauro que era um monstro com metade homem e metade touro, resultante da relaçao de Pasífae, que era a esposa do rei Minos, com um touro branco que saiu do mar. Ao Minotauro eram oferecidos jovens atenienses. O rei Minos ordenou que sete jovens e sete damas atenienses fossem devorados pelo Minotauro anualmente para vingar a morte do seu filho pelos atenienses.
Depois de alguns sacrificios, Tseu consiguiu matar o Minotauro com a ajuda de Ariadne que era filha do rei Minos e que apaixonou-se por Tseu.

sexta-feira, abril 13, 2007

Aviso (sobre o dia 18 de Abril)

Na próxima quarta-feira, 18 de Abril, não haverá aula de «Literatura e Media na Era Digital», uma vez que estarei num colóquio em Lisboa à mesma hora. Relembro que os textos para a aula de sexta-feira são os textos de Raymond Queneau. Recomendo ainda a leitura do ensaio de Italo Calvino, «Cibernética e Fantasmas» (incluído na bibliografia distribuída inicialmente).

quarta-feira, abril 11, 2007

SOS – O fim do mundo como o conhecemos

Tudo o que começa tem um fim, já lá dizia um pensador chinês da antiguidade (não me perguntem qual, porque chineses há muitos, e por estranho que pareça todos eles são propensos a pensar em coisas profundas). Com o mundo não será diferente. Como começou, um dia terá que acabar. Agora a grande incógnita reside em saber como isso vai acontecer.

Teóricos falam de um meteorito, ambientalistas prevêem alterações climatéricas mortais, vários romancistas criaram estórias de seres de outros planetas que não vêem a nossa existência com bons olhos, religiosos falam de quatro cavaleiros e de rios que sangram (chamem-me descrente mas esta teoria parece ter tanta validade como uma tangerina triangular), e alguns físicos falam da morte da nossa querida estrela: o sol.

É exactamente essa teoria que é explorada por Augusto de Campos no poema SOS. Começando por nos apresentar um cenário a lembrar o espaço exterior (pequeno pontos cintilantes brilham num fundo negro, formando palavras que orbitam de forma verdadeiramente hipnótica), o autor fala de uma noite eterna, uma noite que anoitece, sob a qual caminharemos para um fim inevitável.

O som de fundo, misturado com o registo monocórdico do narrador, criam um ambiente de profunda perturbação… de pânico… de inevitabilidade. Uma criação que apela para um súbito momento de reflexão sobre a sempre caótica resolução final.

Que faremos quando esse momento chegar?

Eu… sinceramente… espero já cá não estar…

“Sem saída” – No início…

… não havia nada. Ok, na realidade havia. Haviam os nossos pais, tios, primos… havia toda uma sociedade já construída, mas isso tiraria parte do dramatismo, e no que a este texto diz respeito (ao nosso plano pessoal) não havia de facto nada. Depois algo aconteceu. Uma pequena faísca surgiu no meio da escuridão e… ali estávamos nós. Toda uma estrada se ergueu perante nós, repleta de desvios prontos a moldar e a influir sobre a nossa existência. Tínhamos começado a caminhar para um destino que estava definido à partida (Não se enganem. Ninguém vai ficar para semente). Restava-nos saber como íam ser as coisas até lá.

É sobre isto que o Augusto de Campos reflecte no seu clip animado. Quem um dia nasceu, um dia vai ter que morrer. Não é por acaso que o clip começa a negro, e do negro começam a surgir as primeiras letras. (“a estrada é muito comprida” surge no princípio, e a analogia é relativamente simples – não é a primeira vez que a vida é comparada a uma estrada)

Também não é por acaso que as palavras se vão formando à medida que vamos interagindo, metáfora da nossa existência e de como nos vamos “criando” através das nossas acções (a própria discrepância entre os movimentos do rato, e os movimentos das palavras, pode ser entendido como um forma de mostrar que estamos longe de conseguir dominar as consequências das nossas acções).

No fim tudo se junta, e temos aquilo que somos. A soma de todas as decisões que alguma vez tomámos.

Que podemos concluir disto?... Bem… Viemos do nada… e vamos para o nada. Não sou nenhum génio da matemática (senão não teria vindo para letras), mas algo me diz que o resto é zero, independentemente do que tenhamos feito ou venhamos a fazer. E cada um tira daí as respectivas conclusões.

“O jardim dos caminhos que se bifurcam” – o Schrödinger tinha um gato

Era uma vez um gato que vivia numa caixa… Mas não era uma caixa qualquer. Era uma caixa mágica. No seu interior encontrava-se um frasco com um pó mágico* que podia ou não matar o gato. Só quando alguém abrisse a caixa é que se podia ver se o gato estava morto ou vivo… Quereria isto dizer que enquanto ninguém abrisse a caixa o gato estaria morto e vivo ao mesmo tempo?

Este é o paradoxo de Schrödinger, um dos criadores da mecânica quântica, e um dos principais impulsionares da teoria dos universos paralelos.

O conto de Jorge Luís Borges assenta nessa teoria. Não existe um presente senão múltiplos presentes, consequência das várias opções que alguma vez tomámos na nossa vida. Quando nos encontramos com uma decisão, são criados paralelamente tantos presentes como o número de opções com que nos deparamos. Se multiplicar-mos a isso o número de vezes nas quais nos vê-mos obrigados a tomar decisões, obtemos um número infinito, não só de presentes, mas também de passados e futuros… Temos portanto um sistema infinito de infinitas variáveis… e isso é o tempo. Um labirinto. Um jardim onde os caminhos se bifurcam.

Eu neste momento - mas noutro universo temporal - não me encontro aqui a escrever este texto. Eu na realidade não escolhi esta cadeira. Não conheço este blog. Não estou neste curso. Aliás, eu nem sequer nasci porque os meus pais nunca se chegaram a conhecer.

Confusos? Não estejam… na realidade uma parte de vocês nunca chegou a ler este texto.

* Na verdade é bem mais que pó mágico o que se encontra dentro da caixa. Mas não vos quero maçar com todo o palavreado técnico. Deixo isso para os físicos e estudiosos que ganham a vida com isso e que realmente sabem do que estão a falar (ou pelo menos tem a obrigação)

“The Loch Ness Monster Song” – O sentido submerso

O sentido vai muito para além do alfabeto conhecido. Isso fica claro depois de se ouvir a obra do escocês Edwin Morgan, “The Loch Ness Monster Song”.

Quem vê a obra pela primeira vez não pode evitar pensar que Edwin Morgan deixou o seu gato à solta por cima da máquina de escrever, e que tentou ficar conhecido por isso. A sequência de letras não forma palavras conhecidas, por isso é natural que o leitor menos habituado a obras experimentais, fique algo desorientado. Mas o mais persistente conseguirá ver para além das palavras. Conseguirá encontrar o sentido, não no texto em si (pelo menos não naquilo a que vulgarmente aprendemos a designar de texto), mas na obra como um todo.

O texto consegue, através de uma série sinais gráficos, levar o leitor, num primeiro momento, a reconhecer alguma da narrativa. (um ponto de interrogação do fim de uma sequência de letras, produz um efeito reconhecido quase universalmente).

Se a esse primeiro momento, acrescentar-mos a audição do texto, reparamos noutros aspectos do texto, devido ao facto do som ser, por si só, um construtor de sentido, capaz de estimular a imaginação do leitor de modo a fazer com que este encontre, não apenas sentido no texto, mas uma forma de visualizar a acção. E ao fim de alguns minutos de volta dos parágrafos, à primeira vista tão ilegíveis, começamos a entender as onomatopeias, e toda uma notação ao princípio tão distante, dando por nós a questionar a razão que terá levado o monstro a mergulhar de forma tão abrupta…

… Será que não nos percebeu? Ou pior… será que não nos quis perceber?

“Pome Poem” – O que é comunicar?

Mais do que o que é um poema, a pergunta que se impõe é: o que é comunicar?

Não nos estaremos a esquecer que comunicar é algo bem mais complexo que a adopção de convenções e de estruturas previamente definidas? Em "Pome Poem", o poeta canadiano bpNichol pretende alertar o leitor (ou será ouvinte?) para a complexidade que envolve todo o processo comunicativo.

Algo como a criação de um simples poema, não se reduz ao acto de amontoar um conjunto de palavras escritas. A obra não é do seu criador, mas antes, é o seu criador: o ar que respira, as gargalhadas que solta, as lágrimas que libertou, os sons que ouviu. É fruto da mistura de sensações e vivências do respectivo autor. E se tal acontece...

... porquê não ir mais além de meia dúzia de estrofes escritas?

domingo, abril 08, 2007

Afinal, No Fim do Arco-Íris Não Existe Nenhum Pote Com Tesouro Dentro- É Sem Saída

Depois de produzidas diversas interpretações pessoais acerca do poema hipermédia "sem saída", de Augusto de Campos, tanto em aula, como aqui no espaço sala-digital, julgo vislumbrar uma interpretação mais ou menos geral e aceite por todos como sendo a mais próxima de uma possível representação da realidade que lhe subjaz.
Assim, tenta servir o presente texto como particular chamada de atenção para a importância das cores utilizadas no referido poema de Augusto de Campos.
Sendo o seu conteúdo marcado por toda uma carga "negra" derivada dos traços tão profeticamente pessimistas que o texto assume, há um encaminhamento imediato do nosso pensamento para um tom monocromático. Porém, as cores utilizadas nos caracteres que lhe dão forma vêm desconfigurar e desmintir a convenção ligada a esta simbologia das cores. Assim, cores alegres e chamativas são utilizadas na transmissão de sentidos negativos para a caracterização do caminho do "eu poético" (se é que podemos considerar que na poesia concreta existe de facto um "eu" delineado e/ou delimitado), metáfora da vida particular de cada um dos homens que constitui a sociedade, e, possivelmente, metáfora do caminho da sociedade no seu sentido aglomeratório.
Tal como Campos ousa construir o seu poema de um modo diferente do habitual: num suporte diferente, com um diferente conjunto de signos: parece que também as cores servem o poema numa diferente direcção.
Sendo que as cores utilizadas são o verde, o vermelho, o cor-de-rosa, o azul, o rouxo, o amarelo e o cor-de-laranja (leia-se: as cores existentes- sendo deixadas de lado as "cores" neutras da ausência de luz, que por isso nem cores são) podemos corroborar a ideia de que há sobremaneira, em "sem saída", uma metáfora da vida, um compêndio daquilo que vivemos e do que fica por viver, quando chegados ao fim desta "estrada"- metáfora, de resto, bastante utilizada como significante representativa da vida, desde a sabedoria popular do senso comum até aos grandes nomes da literatura, dos quais Fernando Pessoa é talvez um dos casos mais repetidamente flagrantes- não existe saída possível de entre todas as hipóteses coloridas que (não) se nos colocam.

sexta-feira, abril 06, 2007

"Sem Saída"

O poema "Sem Saída" de Augusto de Campos é uma obra deveras interessante isto porque é uma obra que pode ter várias leituras.
Quanto a mim a leitura que melhor se aplica a esta obra é a sua conotação com o destino pois penso que em tudo esta obra o reflecte, desde logo os vários caminhos percorridos até se chegar ao "fim da linha".
A vida é feita de opções, diferentes caminhos com diferentes características e óbstáculos, uns com saída, outros nem por isso no entanto todos eles terminam no mesmo a morte!
"Sem Saída" revela aquilo que pode ser o labirinto a ultrapassar pelo ser humano na sua "rota vital" até chegar ao final dessa mesma "rota", a morte!
Augusto de Campos consegue mais uma vez criar uma obra muito ampla naquilo que diz respeito ás leituras a aplicar, e ao mesmo tempo uma obra com variadissímas mensagens implícitas embora quanto a mim a mais forte seja a conotação com o destino como atráz referi!
Parece-me também claro que ao escrever esta obra nos seus últimos anos de vida, esta obra parece reflectir um período de meditação, isto é reflectir nas suas acções e opções tomadas ao longo da sua vida!

quinta-feira, abril 05, 2007

O Fim do Caminho


O conto de Jorge Luis Borges, O Jardim Dos Caminhos Que Se Bifurcam e o poema de Augusto de Campos, Sem Saída, são, de certa forma, análogos.
Ambos reflectem sobre a mesma ideia de labirinto, da enorme encruzilhada de caminhos possíveis de serem tomados ao longo do percurso existencial mas que, no fundo, não têm saída.
Quanto a mim, denoto que surge aqui a dolorosa sensação de morte, a nostalgia, o fim do caminho, o fim da oportunidade de criar – sendo esta a actividade por excelência que alimenta os artistas – ou simplesmente o fim da oportunidade de continuar a viver. Quão terrível...
Apesar de elaboradas em suportes e com estruturas diferentes (sendo uma um conto impresso e outra um clip- poema, formado numa estrutura gráfica e digital díspar, o conteúdo destas obras abalam as consciências e mostram o sentimento dos autores, nomeadamente de Augusto de Campos, quando nos seus últimos anos cria este poema, composto por várias expressões que retractam o que repousa na sua memória e as reflexões que o atormentam: “Não posso voltar atrás”, “Não posso mais adiar”, “O caminho é sem saída”.
Este é um tema que impressiona qualquer leitor enquanto ser humano, que não deixa de ser semelhante ao artista nas suas preocupações, medos e claro, no seu fim.

segunda-feira, abril 02, 2007

"Sem Saída"

Sem Saída de Augusto de Campos é uma reflexão simultaneamente sobre a Vida, o Tempo, a Criação Artística e a própria Literatura Digital.
Sobre a Vida no sentido de too many ways to a dead end pois independentemente de a vida continuar após a morte ou não, esta existe pelo menos fisicamente e é algo do qual não podemos fugir. Para além de que, na continuação do post anterior, por mais diversos que sejam os caminhos que tomemos, estes serão sempre na mesma linha individual e seremos sempre nós. É nesta medida de impossibilidade material de realidades paralelas que reflecte também sobre o Tempo.
Sobre a criação artística enquanto descoberta e invenção, uma vez que não podemos voltar atrás quando criamos algo, podemos oprimi-lo ou anulá-lo mas nunca impedi-lo de existir. Da mesma forma, podemos desenvolver ou continuar, mas não re-inventar, no sentido literal da palavra, algo que outrém tenha trazido ao mundo.
No campo da Literatura Digital, o papel mediador que o computador tem entre o leitor e o poema é fulcral e imediato, já que este existe apenas perante a acção física do primeiro sobre o segundo, salientando a interactividade característica. É visivel também na distribuição e forma como são utilizadas as frases, tanto pela cor (analogia ao arco-íris), fonte (lembra o mecânico) e disposição do ecrã (aleatória de umas perante as outras), típicas do meio digital.

O Tempo - linear e infinito (?)

Do ponto de vista da nossa civilização tecnológica, se há algo comum a todos os seres humanos, é uma mesma unidade temporal, uma vez que na nossa experiência ainda não foi materialmente reconhecida a possibilidade de temporalidades disjuntas. Ao contrário do que aconteceu, e acontece, em algumas civilizações mais rudimentares, temos uma noção linear do Tempo, percepcionado numa continuidade única de Passado --> Presente --> Futuro, como se nos dirigíssemos em direcção a algo, incerto. Esta dimensão de temporalidade contínua complementa-se com a dimensão cíclica base, de dias, noites e estações do ano, que se repetem progressivamente, transmitindo-nos a ideia de que o tempo é infinito. Existem sim, sem dúvida, diferentes temporalidades para cada indivíduo, com diversas linhas de acção alternativa, tal como Jorge Luís Borges procurou metaforizar em O Jardim dos Caminhos que se bifurcam.
Surge assim um dualismo temporal, universal, mas não absoluto, na medida em que, cientificamente, o futuro não está traçado.
É esta dimensão labiríntica presente na obra, com a capacidade combinatória de signos e símbolos que geram uma multiplicidade de significações, e na vida, com a proliferação constante de caminhos com que nos deparamos, de portas que se abrem umas a seguir às outras dependendo das anteriores, que constituem uma das grandes problemáticas individuais, comum também a todos nós, cidadãos da sociedade moderna.
Porém não se aconselha a reflectir demasiado sobre o infinito, pois tanto quanto se sabe, todos os que o fizeram enlouqueceram ...